MITOLOGIA

Cosmogonia (Gênesis) - A Origem dos Deuses Primordiais


No princípio, existia apenas o Caos(Χάος), Vazio primordial, vale profundo, espaço incomensurável, matéria eterna, informe, rudimentar, mas dotada de energia prolífica que precedeu toda a existência. Não havia luz e também as trevas não existiam. Era o Nada, o vazio total. Nele o Grande Espírito existia sem consciência de sua própria existência.

Não havia o Tempo, não havia o Amor, não havia nada. Mas a não-consciência do Grande Espírito não impedia sua existência, mergulhada em sono eterno, sono que pulsava em cadências de expansão e recolhimento. E este movimento milenar, chamado Demiurgo, começou a organizar o Caos em ondas de energia. E passou a existir a consciência dessa energia.

No Caos, no Nada, o Grande Espírito conheceu sua própria existência. E sentiu o impulso de projetar-se pelo espaço infinito, de abrir suas imensas asas e limitar nelas o Universo então vazio. E começou a vibrar. À medida que se expandia através do Caos, ia deixando impressa a possibilidade da existência. A consciência da existência fez vibrar o Caos com intenção.

O Caos vivia sozinho em um espaço completamente vazio e nada existia a seu redor. Não havia nem o Sol, nem a Luz, nem o Céu, nem a Terra. A única coisa que existia em algum ponto do Universo era uma escuridão sem forma. Por isso, cansado da solidão, foi que teve a idéia de criar. Daí, dotado de grande energia prolífera, deu forma à escuridão, formou-se uma energia que se foi reunindo em negros agrupamentos

E assim surgiram duas divindades primordiais, as quais emergiram do Caos, e que simbolizavam de diferentes formas as trevas primitivas. Nix(Νύξ), a noite, representava a escuridão situada logo acima de Gaia, envolvendo-a com seu manto negro.Junto com Nix surgiu seu irmão Érebos(Ἔρεβος), aparentemente, a escuridão profunda que se formou no momento da criação, e mais tarde ficou localizada no mundo subterrâneo. E os dois irmãos, unidos, mas tão opostos, coexistiram no seio do Caos.

E assim foi que no Universo, antes vazio, passaram a existir os irmãos sombrios, Nix e Érebos, unidos pela própria escuridão. Inicialmente, Nix uniu-se a Érebos, e, tencionados em si mesmos, explodiram em luz e depois desta explosão, numa lentidão que só acontece fora do tempo, nasceram Éter(Αἰθήρ) e Hemera(Ἡμέρα), as primeiras entidades luminosas de um mundo até então totalmente escuro. Éter (Αἰθήρ) era a luminosidade pura e brilhante da região superior da atmosfera, próxima à abóbada celeste; Hemera personificava o dia, isto é, a luz que brilha logo acima da terra.

Com isso, Érebos não tinha mais espaço para viver entre as divindades aladas do Cosmos, então penetrando nas entranhas da Terra, se transformou na Sombra interior do Orco. Tornou-se parte dele, onde seriam acolhidas as criancinhas mortas prematuramente, as vítimas de falso julgamento e os suicidas por motivo de paixão... Antes de chegarem ao Érebos, se encontrariam as almas perdidas, que não haveriam de ser sepultadas.

Quanto a Nix, solta no Caos agora cheio de luz, começou a encurvar-se até transformar-se numa esfera, que começou a vibrar, procurando expandir-se ainda mais. Estavam criadas a luz e as trevas. Luz e trevas eram a consciência dualizada. Eram o mais e o menos, o positivo e o negativo. Eram luz e eram trevas.

Nix pulsava e se expandia, mergulhada na luz. E teve a consciência de que a luz era o oposto que a complementava. E na tentativa de expansão, na tentativa de tornar-se una com o éter luminoso, a esfera em que havia se transformado partiu-se ao meio e as duas metades se separaram. Era o Ovo Primordial que se partia graças à ação da luz.

E do esforço único dessa separação nasceu Eros(Ἔρως), o amor, "o mais belo dentre os deuses imortais", representando o impulso amoroso que compeliu as primeiras divindades a se unir para gerar descendência. Amor energia, Amor ígneo que ocupou o Nada, impregnou o Universo despertando a semente da Vida. Deu-lhe movimento.

Alem de Eros, Caos engendrou o pavoroso Tártaro(Τάρταρος) era uma espécie de abismo distante, localizado bem abaixo de Gaia(Γαῖα). Região de trevas profundas e eternas, mais escuras do que a noite, e ali os deuses encarceraram seus maiores inimigos.

Com isso, o Amor uniu, por fim, a luz e as trevas. As duas metades de Nix converteram-se, uma na abóbada celeste — Urano(Οὐρανός), e a outra na Terra — Gaia. Urano é a personificação do céu estrelado; emergiu de Gaia e imediatamente a recobriu em toda a sua extensão, tornando-se seu consorte. Gaia ou Gaia, a "terra-mãe", a mãe dos deuses e dos homens, personificava a inesgotável capacidade geradora da terra.

Foi a primeira entidade divina e a emergir do Caos primitivo e dela provêm as linhagens divinas mais prolíficas, os piores monstros e também todos os seres humanos. Gaia continha em si as densas partículas do mundo físico e as mais sutis do mundo astral e, quanto mais consciência tinha de si mesma, mais promovia as transformações iniciais de sua existência física.

O Orco, por sua vez, tornou-se demasiadamente sombrio. Ficava nas profundezas da Terra, enquanto Caos imperava no ponto mais alto do espaço. Uma bigorna, do Caos ao Orco, levaria nove dias e nove noites para cair, e só no décimo dia atingiria o chão. Todo ser que atingisse o Orco, sugado pela Terra e desnorteado por fortíssimos redemoinhos, mesmo no espaço de um ano, não conseguiria atingir os pontos extremos daquele mundo subterrâneo e não alcançaria a saída, a menos que fosse guiado por algum deus ou demônio do lugar. Era no coração desse mundo pavoroso, do qual até os deuses primordiais tinham medo, que vivia escondida atrás de nuvens negras, a Corte de Nix, a Noite.

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Fonte: Olimpo - A Saga dos Deuses
Emmanuel Mourão - Mitologia grega ao alcance de todos.

Foto: A/D - Arquivo OpenBrasil.org
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