MITOLOGIA

A caixa de Pandora (Ânfora)


Agachado no chão, Epimeteu(Ἐπιμηθεύς) catucava a terra com um graveto, à procura de insetos para alimentar as gralhas. Quando Prometeu(Προμηθεύς) confiara a preciosa ânfora a seus cuidados, Epimeteu cercara-se de preocupações. Raramente saía de sua gruta, a não ser para participar dos rituais. Conseguira duas gralhas barulhentas, que se habituaram a permanecer pousadas nos galhos secos que colocara, um de cada lado do objeto e, quando subia com os deuses ao Santuário dos Santuários, lá permanecia de ouvidos atentos a qualquer alarme das aves.

Mas, até então, nada havia acontecido. Nem por um momento passara-lhe pela cabeça a ideia de espreitar o conteúdo da ânfora. Às vezes, distraído, apenas admirava os belos desenhos que Prometeu entalhara na madeira escura. Eram aves de rapina, animais alados de toda a espécie, com uma expressão terrível nos olhos. Pareciam prontos a atacar, mas pesadas correntes prendiam-se a seus pés. As garras retorcidas agarravam-se às pernas uns dos outros, ou às correntes.

Epimeteu gostava de apreciar os desenhos e lamentava que tão excelente artista, como era o irmão, fosse condenado a passar o resto da eternidade atado a uma rocha. Uma vez conseguira fugir e apareceu em sua gruta, oculto pela escuridão da noite. As gralhas acordaram, assustadas, e encheram o silêncio com seus gritos agudos. Depois de acalmar as aves agitadas, Epimeteu abraçou o irmão com alegria. Prometeu esboçou um sorriso, mas havia tristeza em seu olhar.

— Epimeteu, meu irmão, está tudo bem com você? Ninguém o perturbou, por causa da ânfora?

Curvou-se, para examinar o objeto.

— Não, Prometeu. Acredito que os deuses não sabem ainda de sua existência. Até hoje, não recebi nenhuma visita perigosa.

Uma expressão de alívio passou pelo rosto de Prometeu.

— Ela continua forte e segura — disse ele. — Não deixe que se impregne com a umidade das chuvas, para que não se deteriore. Espero que ela resista indefinidamente.

— Não se preocupe, irmão — disse Epimeteu, procurando tranquilizá-lo. — Este receptáculo foi muito bem construído. É resistente e estou certo de que não oferece o menor perigo. Agora, sente-se, vou trazer um caldo quente. Parece tão enfraquecido.

Prometeu ali permaneceu durante o resto da noite, mas, pela manhã, os raios dourados de Hélios(Ἥλιος) o alcançaram e, pouco depois, vieram os emissários do Olimpo e levaram-no de volta à rocha. Ele não se importou. Sabia que conseguiria fugir novamente...

O graveto entrou pela terra fofa e descobriu uma colônia de pequeninos insetos. Epimeteu catou alguns e colocou numa cabaça a quantidade suficiente para aquela refeição das gralhas. Cobriu o resto com a terra úmida e deixou o graveto meio enterrado, marcando assim o local onde encontrara os insetos. Mais tarde, voltaria para buscar mais. Entrou na gruta e alimentou as aves.

— Calma, meninas! — e com a mão livre afastou as gralhas, que brigavam pelo mesmo inseto. — Calma! Há bastante para as duas! Sejam educadas!

Escutou, vindo de longe, o ruído estalado de um galho quebrado.

— Deve ser algum duende — pensou, enquanto distribuía o último par de insetos.

Outro estalo mais perto fez com que esquecesse as gralhas e corresse à entrada da gruta. Ao longe, as verdes ramas se agitaram, revelando a chegada de alguém. Franziu o cenho e procurou ver quem chegava. Andava desconfiado.

Na véspera, à noite, vira a negra silhueta dos deuses subindo, silenciosos, em direção ao Santuário dos Santuários. Com certeza iriam participar de algum ritual. Achou estranho que não tivesse sido convidado também, como fora nas outras vezes e escutou de sua intuição clamores de alerta.

Um arbusto estremeceu, logo à sua frente. Epimeteu retesou todas as fibras de seu corpo e uma sensação de perigo iminente colocou seus sentidos em alerta. E viu, surpreso, surgir de dentro das folhagens uma bela moça.

Os cabelos castanhos, espalhados sobre os ombros, emitiam reflexos dourados. Uma túnica curta, presa à cintura por um cinto de metal, não conseguia esconder o contorno firme dos quadris e deixava ver as pernas longas e bem feitas. Os seios pequenos e roliços projetavam-se para a frente, esticando o tecido macio. O rosto bonito tinha um ar de gracejo e os lábios rosados e úmidos sorriam levemente. A sensação de perigo aumentou, mas Epimeteu ignorou-a, ante a inocente presença da jovem.

— Quem é você? — perguntou, desfazendo a ruga da testa.

Ela aproximou-se mais, ondulando o corpo com graça.

— Sou filha de Zeus(Ζεύς)— respondeu ela.

Epimeteu olhou-a, cheio de desconfiança.

— Nunca a vi antes, no Olimpo. De onde veio?

— De longe, de muito longe. Minha mãe é uma das ninfas dos bosques encantados.

O rapaz a rodeou, curioso.

— Como é o seu nome? — perguntou, enfim.

— Pandora(Πανδώρα) — respondeu ela com simplicidade.

Epimeteu, confuso, não conseguia compreender o porquê dos avisos aflitos que recebia de sua intuição. Em sua mente só um pensamento: "Ela parece uma nuvem branca que enfeita o Céu". Cautelosamente, continuou com seu interrogatório.

— E por que veio ao Olimpo?

— Minha mãe quis que fosse assim. Disse que, sendo eu filha de Zeus, deveria vir para o Olimpo e casar-me com algum deus.

O coração de Epimeteu disparou a bater furiosamente e, por instantes, ele não soube dizer o que soava mais alto em seu interior, se os gritos de alerta da intuição ou se as batidas desgovernadas do coração. Pigarreou, procurando acalmar todo aquele ruído interno.

— Quer dizer que vai se casar com um deus? Já escolheu seu noivo?

Ela deu uma risada alegre.

— Escolheram para mim. Estou prometida a Apolo(Ἀπόλλων) — mentiu ela, descaradamente, mais uma vez.

Epimeteu fez um ar de descrédito.

— Apolo nem está no Olimpo! Atualmente vive em Delfos, cuidando do seu Santuário.

— Mas virá me buscar, assim me disseram.

A ideia de não mais voltar a ver a moça trouxe uma preocupação tão grande à sua mente, que calou a voz de sua intuição.

— É mesmo? — murmurou ele, procurando esconder sua decepção. — E quando será isto?

— Não sei. Apolo é um deus muito ocupado.

— Ninguém pode ser tão ocupado a ponto de demorar a ter para si uma noiva tão bela.

Pandora deu uma gargalhada. Depois despejou nele um olhar profundo e penetrante.

— Você me acha mesmo tão bonita assim?

Epimeteu sentiu-se atraído pelo olhar da moça. Não respondeu logo. Chegou mais perto e roçou com os dedos a pele macia de seu rosto. Ela se deixou acariciar com um sorriso enigmático nos lábios. Um odor de flores silvestres emanava de sua pele rosada e enchia de desejo os sentidos do rapaz.

— Você é bela, muito bela... — murmurou ele, tentando atraí-la para si. Ela riu e afastou-se delicadamente.

— Não se esqueça de que estou prometida a Apolo. Não quero provocar a ira dos deuses.

Jogou um beijo de longe, voltou-se e desapareceu entre as folhagens. Epimeteu deu um passo à frente, pensando em segui-la, mas desistiu, com medo de afastar-se muito da sua obrigação. Voltou à gruta e atirou-se sobre as peles de carneiro que, amontoadas num canto, serviam-lhe de cama. Dormiu um sono agitado, observado pelo olhar atento das duas gralhas. No dia seguinte, a razão falou mais alto.

— Louco! — exclamou — Deixando-se perturbar pela primeira mulher que aparece!

Uma das gralhas gritou e agitou-se em seu galho seco.

— Já vou! Já vou!... Sei que estão com fome.

Foi catar mais insetos.

— Que perigo! — resmungou, enchendo a cabaça com os bichinhos. — E se fosse uma armadilha? Meu irmão me avisou tanto!

As gralhas comeram com sofreguidão.

— Será mesmo? — pensou, vendo as aves disputarem os insetos. Tão bonita, tão frágil... Como poderia me prejudicar?

Olhou para a ânfora, cismado.

— Sei lá... Prometeu tem tantos cuidados. Deve ter suas razões. Um ruído leve fez com que se voltasse. Viu Pandora de pé, ao lado da entrada da gruta.

— Posso entrar? — perguntou, com voz cálida.

Uma forte pancada no peito iniciou o ritmo agitado de seu coração.

— Não! — exclamou. — Não entre aqui! Espere, já vou sair!

A moça se afastou e ficou de longe, sorrindo.

— Que segredos guarda em sua gruta? — perguntou, logo que Epimeteu saiu todo nervoso.

Ele não respondeu. Olhou-a, desconfiado.

— Por que veio novamente? — perguntou, com voz trêmula.

Ela continuava a sorrir, ignorando a aflição do rapaz.

— Ontem saí tão depressa que me esqueci de perguntar seu nome.

— Bem — gaguejou ele, procurando acalmar-se. — Sou Epimeteu, irmão de Prometeu.

Olhou-a nos olhos, procurando alguma alteração em seu rosto, mas a expressão da moça não se modificou.

— Conhece meu irmão, ou já ouviu falar nele? — insistiu.

Ela fez que não com a cabeça, com os olhos presos nos olhos de Epimeteu.

— Por quê? Deveria conhecê-lo?

O rapaz suspirou, aliviado.

— Creio que não, já que chegou recentemente ao Olimpo. Perdoe-me se lhe pareço, tão rude, mas tenho meus motivos.

Desta vez, foi ela quem afagou a face do rapaz.

— Não me parece rude, apenas nervoso. O que há com você?

Ele virou o rosto e beijou a palma delicada de sua mão. Pensou que ela fosse recuar, mas Pandora continuou a acariciar sua face, seus cabelos anelados e tocou com os dedos macios em seus lábios ressecados.

— Se não quer me contar, não tem importância. — disse ela, num sussurro. — Não sou curiosa.

Afastou-se e segurou uma flor muito vermelha que pendia de um arbusto próximo.

— Você é estranho, Epimeteu — disse, fechando os olhos e aspirando o aroma agreste da flor. — Sempre sozinho, medroso.

Largou a flor e lançou nele um olhar sensual.

— Talvez tenha sido por isto que me atraiu tanto. Passei a noite acordada e, mesmo acordada, sonhava com você. Em sonhos, acalentava-o e, em meus braços, parecia uma criança assustada.

Epimeteu aproximou-se e puxou-a para perto de si.

— O que quer de mim?

Ela escorregou para o lado e voltou a entreter-se com a flor.

— Nada. Apenas gosto de você. Não é o suficiente?

— Se gosta de mim, porque foge?

— Esquece-se de que estou prometida a Apolo?

Ele chegou bem perto, afagou-lhe o ombro nu e deixou a mão escorregar até encontrar a curva macia do colo. Desta vez, ela não se afastou. Virou-se para o rapaz e fechou os olhos, sentindo o seio pequeno ser afagado com paixão.

— Pandora — disse ele, procurando seus lábios esquivos com a boca ansiosa. — Você pode anular esse compromisso, se quiser. Fale com Zeus, ele saberá compreender.

Pandora virou a cabeça, fugindo do beijo de Epimeteu.

— Não posso fazer isso! — exclamou, apoiando a cabeça no peito do moço. — Temo a ira de Apolo!

— Apolo tem outros amores e nem mesmo a conhece! Não posso acreditar que não ouça seus pedidos.

— Tenho medo! — choramingava Pandora. — Ele se sentirá desonrado!

O perfume de seus cabelos entrava pelas narinas do rapaz, aumentando ainda mais o desejo que ia se tornado insuportável. Suas têmporas latejavam.

— Pois, então, não diga nada aos deuses, apenas dê-me o seu amor. Eu me contentarei em tê-la para mim, nem que seja apenas uma vez!

Delicadamente segurou-lhe o queixo pequeno e fez com que ela erguesse o rosto. Os lábios rosados e entreabertos pareciam pedir o toque de sua boca. Epimeteu beijou-a com calor e colou seu corpo ao dela. Sentiu que a coxa da moça se movia, comprimindo a rigidez que não podia mais evitar. Com gestos aflitos, tentou arrancar a túnica de Pandora, mas ela plantou as duas mãos em seu peito e empurrou-o violentamente.

— Não! Aqui não! Está louco? Se Hélios nos vê, corre para contar tudo a Zeus! E aí, o que será de mim? O que será de você?

— Você tem razão — balbuciou ele. — Não podemos ser vistos. Venha.

Segurou-a pela mão e entraram na gruta. As gralhas gritaram, coléricas, fazendo com que Pandora corresse, assustada. O rapaz tentou abraçá-la.

— Não! — exclamou a moça. — Jamais entrarei nesta gruta, com estas aves soltas! Tenho medo!...

— São inofensivas! — protestou ele. — Venha, entre, elas não farão nada.

— Nunca! — insistiu Pandora. — Tenho muito medo!

Soltou-se das mãos de Epimeteu, correu e sumiu entre os arbustos.

— Maldição! — exclamou ele, esmurrando a parede da gruta. — Eu a perdi!

Ajoelhou-se no chão, comprimindo o ventre dolorido de desejo e chorou como uma criança....

Experimentou mais uma vez a resistência das duas gaiolas que construíra, com galhos de cipó entrelaçado. Estavam firmes o suficiente para manterem presas as duas aves. Sorriu, satisfeito. Sentou-se e esperou. Mas Hélios surgiu e se recolheu e Pandora não apareceu. Selene passou pelo céu, lavando o Olimpo num banho de prata, mas Pandora não veio. E novamente Hélios apareceu, lançou um raio curioso nas gaiolas vazias e outro no moço ansioso, que não conseguia conter sua aflição.

Mais um dia passou, arrastado, e Epimeteu julgou enlouquecer e diluir-se nas chamas de sua paixão. A carruagem de Hélios já estava próxima do horizonte, quando os arbustos se agitaram, ao longe. Num salto, o rapaz prendeu as aves nas gaiolas e arrastou-as para fora da gruta. As gralhas protestaram, debatendo-se na prisão. Mas ele não se importou com a agonia das aves. Escondeu as gaiolas sob uma árvore frondosa, para que Hélios não as visse, a atirou um olhar ansioso às folhagens agitadas, que anunciavam a chegada de alguém.

E Pandora chegou. De longe, viu as aves presas e o rapaz imóvel, à porta da gruta, com um convite mudo estampado no rosto cansado. Ficou parada, deixando que ele a olhasse, que a queimasse com o desejo que emanava de seus olhos e envolvia seu corpo no calor de sua paixão. Depois caminhou lentamente, acariciando com os pés delicados as ervas rasteiras e macias como um tapete. E em um canto da gruta Pandora viu a ânfora fechada de forma angular. Pandora, curiosa, perguntou a Epimeteu:

— O que é isso?

— Uma ânfora.

— Que é uma ânfora, eu sei. Mas de quê?

— De segredo.

— Pode-se ver o que há dentro?

Encantado pelo jeito suave das palavras de Pandora, mas ainda alerta pelos avisos de seu irmão Epimeteu respondeu:

— Essa ânfora é a única coisa proibida que eu conheço. Está aos meus cuidados. Só ouvi dizer, com certeza, que contém todas as bênçãos dos deuses. Não devemos abri-la.

— Por quê? — Questionou a impaciente Pandora.

— Porque foi deixada aqui por um homem, que a entregou a mim e me proibiu de abri-la. Disse para jamais desejar abri-la!

— Ele não está aqui, vamos abri-la?

Epimeteu nem se deu ao trabalho de responder. Pegou-a pela mão e levou-a para outro lado da gruta. Ela baixou a cabeça e duas lágrimas correram de seus olhos. Epimeteu jamais havia visto uma lágrima. Não conhecia a tristeza. Quando as viu, pensou que eram duas pérolas, e deu um beijo na pérola que rolava de seu olho direito.

Daí em diante, Epimeteu já sabia. Pandora pensava seriamente no que não devia fazer.

— Não pode pensar noutra coisa, Pandora? Me faz este favor, faz o que te peço...

— Eu só queria ver. Não vou tirar nada de lá...

— Mas tu és muito curiosa. Zeus nos perdoe por isso! Jamais vi alguém como tu...

— Como era ele? Me conta... — Indagava insistentemente Pandora.

— Ele quem?

— Aquele homem que deixou aquela ânfora...

— Era jovem também, mas de porte atlético, forte...

— Sabe o nome dele?

— Nem lembrei de perguntar — mentia Epmeteu, tentando encerrar o assunto — Não sei, Pandora deixemos esta conversa para outro momento.

— Paciência, eu vou abrir a ânfora, meu querido! Deve estar cheio de coisas fabulosas, por isso está lacrada.

— Mais uma razão para não abrir, Pandora. Mais uma razão... Se lacraram, motivo sério deviam ter... E não se fala mais nisso, entendeu?

Falou tão sério, que Pandora teve que concordar.

— Está bem, não se fala mais nisso.

— Nem se pensa.

— Impossível, Epimeteu. Não posso deixar de pensar.

— Pode pensar. Mas vai me prometer em não falar mais em tentar abrir a ânfora, promete?

— Prometo.

Epimeteus tomou-lhe a mão, carinhoso e foram para debaixo das cobertas, onde se amaram...

Pandora procurava enxergar alguma coisa, na escuridão da gruta. A respiração forte de Epimeteu, estendido a seu lado, mostrava que ele dormia profundamente. O corpo saciado não se movia. Aos poucos, os olhos da moça foram se acostumado com a negrura que se estendia ao seu redor. Com cuidado, escorregou para o lado. O braço do rapaz, pousado em seu ventre, caiu pesadamente sobre as mantas revoltas. Levantou-se e aproximou-se do vulto escuro da ânfora dourada e prateada e pôs-se a examiná-la detidamente, virando-a de todos os lados. Seus olhos azuis refletiam todo o brilho do magnífico receptáculo.

— O que haverá aí dentro? — disse baixinho, refrescando o ar com seu hálito balsâmico. Por várias vezes a encantadora Pandora hesitou se abria ou não a fantástica ânfora. Mas, depois, depositando o precioso objeto ao lado do travesseiro, adormeceu profundamente.

Sonhou então que de dentro do objeto saíam, como por mágica, cavalos alados da cor do mar e aves luminosas de diversos tons esmeraldinos. Dos bicos prateados das gigantescas aves originava-se uma canção de magnífica beleza, que a enterneceu até o âmago mais profundo da alma. Homens e mulheres abraçavam-se nus, em pleno ar, ao som desta canção embriagadora, misturando-se àquelas criaturas de tal modo, que pareciam ter asas como elas.

Despertando com aquele sonho maravilhoso, não conseguiu resistir mais, e decidiu:

— Abrirei a ânfora apenas um momento, olharei rapidamente o seu interior e, no mesmo instante, fecharei com todo o cuidado... Epimeteu nem sequer suspeitará do que vou fazer.

E foi, pé ante pé, examinar a ânfora do deus Hermes.

— Que coisa mais linda! Toda adornada com figuras esculpidas... Com certeza algum deus a fez...

Uma das imagens, que se destacava das demais, parecia-lhe falar. Era uma figura soberana. Pandora desgostou-se:

— O que é que tu estás me olhando tanto?

Pandora nunca saberia dizer se ouvira mesmo ou se apenas imaginara. Mas do estranho rosto que se animara e sorria, palavras pareciam convidá-la a ter coragem de abrir a ânfora:

— Tu vais adorar!

— Será?...

Chegou-se um pouco mais, alisou a tampa da ânfora. Resolveu experimentar o peso da ânfora, já que parecia estar indecisa.

— Não vou abrir. Só vou sentir o peso.

Era muito pesada. Ergueu-a muito pouco. Não tinha força bastante para removê-la. Ao tentar erguê-la, deixou-a escapar, e a ânfora beliscou-lhe o pé, causando-lhe dor, a primeira vez sentida. Pensou em fugir, gemendo de dor, mas de novo a tentação voltou. E, esquecendo-se da dor que sentia, passou os dedos no cordão de ouro e no complicado nó que protegia os segredos da ânfora.

— Que nó mais complicado! Parece que eles não querem mesmo que a ânfora seja aberta... E eu não vou abrir! Não querem que eu abra, então eu não abro!

Tornou a olhar a cara de riso misterioso esculpida na tampa.

— Abre, menina. Abre...

Seria imaginação sua? Nisso, levou um susto. Distraída, brincando com o nó difícil de desatar, de repente viu que, sem querer, desfizera o nó.

— Zeus! O que é que eu fui fazer?!

Receando que Epimeteu acordasse e visse o laço desfeito, tratou de refazer o nó. Mas não conseguiu. Quanto mais tentava, mais se atrapalhava.

— Ele não vai, de jeito algum, acreditar que eu não fiz de propósito. O que eu faço agora? Epimeteu vai se zangar...

Tentou de novo, e nada... Aí, teve uma idéia:

— Bem, já que fiz, está feito. Agora é só levantar a tampa. Eu vou dar só uma espiada. Não vou tirar nada de dentro. Depois fecho, e não se fala mais nisso...

Pandora estendeu a mão imediatamente e não podendo mais conter o seu desejo, ergueu a tampa numa volúpia insana de curiosidade que lhe pôs na espinha um arrepio gelado.

Nem bem ergueu um pouquinho a tampa dourada, Pandora sentiu-a ser arrebatada das mãos, caindo ao chão, longe da cama. Assustada, ainda assim manteve o objeto preso entre as mãos. Pandora viu escapar de dentro da caixa algo a princípio sem forma. Parecia que todos os ventos do mundo se escapavam desordenadamente dali, na pressa da fuga. Imediatamente um deles tomou a forma de uma caveira volátil, parecendo toda feita de cristal e de vento. Tomando uma dimensão assustadora, a caveira aproximou seu rosto brilhante do rosto da pobre moça, que tremia de medo. Podia sentir na face o bafo mortalmente gelado que passava por entre os dentes de gelo, completamente arreganhados, da horrenda caveira.

Por alguns instantes aquela face terrível a mirou com suas órbitas vazias, estudando-a sempre com seu sorriso de vidro. Depois seus maxilares bateram repetidas vezes, um de encontro ao outro, parecendo inevitável que se fariam em pedaços diante de seus olhos atônitos. Algo parecido a uma gargalhada escapava por entre os rápidos intervalos das batidas dos maxilares, que ela não sabia precisar se era uma gargalhada de escárnio ou um lamento de dor. Pandora estava prestes a desmaiar,quando a caveira foi se tornando gasosa outra vez, transformando-se num grande e gelado vapor que fugiu pela entrada da gruta, perdendo-se no mundo.

Depois surgiram vários rostos deformados, cobertos de pústulas, que se erguiam da caixa como se fossem o retrato horrendo da Doença. Depois de assoprarem sobre seu rosto o bafo doentio das febres renitentes, arremessaram-se também para fora atrás da primeira criatura, finalmente libertas. Dentre as tantas criaturas que escaparam da caixa, Pandora teve o desgosto de ver personificados todos os vícios que viriam a acometer no futuro a alma humana.

A inveja lhe apareceu, assim, sob a forma de uma mulher velha, cujos cabelos finos e prateados como teias teciam freneticamente com as patas negras mais e mais fios, de tal forma que uma nuvem esfiapada cobria a cabeça inteira da velha hedionda. Seus olhos amarelos, raiados de sangue, fuzilavam aquele belo rosto que, sabia, jamais teria igual. Da boca deixava escapar uma baba verde, que lhe escorria pelo queixo, e com elas a odiosa velha teceu uma corda musgosa e nojenta, com a qual envolveu o pescoço de Pandora, decidida a estrangulá-la. Algo, porém, a impediu de completar seu ato. Dando um grande uivo de raiva, ela recuou pra trás. Depois ergueu a mão ossuda no ar e, franzino os dedos como quem agarra algo, sacudiu-a em direção ao seu alvo, Pandora. Depois, arremessou-se subitamente pela saida, dando um silvo agudo e penetrante.

A Gula, sob a forma rotunda de uma mulher imensamente nua, escapou-se também da ânfora. Suas banhas e graxas sacudiam, caindo umas por cima das outras, em grossas camadas. De toda ela escorria um suor pegajoso, como se suasse azeite por todos os poros. Suas bochechas pareciam prestes a explodir, e de seus olhos escorria uma graxa amarela e malcheirosa, que ela lambia com furor assim que lhe chegava aos lábios inchados.

Numa revoada, saíram aos gritos aves horrorosas, montros famintos de sangue, de desejo de atormentar, de destruir e de matar. À medida que voavam, seus corpos hediondos desapareciam no ar, restando apenas a existência invisível de suas maldades. E lançaram-se em direção aos seres humanos.

Pandora estava sofrendo. Mas toda a humanidade, daí por diante, ia sofrer também. As crianças, os jovens, não seriam mais assim para sempre. Envelheceriam. Os risos iriam ser alternados com lágrimas. A vida, então, poderia acabar, porque estavam perambulando pelo mundo as doenças e os desastres. E as guerras... As flores, depois de colhidas, ou mesmo nos jardins, murchariam, durariam pouco. Assim, toda a Natureza. Tânatos e Hipnos, até então bebês nos braços acolhedores de Nix (a Noite), desgarraram-se e foram habitar entre os seres do mundo. Tânatos passou a levar a Morte para cada ser existente, já Hipnos, em contraposição, levaria o Sono, o Descanso.

A amizade dos seres humanos para com os animais estava findando. Somente poucos animais, por seu instinto de sobrevivência, permaneceriam seus amigos, como o cão, o gato e o cavalo. Enfim, a partir de então, os animais se dividiriam, tentando sobreviver cada qual em seu “habitat”. Também as pessoas, na luta pela sobrevivência, se dividiriam, buscando, em famílias, um melhor lugar para a sua existência. E, por isso, nascia a inimizade entre os povos que, a partir de então, passariam a surgir em diversos pontos da Terra.

Assim, a Geração de Bronze tomava uma forma mais aterradora. Os homens tomaram uma aparência amedrontadora, guerreiros destemidos. Moldados de bronze, estavam sempre dispostos à guerra. Suas armas eram forjadas com bronze, como as ofuscantes armaduras. Suas ferramentas eram de bronze, e ainda não sabiam fazer uso do ferro, e mal sabiam fazer uso do fogo. Construíam suas casas rusticamente, às vezes até escavadas nas rochas. Não cultivavam a terra: viviam da caça e da coleta de frutos silvestres, e a Guerra era sua constante companheira. Contudo, apesar de sua poderosa força e estatura serem uma dádiva dos deuses, e não obra deles, aos poucos ficaram arrogantes e vaidosos, cheios de um tolo orgulho. Seus modos tornaram-se rudes e dominadores, seu coração, duro como pedra.

Pandora, embora aterrorizada, não conseguia fechar o maldito jarro, involuntariamente fascinada com o que assistia, sem saber como pudera desencadear tantas desgraças. Lançando-se de joelhos ao chão, encontrou finalmente a tampa caída a um canto. Enquanto rastejava para alcançá-la sentia rodopiar acima de si uma legião de demônios — a Avareza, a Arrogância, a Crueldade, o Egoísmo, todos os vícios e defeitos humanos dançavam uma ciranda infernal sobre a sua cabeça, até que, arremessando-se à ânfora, conseguiu finalmente alcança-la.

— Espero que Zeus me perdoe.

Porém, Pandora pensou:

— A humanidade que me perdoe, pois sou responsável pelo mal que pratiquei para sempre.

E olhando para a ânfora aberta, comentou:

— Também, uma coisa dessas não se fecha com um simples cordão. Podiam tê-la fechado de forma mais segura... A impressão que tenho é que alguém queria que fosse aberta.

— Certamente, quando os maus instintos, que libertamos, começarem a dar seus frutos, como roubos e assassinatos, as pessoas terão que se trancar em suas casas. Triste será o mundo...

— E a culpa é minha...

Mas o mal já estava feito. Pandora recomeçou a chorar, olhando para a tampa da ânfora, deitada ao chão. Nisso, ouviu, de dentro, um rumor parecido com vozes. Pandora, às pressas, pôs a tampa de volta.

— Zeus! Ainda há mais desgraça dentro da ânfora!

— Calma, Pandora. Não deve haver mais desgraças aí, senão já tinha saído!...

Nisso, uma voz doce e suave, que parecia um bater de asas de beija-flor, soou aos seus ouvidos, vinda do interior da ânfora.

— Não sou desgraça alguma... Só quero o bem de vocês...

Não era a voz da Hipocrisia, nem de Maldade, nem de Insensatez. Era voz de bondade, de amor, de profundo interesse. Pandora logo a sentiu. Punha a mão direita no ouvido, em forma de concha, para melhor recolher os sons que saíam da ânfora.

— Não tenha receio. Não sou igual aos monstros que havia aqui dentro e que os deuses não queriam libertar.

— Quem é você?

E a voz disse-lhe:

— Solte-me que eu conto.

— Não! Diga primeiro quem é... Eu já cometi erros suficientes por hoje...

Um doce riso, amigo e suave, ouviu-se de dentro da ânfora, como uma única resposta aos receios . Pandora, mais convencida, tentou persuadir a si mesma

"Parece sincero... Vou abrir? Pode ser a salvação de todos nós" — Pensava e decidida falou: — Eu assumirei a responsabilidade.

Pandora ergueu a tampa da ânfora, e um vulto surgira em vôo sutil, e se postava, risonho, à sua frente.

— Fique onde está, não deve ficar desesperada. Não tenha medo, sinto que está desanimada, pessimista. Foi exatamente por isso que eu vim... Para dar ânimo novo, confiança no futuro, confiança em si mesma. Sem minha intervenção, nunca mais poderá haver alegria no mundo.

Pandora contemplava maravilhada aquela imagem fascinante, que tinha asas como as borboletas e as libélulas, asas onde a luz do Sol punha cores e tonalidades lindíssimas.

— Quem é a senhora?

— Eu sou Elpis, a Esperança, o único bem que Zeus concedeu aos homens, no meio de tantas amarguras... Venho para salvar-los, e a todas as crianças do mundo...

— É uma deusa?

— Sou mais do que deusa. De agora em diante eu sou a vida, uma condição para todos os seres humanos. O mal se libertou. As doenças, as desgraças, as perturbações, as tristezas, os maus pensamentos, as intenções maldosas, as dores, a agonia, o desânimo, as guerras, o egoísmo, a inveja, tudo isso vai acompanhar os homens e as crianças, e agora as mulheres, através dos tempos. Mas quando tudo isso estiver atormentando, quando tudo estiver pesando sobre mundo em forma de inquietação, de dor, de miséria, de sofrimento, enfim, basta me chamar.

— Mas onde é que vai morar? Onde é que pode ser encontrada?

— Em seus corações. Eu sou a Esperança que iluminará o caminho dos mortais... e principalmente das crianças, dos jovens. Para quem sofre, eu serei sempre a Esperança de horas melhores, dias mais felizes. Para os doentes, a Esperança de cura. Para os aflitos, a Esperança de paz. Para os perseguidos, a Esperança de refúgio. Para os jovens, sobretudo, a Esperança de futuro...

— Tudo bem. Mas será que, depois, não vai nos abandonar?

Elpis apenas sorriu.

— Não. Vocês é que irão me abandonar muitas vezes. Porém, não me preocupo. Não me zangarei. Quando menos esperares, eu estarei entrando nos seus corações e iluminando todos os caminhos.

Os olhos de Pandora, ainda úmidos de lágrimas, brilharam de novo.

— Quer dizer que, apesar de todos os males que eu libertei no mundo, ainda existe para nós a Esperança?

— Sim.

E assim Pandora fechou a ânfora.

Daquele dia em diante, os seres humanos foram assolados por crueldades, por crimes, pela doença e pela morte. Os males, soltos, destruíram a bondade, a compreensão, o amor. Apenas não conseguiram destruir a Esperança. Para os homens, o Tempo começou a passar, inexorável, arrastando-os à decrepitude do próprio corpo.

Pandora retornou a ânfora a seu lugar e voltou para a cama. Tornou a colocar, com cuidado, o braço do rapaz sobre seu ventre nu, fechou os olhos e dormiu...

Fonte: Olimpo - A Saga dos Deuses
Emmanuel Mourão - Mitologia grega ao alcance de todos.

Foto: Genzoman
Mitologia - OpenBrasil.org

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