MITOLOGIA

A convivência de Europa em Creta


Isolada naquela ilha, Europa(Ευρώπη) caminhava ainda confusa com os acontecimentos. Então, Hipnos(Ὕπνος) desceu do Céu e a fez adormecer, enquanto que Morfeus(Μορφεύς) foi confortá-la e dar-lhe sonhos agradáveis. Após algum tempo, Europa despertou de um sono profundo quando Éos(Ἠώς) já surgia no alto do céu. Perturbada, olhou à sua volta e chamou por seu pai. Mas não reconheceu aquele lugar, e lamentou-se:

— Eu, filha infiel, como ouso pronunciar o nome de meu pai? Que loucura fez com que me esquecesse de tudo? Mas será que estou mesmo acordada, será que tenho culpa e devo me envergonhar do que aconteceu? Não, certamente não tenho culpa alguma, e é só uma imagem de sonho que me perturba o espírito.

Passou as mãos pelos olhos, como se quisesse apagar o terrível sonho. Mas os objetos distantes permaneciam ali, árvores e rochedos desconhecidos a cercavam e um mar assustador rugia, borrifando os arrecifes.

— Ah! Se ao menos o maldito touro voltasse! Eu quebraria seus chifres! Mas isto é só um desejo, meu lar está distante, só me resta morrer. Mandai, ó deuses celestes, ó Baal mil vezes poderoso, um leão ou um tigre para me devorar!

Mas não apareceu nenhuma fera. Aquela região desconhecida estendia-se, pacífica, à sua frente, e no céu sereno, permanentemente azul, brilhava o Sol. Como que tocada pelas Erínias(Ερινύες), Europa ergueu-se, de um salto, e vociferou consigo mesma:

— Criatura miserável, não está ouvindo a voz do pai que chora, que te amaldiçoará se não puser um fim à sua vida desonrada? Ou será que prefere servir como esposa e escrava a um príncipe bárbaro, você, a filha de um nobre rei?

A infeliz e abandonada moça só pensava em morrer, mas não conseguia encontrar coragem para isso. Subitamente, ouviu um sussurro baixo e irônico atrás de si e voltou-se, assustada. Irradiando um brilho sobrenatural, uma deusa apareceu, extremamente bela, e junto dela seu filhinho, que portava um pequeno arco. Um sorriso pairou nos lábios da deusa antes que ela começasse a falar:

— Esqueça o seu ódio, princesa, não se zangue! O touro odiado voltará, e oferecerá os seus chifres para que você os quebre. Sou Afrodite(Ἀφροδίτ), a deusa do coração, e este é meu filho Eros(Ἔρως), que desfere a flecha do amor, e o sonho que teve esta noite, fui eu que te mandei. Não o conhece, mas foi Zeus(Ζεύς), o senhor do Olimpo, quem a trouxe aqui; você agora é a deusa terrestre do deus invencível... Seu nome será imortal, pois doravante a terra longínqua que te acolheu levará o teu nome!

E, inesperadamente, sem que percebesse, uma flecha encantada do pequeno Eros foi de encontro ao seu coração. Europa fechou os olhos, sentiu a paixão lhe dominar, e não mais viu os deuses que a visitaram.

Na caverna de Díctis, escondida entre as montanhas de Creta, as quatro deusas Horas(Ὧραι), aprontaram o leito nupcial para a amada de Zeus. As três Cárites(Χάριτες) aspergiram-na com a fragrância da beleza e pentearam seus cabelos de seda de modo que mulher alguma pudesse rivalizar em encantos com ela.

Então Zeus, agora transformado em águia,carregou-a para dentro da ilha, enquanto Europa ainda tentava ensaiar alguma reação, e, finalmente vencida, uniu-se ao senhor do Olimpo. E dessa sagrada união nasceram três filhos: Minos(Μινως) e Radamantes(Ραδαμανθυς), que, mais tarde, viriam reinar em Creta e tornarem-se juízes no reino dos mortos, e de um terceiro filho chamado Sarpédon(Σαρπηδών). Além do mais, por ordem do rei dos deuses, propagou-se que todo o território entre o Oceano e o Bósforos levaria o nome de Europa.

Zeus ofertou à sua esposa mortal, Europa, muitos presentes valiosos. Entre eles estavam Lélape(Λαῖλαψ), o cão de caça que jamais deixava a presa escapar, e um arco de ouro com flechas mágicas que nunca erravam o alvo.

Era constante o medo de Zeus de que Europa deixasse Creta ou fosse encontrada por seu pai, Agenor(Ἀγήνωρ), e levada de volta para Sídon. Para prevenir-se, já que ele não poderia estar com ela todo o tempo, resolveu apresentá-la ao rei de Creta, Astérion(Ἀστερίων), “rei das estrelas”, para que este a tomasse por rainha e a mantivesse consigo em seu palácio.

Assim, Astérion tomou Europa por esposa e adotou os três filhos de Zeus, e deu-lhes abrigo, bens e direitos à sucessão. Para agradecer ao rei Astérion pela boa acolhida que dera a Europa e seus filhos, Zeus ordenou que Hefesto(Ἥφαιστος) criasse, de alguma forma, um guardião que pudesse defender o país dos invasores e jamais importunasse o seu povo. Daí, o deus-ferreiro fez um homem de bronze sólido, pôs em seu corpo o sopro da vida e uma força espantosa. Nem flecha nem lança ou espada poderiam perfurar sua couraça, e instalou um fluido divino em sua veia e fechando-a com um prego de ouro em seu calcanhar direito. E chamou-o Tálos(Τάλως).

Tálos atirava-se numa fornalha todos os dias e dava três voltas diárias em torno de Creta, fazendo o chão tremer com o estrondo de seus passos; quando ali desembarcavam forasteiros, sem aviso ou sem serem convidados, agarrava-os e destruía-os com seu abraço de fogo.

Quando Europa morreu, Zeus concedeu-lhe todas as honras divinas e plantou no céu a constelação de Touro, em memória do belo animal em que se transformara, para obter o amor de Europa....

— Chega de pensar no passado! — exclamou Sêmele(Σεμέλη), para si mesma, despertando mais uma vêz de suas lembranças.

Vestiu uma túnica curta, juntou-a na cintura com um cinto de couro trabalhado, calçou as sandálias e saiu. Procurou novamente afastar dos pensamentos a sensação estranha que a acompanhava, desde que acordara.

— Que coisa esquisita! — resmungou — Sinto como se alguém estivesse me chamando.

E a lembrança do sonho voltou à sua mente. E novamente viu o menino que a chamava de mãe e que pedia uma chance de voltar ao mundo.

— Em meus sonhos — pensou ela — o menino era um deus...

Seus passos a conduziam sempre em frente, determinados, como se já soubessem para onde ir. E, de repente, ouviu vozes. Olhou pelas folhagens e viu um homem de cabelos e barbas grisalhas, que segurava algo sangrento nas mãos. Junto a ele, uma mulher muito parecida com a deusa Perséfone(Περσεφόνη), parecia triste e desanimada.

Já ia fugindo, quando uma voz vibrante a fez parar.

— Um momento!

Parou e voltou se, atraída por um desconhecido magnetismo.

— Aproxime-se, menina! — disse o homem, olhando-a fixamente. Ela se aproximou, fascinada pela poderosa energia que emanava do estranho casal.

— Como é seu nome? — perguntou o homem.

— Sêmele... — ela escutou sua voz ecoar estranha e irreal. — Meu nome é Sêmele ...

Fonte: Olimpo - A Saga dos Deuses
Emmanuel Mourão - Mitologia grega ao alcance de todos.

Foto: Genzoman
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