MITOLOGIA

A punição de Prometeu


As forjas silenciaram em todo o mundo, e durante algum tempo as bigornas e os martelos estiveram momentaneamente pacificados. Quando a noite descia sobre a Terra, as pessoas corriam a se envolver em suas peles, buscando o abrigo das suas cavernas geladas e escuras. Sem o fogo para cozinhar os alimentos, tiveram também os homens de retroceder ao hábito de comer alimentos crus.

Prometeu(Προμηθεύς), vendo que o ser que saíra de suas mãos padecia de incríveis sofrimentos, via-o ocioso, não se deu por vencido, e pretendeu, sem indagar da causa que o levara a este lamentável estado, roubar outra vez dos céus uma fagulha do divino elemento.

— Cuidado, pense duas vezes antes de afrontar novamente a ira divina! — Disse-lhe Epimeteu(Ἐπιμηθεύς), em tom de advertência.

Prometeu, no entanto, surdo aos avisos do irmão, preferiu correr o risco. Aproveitando o escuro da noite, enrolou-se num manto e subiu aos céus, até onde o sol repousava de sua longa viagem. Aproximando-se pé ante pé, puxou das vestes um tição apagado e o acendeu nas costas do astro, que dormia a sono solto. Tapando com a mão a minúscula chama, voltou à Terra e se apressou em devolvê-la aos homens. Antes que o dia amanhecesse outra vez, uma imensa fogueira ardia bem no centro da Terra, onde os homens felizes, foram recolher o fogo bendito para esquentar seus corpos e fabricar outra vez suas armas e utensílios. Dentro de algum tempo, o mundo já estava iluminado e aquecido.

Mas Zeus(Ζεύς), ao saber do fato, irou-se de vez.

— Aquele maldito intrometido saiu outra vez em defesa de seus protegidos! — disse o deus, puxando os cabelos — Mas desta vez seu ultraje não ficará sem resposta! Tragam Prometeu aqui imediatamente!

Prometeu entrou, escoltado por dois duendes pequeninos de ar matreiro. Vinha de cabeça erguida, com um sorriso esboçado nos lábios pálidos. Enquanto isso, Zeus descarregava sobre Prometeu a sua ira e seu rancor:

— Filho de Japetos, você se rejubila por haver roubado o fogo divino e iludido a minha sabedoria; mas esse ato será fatal a você e aos homens. Prometeu — disse Zeus arrastando as palavras — você me desobedeceu. Criou o Homem sabendo que jamais lhe daria permissão para isto, alem disso devolveu-lhes o fogo, privilégio concedido somente aos deuses. E por que o fez andrógino?

Prometeu olhou-o bem dentro dos olhos.

— Eu sabia que só teria a oportunidade de criar um único ser. E quis que ele se multiplicasse no mundo físico. Por isso o fiz macho e fêmea. Além disso o homem assegurou sua superioridade sobre todos os outros animais. O fogo lhe forneceu o meio de construir as armas com que subjugou os animais e as ferramentas com que cultivou a terra; aquecer sua morada, de maneira a tornar-se relativamente independente do clima.

Dos olhos de Zeus saíam raios de ódio.

— Muito bem — disse, mastigando as palavras. — Muito bem. Em parte admiro sua coragem, sua audácia e sua inteligência. Mas ouça bem o que lhe vou dizer pois você será castigado. Jamais permitirei que me desobedeçam impunemente. O castigo que lhe darei servirá de exemplo a todos, inclusive à sua criatura, o Homem, que poderá apreciar a penitência imposta a seu criador por toda a eternidade, pela desobediência ao supremo senhor do Olimpo.

E dirigindo a palavra aos duendes vociferou:

— Quero que ele esteja para sempre preso àquela pedra! — exclamou Zeus, furioso.— Comuniquem aos Ciclopes, pois eles se encarregarão de forjar as correntes indestrutíveis que prenderão este traidor...

— Então que recaia sobre mim toda a fúria de Zeus. Eu estou pronto.

O tilintar sinistro das pesadas correntes ecoava pelo deserto árido enquanto o titã Prometeu, filho de Jápetos e Clímene, caminhava pelos rochedos com as pernas e os braços acorrentados por elos indestrutíveis. Sobre seus ombros pesava um grande castigo por haver desafiado as ordens de Zeus, tendo roubado o fogo dos Céus para presenteá-lo aos homens.

O grande senhor do Olimpo ordenara que ele fosse preso por correntes fortíssimas e cravado numa rocha no deserto, onde deveria ficar por toda a Eternidade. Essa foi a decisão de Zeus, e todos sabiam que não podia ser mudada. Era irrevogável, salvo se ele mesmo desejasse mudar o destino de Prometeu.

Destemido, de cabeça erguida, o titã Prometeu subiu à rocha, enquanto na Terra vivia seu irmão Epimeteu. Ele sabia dos terríveis sofrimentos que o esperavam naquele lugar, embora seu único crime fosse apenas o seu grande amor pela humanidade.

Pesados grilhões pendiam de seus pulsos e tornozelos, e as pontas das correntes eram seguras por uma escrava carrancuda, criada de Zeus, que caçoava do titã a todo instante e sem medo. Seu nome era Bia(βίη), a personificação da Violência, filha de Pálas e Estige.

Atrás dele, com profunda tristeza na expressão e cabeça baixa, caminhavam os ciclopes. Seu rostos demonstravam tanta angústia por causa de Prometeu, e maldiziam seu próprio ofício porque em vez de estarem em suas forjas, agora teriam de trabalhar contra o protetor do homem, cravando-o à rocha.

O pior de tudo é que eles sabiam que, em vez de estar sendo punido por um crime, Prometeu estava sendo castigado por um bem que havia feito à humanidade. E a dor deles aumentava à medida que se aproximavam do ponto escolhido.

Depois de muito caminhar, afinal eles chegaram. Haviam atravessado a Trácia, cruzado o rio Istros, toda a Cítia e agora viam-se diante dos imponentes picos do Cáucaso de onde se avistava, ao longe, o mar encrespado pelos Ventos. Ninguém jamais havia posto os pés naquele desolado ponto do deserto, lugar de rochas agudas e precipícios, onde o vento soprava assustador.

Não se via uma única folha de vegetação por ali, tudo era só solidão. Desde os tempos imemoráveis, os picos eram fustigados pelos áridos Ventos, e as costas nuas recebiam as pancadas das impetuosas ondas do tempestuoso Axeinos, o futuro Póntos Euxinos.

Aos pés da montanha, Bia, a serva de rosto de pedra, parou. Seus lábios se entortaram com um riso sinistro:

— O lugar é aqui. Este rochedo recebe o total impacto de Boreas(Βορέας). As tempestades e as nevascas do inverno castigarão para sempre o teu corpo e, durante o verão, Hélios(Ἥλιος) vai transformar-lo em cinzas. Que você, Prometeu, seja acorrentado a esta rocha para mostrar aos homens que ninguém fica impune quando desafia as ordens de Zeus!

Depois, olhando ameaçador para o maior dos ciclopes, e gritou, furiosa:

— Vamos, o que está esperando? Comece a trabalhar! Prenda-o à rocha imediatamente para que ele não escape! Depois, enterre este cravo no peito dele para segurá-lo de pé, impedindo-o de ajoelhar-se ou inclinar o corpo para os lados, a fim de que jamais possa dormir! Prometeu não terá sequer um único instante de repouso em sua eterna tortura! É bom que ele seja imortal, porque, com isso, Tânatos jamais porá fim aos sofrimentos deste criminoso!

O Ciclope pigarreou e respondeu:

— Não sei qual de nós é o criminoso. Talvez seja você ou mesmo eu... mas Prometeu não! Oh, filho de Japetos, meu coração está dilacerado por sua causa, mas não posso desobedecer as ordens do senhor do Olimpo! Preciso acorrentar-lo a essa rocha. E por quê? Só porque você deu tantos bens aos homens!

— Cuidado com o que diz, ferreiro! Não desperdice sua tristeza com este ladrão!

— Sua língua é ainda mais monstruosa do que seu próprio rosto! Já era tempo de você entender que roubar e dar são coisas diferentes! — Retrucou o Ciclope.

— Se o senhor de todo o mundo disse que ele é um ladrão, um criminoso, para mim basta. O que Zeus pensa, eu também penso, pois neste mundo só o próprio Zeus é livre. Você sabe perfeitamente que a liberdade que temos devemos apenas a ele.

— Liberdade para fazermos o mal! Liberdade para obedecermos sem discutir! Isto é liberdade? Pois entre nós existe um ser com espírito corajoso e muito mais nobre do que podemos imaginar — um ser que é mais livre que o próprio Zeus, embora esteja ele acorrentado!

— Prometeu? Ficou maluco? Se Zeus escutar suas palavras, vai nos fulminar com um raio... e não vejo porque eu seja obrigado a pagar por sua língua venenosa. Prometeu é um ladrão e criminoso, foi o que Zeus outorgou, e assim o é. Agora, faça o seu serviço ciclope! Acorrente-o à rocha e deixa que ele se amole!

— Não, não! Se existe alguma luz, alguma liberdade neste mundo, ela está aqui, acorrentada diante de nós. Eu preferia não haver nascido do que ser obrigado a crucificar com minhas próprias mãos o mais nobre de todos os deuses! Mas existe uma única esperança que me anima: é que, no final, a verdade há de triunfar. Por mais que dissimulem ou disfarcem os fatos... a verdade há de triunfar!

E Bia ordenou, erguendo os punhos:

— Basta! Se não se cuidar, acabará tendo o mesmo destino dele. Talvez só um castigo desses fará você pensar direito e dar maior valor à pouca liberdade que possuímos.

O ciclope resmungou:

— Então, agora a Violência vai querer se meter e nos ensinar o que é liberdade? Entende isso, amigo: não tenho medo dos sofrimentos que Móros possa nos reservar, sabia? — Dizendo isso, a expressão do ferreiro ficou ainda mais triste.Então, ele acrescentou:— Se eu ligo ou não para o que possa me acontecer, há uma coisa que não posso fazer: é ir contra a vontade de Zeus e evitar o Destino que me foi traçado!

Fez-se alguns momentos de silêncio. A expressão de Bia ficou ainda mais carrancuda. Estava mais do que visível que ela não se aguentava mais de impaciência. O ciclope porém, não lhe deu atenção. Só depois de um bom tempo que, limpando a garganta, pegou o martelo e começou a trabalhar.

— Mais força! Enterra fundo o cravo na rocha!

A sólida rocha retiniu, e todo o Cáucaso estremeceu aos terríveis golpes desfechados pelo ferreiro dos deuses. As marteladas ecoavam como trovões pelo mundo inteiro. Agora, Prometeu estava firmemente preso à rocha por correntes tão fortes que nem o próprio ciclope conseguiria partir.

— O cravo! Enterra-o ao peito dele para cravá-lo à rocha!

A ordem foi executada. A montanha inteira gemeu como se a própria rocha agonizasse, mas nem por isso escapou o menor som dos lábios do indobrável titã. Altivo, de pé, ele enfrentou até ao fim a horrível tortura e o tempo todo ficou com o olhar firme no horizonte. Olhava longe, muito além do mar tempestuoso, olhava para o lugar onde os homens viviam e trabalhavam. Portanto, estava virado em direção do Ocidente.

Depois de terminado o serviço, Bia olhou ameaçador para Prometeu e disse-lhe:

— Agora, pragueje contra Zeus o quanto quiser! Aqui no deserto, ele jamais o ouvirá e nem há de querer ser ouvido! Agora, preste atenção a este conselho: quando quiser voltar a roubar os deuses,dá o produto de seu roubo a outro deus e não aos homens! Somente um deus poderá, no futuro, tirá-lo deste castigo. Não existe mortal algum que consiga partir estas correntes para libertar-lo.

O deus não entenderia, mas haveria sim um dia em que um homem daria a liberdade ao titã, e talvez Prometeu já soubesse disso.

— Agora, vamos embora. Uma vez preso, talvez reconheça o poder de Zeus e arrependa-se pelo mal que praticou. Mas mesmo assim, de nada vai adiantar, porque quando os deuses resolvem algo, não há o que altere tal situação.

Dito isto, Bia partiu. Zeus não teria motivos para queixar-se dos seus serviços, pois havia cumprido todas as ordens à risca. Com isso, o maior inimigo de Zeus ficaria preso à rocha, enfrentando a eterna agonia. Agora sim Prometeu estava só. Aí, o silêncio do deserto foi quebrado pelo profundo gemido que escapou do peito do titã acorrentado. Só depois que seus algozes foram embora que ele deixou transparecer a dor que sentia.

— Ó Terra, Céus e o brilhante Sol que a tudo observais! Vejam como sofre um deus acorrentado à rocha por castigo daqueles de sua própria espécie, por haver ele cometido um crime que não é crime algum! Acusou-me Zeus de ter-lhe roubado o fogo para entregá-lo à humanidade! Sim, eu roubei! Eu também sabia qual castigo me esperava porque posso prever o futuro. Mesmo assim, não hesitei. Sejam quais forem as torturas que terei de enfrentar, eu não me arrependo! Sofrerei humilhação e castigo eternos até que a justiça triunfe e se espalhe por toda a Terra!

Em seguida, Prometeu calou-se. Parecia ter ouvido alguma coisa, um som semelhante ao de folhas secas arrastadas pelo Vento. Pouco depois, viu que as Oceânides, deusas das águas, se aproximavam. Eram as filhas do velho Oceano(Ὠκεανὸς), o grande titã que abraçava o mundo inteiro com suas águas e seu grande amigo.

Elas se aproximaram... e ao verem de perto a terrível cena, um grito de dor escapou-lhe dos lábios. Por uns momentos, ficaram imóveis, caladas, incapazes de acreditar no que estavam vendo. Finalmente, a mais idosa do grupo quebrou o silêncio:

— Ouvimos as pancadas do martelo e aqui estamos para trazer-lo as bênçãos de nosso pai para tentar suavizar a sua dor, ó infeliz Prometeu! Entretanto, o que estamos vendo vai muito além de nossa imaginação. Não conseguimos compreender a cena que nossos olhos vêem!

— Ó filhas do grande Oceano, fiéis amigas! Onde quer que haja sofrimento, vocês sempre são as consoladoras. Pois aqui estão vendo a tortura à qual Zeus me condenou: ficar acorrentado a esta rocha como um sentinela que ninguém deseja libertar!

— Nossos corações estão partidos por sua causa, Prometeu. Você é a luz e a esperança da humanidade. Zeus, porém, governa com extrema severidade e terríveis castigos. Se é justa ou injusta a sua punição, ainda não sabemos. Mas mesmo que você fosse culpado, não acreditamos que crime algum merece tal castigo!

Prometeu contou a elas o motivo de seu sofrimento, despertando nelas indignação contra o senhor dos céus. Passado algum tempo, Todos olham para o céu, inclusive Prometeu, e logo reconheceram entre as nuvens um carro puxado por um cavalo alado, à altura do horizonte. Era Oceano, filho de Urano e Gaia, que aproximava-se chegando de suas distantes terras para, naquela hora de dificuldades, ajudar o seu amigo e sobrinho. Humilde e puro de coração, o titã Oceano vivia solitário, afastado do Olimpo, porque não suportava ver a injustiça que dominava o mundo. Agora, porém, seu grande amigo e sobrinho estava em uma situação difícil, e ele achou que deveria ir ajudá-lo. Quando Oceano viu o grande benfeitor da humanidade cravado à rocha, seu coração encheu-se de tristeza.

— Que é isso que meus olhos vêem? Por que há tanta injustiça no mundo?

— Lembra-se, Oceano, daquela vez quando ajudamos Zeus contra nossos irmãos, os titãs?

— Claro que me lembro! E até hoje vivo retirado do Olimpo. Hei de fazer Zeus lembrar-se de nossa velha amizade! Sei como abrandar-lhe o coração para que o liberte. Mas procura manter-se sempre longe, Prometeu. Você sabe como Zeus é severo ao aplicar suas leis sobre os demais deuses... e ninguém pode desobedecê-lo!

— Esse é o ponto. Esse é exatamente o motivo pelo qual te peço para não ir conversar com Zeus. Cuidado, Oceano meu tio! Do contrário, o mal poderá cair sobre tua cabeça também. Talvez em lugar de conseguir abrandar o coração de Zeus, você o deixará ainda mais irritado. Nada conseguirá fazê-lo deixar de sentir o ódio que sente por mim agora.

Eles continuaram conversando, e ao ver que Oceano pretendia questionar Zeus por suas ações, o titã o impede, pois temia que o amigo sofresse uma punição pior que a sua. Assim, não o resta escolha senão retirar-se de lá. O rosto do velho titã entristeceu, pois acabava de compreender que nada poderia fazer para ajudar, uma vez que o próprio Prometeu não queria mudar de ideia. Com o coração apertado, Oceano voltou ao carro, pegou as rédeas e afastou-se pelo Céu afora puxado pelo corcel de grandes asas. E gritou às filhas:

— Não o deixem sozinho!

Pouco depois desapareceu.

Fonte: Olimpo - A Saga dos Deuses
Emmanuel Mourão - Mitologia grega ao alcance de todos.

Foto: Genzoman.
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