MITOLOGIA

A descendência de Apolo e o remoso de Creúsa


O rei Erecteus(Ἐρεχθεύς), de Atenas, após o rapto de sua filha Oritia(Ὠρείθυια) por Boreas(Βορέας), agora dedicava sua atenção a sua filha mais nova, chamada Creúsa(Κρέουσα). Era um encanto. E Creúsa colhia flores, naquele dia ensolarado. E encontrou, numa profunda caverna próxima de Atenas, lindos botões de açafrão.

— Pronto, meu cesto já está tão abarrotado de botões que já posso voltar para casa nem Prócris(Πρόκρις) nem Orítia jamais colheram tantos em suas vidas.

Creúsa já se preparava para sair da profunda caverna quando foi brutalmente agarrada por um jovem que surgira do nada. Ele era divinamente belo, mas Creúsa não teve tempo de perceber isto, tal o inesperado ataque do jovem, que fez os açafrões voarem para todos os lados, enfeitando de amarelo as rochas da caverna. Gritou por socorro, chamando por sua mãe e pelas irmãs, mas em vão, pois o viril deus Apolo(Ἀπόλλων) já a arrastava brutalmente de volta para a caverna escura.

Creúsa lutou com todas as suas forças, cheia de aversão e repulsa, mas os seus esforços resultaram inúteis diante da força e da perspicácia do deus. Alguns minutos depois estava a sós com seu ódio e sua vergonha. Sentia-se tão aviltada em seu corpo quanto em sua alma.

A partir daquele dia seu desprezo pelo deus estendeu-se a todos os mortais, e aumentou ainda mais quando descobriu que esperava um filho daquele funesto relacionamento e quando Apolo nem por isso se abalou para auxiliá-la em sua terrível e solitária gestação.

Os meses passavam, e a jovem, disfarçando a gravidez entre as dobras de seus longos e complicados vestidos, nada contou, nem à própria mãe, Praxitéia(Πραξιθέα). Mas começou a tecer um manto para abrigar a futuro ser que teria. Não podia prever qual seria a reação dos pais; ouvira muitas histórias de jovens que acabaram sendo mortas, simplesmente, ou expulsas de casa.

Assim, quando viu que não conseguiria mais esconder, procurou isolar-se, e desapareceu por um tempo, até completar a gestação. Então, mais tarde, voltaria para casa com alguma desculpa qualquer. E assim, quando sentiu que o bebê ia nascer, voltou à caverna e ali deu à luz o seu filho.

Com a criança nos braços, ficou um tempo a admirá-la, sem saber o que fazer; mas passado o choque do parto que fizera sozinha, limpou a criança e envolveu-a nas roupas que havia tecido para este propósito. E, para que a criança não ficasse irreconhecível, enfeitou-a com as jóias que usara quando menina. Pôs na cabeça da criança uma pequena coroa de oliveira, depois depositou-a numa cesta e cobriu-a com sua bela capa e partiu, deixando-a ali, temendo a ira de seu pai. Esperava que o deus se apiedasse da criança abandonada.

Apolo, que não ignorava o nascimento de seu filho e não queria trair sua amada nem deixar a criança desamparada, pediu a ajuda de seu irmão Hermes(Ἑρμής), o mensageiro dos deuses, que trafegava invisível entre o Céu e a Terra.

— Querido irmão, uma mortal me deu um filho. É a filha do rei Erecteus, de Atenas. Por medo de seu pai, ela o escondeu numa caverna, dentro de um rochedo. Ajude-me a salvá-lo. Traga-o, dentro da cesta onde ele está e com as fraldas que o vestem, para o meu oráculo em Delfos, e deixe-o na entrada do Templo. Cuidarei do resto, pois ele é meu filho.

No meio da noite, Hermes, o deus alado, apressou-se em chegar a Atenas, encontrou o menino no lugar designado, levou-o para Delfos na cestinha de vime e deixou-o a porta do Templo, abrindo a tampa do cesto para que a criança fosse vista.

Na manhã seguinte, quando o Sol raiava, a sacerdotisa de Delfos aproximou-se do Templo e, quando estava prestes a entrar, chamou-lhe a atenção a criança, que dormia na cestinha. Achou que se tratava de um crime e já estava pronta para afastar a criança da porta sagrada quando a piedade assenhoreou-se dela, pois o deus lhe tocara o coração. A profetisa então tirou a criança da cesta e levou-a consigo, e deu-lhe sustento, sem lhe conhecer nem o pai nem a mãe. O menino cresceu brincando no altar de seu pai.

Creúsa andava sem rumo, com muitas dúvidas, se voltasse para casa, o que diria para seus pais, como estaria a criança abandonada, se deveria assumir a responsabilidade e levá-la ao rei seu pai, se falasse a verdade ou a esconderia... Até que, arrependida, retornou aos prantos à caverna para resgatar o pobre inocente, que havia deixado entregue à própria sorte. Porém, quando chegou, o bebê não estava lá.

— Oh, deuses, não!

Seu instinto maternal falava agora com mais força do que o sentimento da vergonha e o medo da morte reunidos.

— Não pode ter sido devorado pelas feras!

E começou a procurar algum indício, algum pedaço de roupa ensangüentada...

— A menos que tenha sido arrebatado por uma águia ou um abutre... Oh, deuses piedosos, o que terá sido feito dele? Por que fui deixá-lo aqui?

E ela, procurando esquecer do que havia acontecido e tudo fazendo para levar uma vida normal, voltou para casa e mentiu para seus pais que havia sido perseguida por alguns homens e teve que se esconder por algum tempo. Então, de volta, prometeu que não mais se afastaria do palácio, até que o Destino lhe outorgasse outra condição.

E assim, Erecteus, sentindo o peso da idade, e temendo deixar o mundo dos vivos sem que suas filhas se casassem e tivessem filhos, arranjou casamento para elas, mas já o Destino as havia encaminhado, e seus esposos seriam outros, entre deuses e heróis, pois estavam destinadas a ter uma linhagem ainda mais nobre.

Enquanto isso, Íon(Ἴων), o filho de Apolo, tornava-se um jovem esplêndido. Os moradores de Delfos, que já o conheciam como pequeno guardião do Templo, fizeram dele o tesoureiro, encarregado de zelar por todas as oferendas que o deus recebesse. E assim ia ele passando a vida no templo paterno.

Creúsa não tivera mais notícia do deus e achava que ele os tivesse esquecido, a ela e ao seu filho.

Nessa época, os atenienses, que mal haviam saído vitoriosos da guerra contra Lábdacos, o rei de Tebas, agora entravam em guerra com os habitantes de Eubéia, uma ilha vizinha, luta essa que terminou com uma nova vitória ateniense. Durante a batalha, um estrangeiro da Acaia ajudara os atenienses com extraordinária coragem. Era Xutos(Ξοῦθος), filho de Helenos(Ἕλλην) e neto do famoso Deucalião(Δευκαλίων). Como recompensa por sua ajuda, ele pediu — e recebeu — a mão da filha de Erecteus, Creúsa, a quem cobiçava. Mas o deus Apolo, enciumado, não abençoou a união entre os dois, e não permitiu que tivessem filhos, por isso foi desprezado pelos atenienses.

Depois de um bom tempo, Xutos teve a idéia de dirigir-se ao Oráculo de Delfos a fim de lhe pedir a bênção de ter filhos. Isso vinha ao encontro dos desejos de Apolo, que não se esquecera de seu filho. E assim a princesa, com seu marido e um pequeno séquito, partiu em peregrinação ao santuário de Delfos. Quando chegaram diante da casa do deus, o jovem filho de Apolo apareceu no limiar da porta para enfeitar as colunas com ramos de loureiro. Avistou então a nobre mulher, que ao ver o Templo começou a chorar. O jovem, ao vê-la tão triste, quis confortá-la.

— Não quero ser importuno, mas diga-me quem você é e de onde vem.

— Sou Creúsa. Meu pai é Erecteus, o rei de Atenas.

Com inocente alegria, o jovem exclamou:

— De que terra famosa você vem, de que família nobre você descende! Atenas é grandiosa e muita fama tem pelas suas conquistas! Mas diga-me: é verdade o que vemos retratado nos relevos aqui, que o seu avô brotou da terra? E que a deusa Atena prendeu a criança que nasceu da Terra numa caixa, colocou-a junto a dois dragões e entregou-a aos cuidados das filhas de Cécrope? E que elas então, por curiosidade, abriram a caixa e enlouqueceram ao avistar o menino, atirando-se do penhasco diante da fortaleza de Cecrópia?

Creúsa meneou cabeça em silêncio, pois o destino de seu avô lembrou-lhe a história de seu filho perdido. Mas ele continuou diante dela e fazia mais e mais perguntas, entristecendo ainda mais o coração da princesa, pois lembrava-se do momento de infidelidade que passara com o Deus do Arco de Prata e o grande pecado que havia cometido.

— A julgar pela sua nobreza, é protegida pelos deuses.

Creúsa, com um sorriso amargo, disse:

— Protegida pelos deuses? Melhor diria “perseguida pelos deuses”.

— Suas palavras beiram a impiedade; não devia permitir que elas escapassem com tanta facilidade da sua boca e de seu coração. Parece uma mulher de bondade.

A princesa ficou em silêncio por mais alguns instantes, recompôs-se. Contudo, ao ver nos olhos do jovem o espanto provocado pela sua reação, perguntou-lhe:

— E você, quem é? Possui tão rara beleza que parece mesmo o filho de um deus. Como pode, tão jovem, já estar a serviço de um dos santuários mais sagrados de toda a Hélade?

— Chamo-me Íon, mas de minha origem pouco sei. Mas sei que o trabalho aqui muito me orgulha e me satisfaz. É mais gratificante servir aos deuses do que aos homens.

— Servir nunca é gratificante. Gratificante é termos nossa vontade entregue ao nosso exclusivo arbítrio.

Sua voz ainda denotava claramente a amargura que lhe pesava na alma. E disse-lhe Íon, sorrindo bondosamente:

— Está blasfemando outra vez. Por que seus olhos, tão divinamente belos, mostram-se tão amargurados? Não é nesse estado que os peregrinos costumam chegar a Delfos; pelo contrário, chegam todos alegres e cheios de ânimo por poderem estar diante do santuário de Apolo, o deus da verdade.

— Apolo! Jamais me aproximarei deste lugar com alegria!

— Mas a que veio então?

— Meu marido, o príncipe Xutos, me trouxe aqui com um único objetivo: saber, por meio do Oráculo, se ainda poderemos ter ou não um filho.

— Como?

— O deus Apolo sabe por que não tenho filhos. Só ele pode ajudar-me.

— Você não tem filhos?

— Há muito tempo, e invejo a sua mãe, que pôde ter um filho tão bonito.

Íon baixou a cabeça e lhe respondeu:

— Nada sei de minha mãe nem de meu pai. Também não sei como cheguei aqui. Só sei que minha madrasta, a sacerdotisa deste lugar, se apiedou de mim e me criou. A casa do deus, desde então, é minha morada e sou o seu servidor.

Ouvindo estas palavras, a princesa ficou muito intrigada, mas calou seus pensamentos e disse, muito triste, inventando uma história:

— Conheço uma mulher a quem aconteceu o mesmo que à sua mãe, e é também em nome dela que vim até aqui. Vou te confiar o segredo dela antes que o seu marido, que também veio nesta peregrinação, mas se desviou no caminho para consultar o Oráculo de Trofônios, entre no Templo. Essa mulher afirma que antes de seu matrimônio atual foi casada com o grande deus Apolo e que deu à luz um filho, sem que o pai dela soubesse de nada. A infeliz mãe o abandonou e desde então não teve mais notícias dele nem teve um instante sequer de paz. Para saber se a criança está viva ou morta é que vim interrogar o deus, em nome dessa mulher.

— Que palavras terríveis você disse agora! Estas acusações, perdoe-me, são por demais levianas para que as leve a sério. Deve ter sido um homem qualquer que seduziu a sua amiga, e ela, envergonhada, lança agora a culpa sobre os ombros de uma divindade. É uma mulher infeliz.

— É tudo verdade! Foi um deus, sim, o autor da negra perfídia, e nenhum outro mortal.

Íon calou-se; depois, abanando a cabeça tristemente, disse:

— Ainda que fosse verdade, o que pretende fazer é uma grande loucura: ninguém pode se aproximar do altar de um deus para ofendê-lo com injúrias.

Creúsa baixou a cabeça. Nem mesmo tendo sido tratada daquela maneira tinha ela o direito de pretender afrontar um deus. E, finalmente, olhando para o jovem com uma ternura que jamais sentira por ninguém, disse:

— Talvez você esteja certo. Estou ficando louca. Louca de ódio e desespero. É melhor eu ir embora.

E virou-se para ir, e o jovem, ainda curioso, perguntou:

— Há quanto tempo o menino morreu?

Ela voltou-se e respondeu:

— Se ele ainda vivesse, teria mais ou menos a sua idade.

— Como se assemelham o destino de sua amiga e o meu! Ela está à procura de seu filho, e eu à procura de minha mãe. Mas tudo isso aconteceu longe daqui, e infelizmente não nos conhecemos um ao outro. Não espere que o deus te dê a resposta que procura. Você veio para queixar-se de uma traição em nome de sua amiga, e ele decerto não vai querer ser juiz de si mesmo!

E Creúsa pôs o dedo nos lábios do garoto.

— Silêncio!... Aí vem o marido dela. Não deixes que ele perceba nada do que confiei a você!

Xutos vinha chegando alegremente e aproximou-se de sua mulher Creúsa.

— Trofônios pronunciou um oráculo favorável. Disse que não sairei daqui sem filhos! Não sei bem o que ele quis dizer, mas em todo o caso... Quem é este jovem profeta?

O jovem aproximou-se do príncipe com humildade e disse:

— Sou apenas um servidor do Templo de Apolo, meu senhor. Na verdade, os mais nobres dentre os habitantes de Delfos, escolhidos por sorteio, rodeiam a trípode de onde a Pitonisa pronuncia seus oráculos.

— Então vamos, Creúsa, não percamos tempo. Enfeite-se com ramos, como fazem os consulentes, a fim de orar a Apolo em seu altar ao ar livre, que se encontra rodeado de loureiros, e nos dê um oráculo favorável. Temos muito o que fazer.

Creúsa levantou-se e correu para o santuário do Templo, enquanto o jovem tesoureiro do deus continuava sua vigília na entrada.

Pouco tempo depois, o jovem ouviu as portas do recinto sagrado abrirem-se e fecharem-se novamente, com um estrondo. E então viu Xutos sair a toda pressa e alegremente surpreso. Com ímpeto ele abraçou o jovem, chamando-o repetidamente de filho e insistindo em que o beijasse.

— Beije seu pai, meu filho! beije seu pai!

Mas o jovem, que nada estava entendendo, achou que aquele homem estava enlouquecendo e afastou-o com indiferença. Xutos, porém, não se deixou afastar.

— É meu filho! O próprio deus Apolo revelou a mim! Seu oráculo afirmou, nestas palavras: “A primeira pessoa que encontrar fora do Templo, é seu filho e constitui um presente dos deuses”. Na verdade, eu não sabia como isto seria possível, pois antes minha esposa nunca teve filhos. Mas confiei no deus; talvez ele me tivesse revelado o seu segredo.

— Seu filho? E quem é a minha mãe?

— Não sei, filho! Não sei! A única coisa que me foi dita é que você é meu filho!

Então o jovem também foi acometido de alegria, talvez metade do que Xutos sentia. E, em meio aos beijos e abraços de seu pai, suspirou:

— Onde está minha mãe? Quem é ela? Quando vou vê-la?

E encheu-se de dúvidas, perguntando-se se a mulher de Xutos, que não tinha filhos e a quem não conhecia, haveria de recebê-lo como filho inesperado e como herdeiro, pois não o era segundo as leis, e imaginando como seria recebido em Atenas. Seu pai, a fim de tranquilizá-lo, prometeu apresentá-lo aos atenienses e à sua esposa como um estrangeiro, e não como seu filho.

Enquanto isso, Creúsa continuava diante do altar de Apolo. Suas preces íntimas foram interrompidas por suas criadas, que se aproximaram lamentando-se.

— Infeliz senhora, seu marido teve uma grande alegria, mas você jamais poderás abrigar no peito seu próprio filho. Apolo a deu um filho, um filho já crescido, que nasceu há tempos de alguma mulher desconhecida. Quando ele saiu do Templo, encontrou-se com esse filho e agora se rejubila por tê-lo achado.

A pobre princesa, cujo espírito fora cegado pelo deus, de maneira que um mistério que lhe era próximo não se revelou, continuou a lamentar o seu destino. Por fim, perguntou às criadas qual era o nome do filho adotivo que ele recebera de maneira tão inesperada.

— É o jovem guardião do Templo, que a senhora já conhece. Seu nome é Íon. Não sabemos quem é a mãe dele. Seu marido dirigiu-se ao altar de Dionísio(Διονυσος) para levar-lhe uma oferenda secreta, em sinal de agradecimento pelo filho, e depois celebrar com ele o banquete de reconhecimento. Ele nos proibiu terminantemente, senhora, de informar-la a esse respeito, mas nós a amamos e por isso não obedecemos à proibição. Por favor, não revele o que a dissemos, pois morreremos!

Chegou então um velho criado, fiel à família dos Erectíadas, que muito amava a sua senhora, e disse-lhe:

— Xutos é um traidor infiel ao seu casamento. Por isso, encarrego-me de eliminar o bastardo, que haverá de se apossar da herança dos Erectíadas.

Creúsa ouviu as censuras sobre o seu marido, e sentiu-se traída e abandonada por ele e também por seu antigo amante, o deus Apolo, e dominada pela tristeza, deu ouvidos aos planos assassinos do velho e confiou-lhe o segredo de sua antiga relação com o deus.

Xutos, saindo do Templo do deus com Íon, dirigiu-se com ele ao pico do monte Párnassos, onde o deus Dionisio era reverenciado. Depois de fazer uma libação ao ar livre, Íon, com a ajuda dos criados, ergueu uma tenda espaçosa e enfeitou-a com o belíssimo tapete bordado do Templo de Apolo. Na tenda foram colocadas mesas longas, travessas de prata repletas de iguarias e cálices de ouro cheios de excelente vinho. Xutos então enviou seu mensageiro a Delfos e convidou algumas famílias de moradores para participarem da festa.

Logo a tenda encheu-se de comensais coroados. Na hora da sobremesa, um velho, cujos gestos engraçados divertiam os convivas, dirigiu-se ao meio da tenda e pôs-se a servir o vinho. Xutos reconheceu nele o velho criado de sua esposa Creúsa, elogiou-lhe a fidelidade e dedicação diante dos convivas e deixou-o agir livremente.

O velho postou-se diante da mesa e começou a servir os convivas. Quando as flautas soaram, ao final do banquete, mandou que os criados retirassem da mesa os cálices pequenos e colocassem diante dos convivas grandes copas de ouro e de prata. Ele mesmo apanhou a mais esplêndida das copas e, como se quisesse honrar seu novo e jovem senhor, aproximou-se da mesa onde este se encontrava e encheu-a com vinho até a borda.

Ao mesmo tempo, sem que ninguém percebesse, acrescentou ao vinho um veneno mortal. Quando ele se aproximou de Íon com a copa, derramando no chão algumas gotas de vinho como oferenda, um dos criados, que por acaso ali estava, pronunciou uma maldição. Íon, que passara toda a sua vida em meio aos costumes sagrados do Templo, reconheceu naquilo um mau agouro. Despejou no chão o conteúdo da copa, pediu outra e fez a oferenda do vinho, sendo seguido pelos demais convivas.

Nesse instante um bando de pombas sagradas, que eram alimentadas no Templo de Apolo, entrou na tenda. Quando viram o vinho, que todos derramavam no chão, pousaram ao lado das poças e puseram-se a bebericar. Nenhuma delas foi prejudicada, a não ser a que se colocara no lugar onde Íon derramara o seu vinho. Balançou as asas, deu gritos de dor e morreu entre convulsões.

Íon, então, levantou-se de seu assento e, cerrando o punho, gritou:

— Onde está o homem que queria me matar? Fale, velho! Foi você que preparou a bebida para mim!

E, dizendo isso, agarrou o velho pelos ombros. Surpreso e assustado, o velho confessou o seu crime e disse ter sido Creúsa a mandante. Íon, então, deixou a tenda, e os convivas o seguiram alvoroçados. Uma vez lá fora, ergueu os braços, rodeado pelos nobres habitantes de Delfos, e exclamou:

— Terra sagrada, será testemunha de que essa mulher quis me envenenar!

— Vamos apedrejá-la! Vamos apedrejá-la!

E junto com Íon partiram em busca da criminosa. Xutos foi arrastado pela multidão, sem saber o que estava acontecendo.

Creúsa, junto ao altar de Apolo, aguardava o resultado de seu gesto desesperado.

Mas tudo acontecera de maneira diferente da esperada. Um alarido distante despertou-a de seu torpor. Antes que se aproximasse, um cavaleiro de seu marido que lhe era o mais fiel de todos, adiantara-se da multidão para lhe revelar a descoberta do crime e anunciar-lhe a decisão do povo de Delfos. Suas criadas a rodearam.

— Permaneça dentro do altar, senhora, pois se o recinto sagrado não a proteger dos assassinos, sobre eles recairá uma culpa de sangue inexpiável!

Enquanto isso a multidão enfurecida, liderada pelo jovem Íon, aproximava-se cada vez mais. E as palavras dele, levadas pelo Vento, eram facilmente compreensíveis:

— Os deuses me defenderão, se assim eu me libertar de uma madrasta que me odeia. Onde está ela? Atirem a assassina do mais alto dos penhascos!

Tinham chegado ao altar. Íon agarrou a mulher, a quem ele considerava sua inimiga mortal, a fim de arrastá-la para fora, pois a santidade do altar oferecia-lhe um refúgio inviolável. Mas Apolo não queria que seu próprio filho fosse o assassino de sua mãe.

Iluminou a sacerdotisa que pronunciara a profecia, de maneira que ela compreendeu toda a situação e ficou sabendo que Íon não era filho de Xutos, e sim de Apolo e Creúsa. Deixou a trípode, apanhou a cesta na qual o recém-nascido fora abandonado diante do Templo e correu com ela para o altar, onde Creúsa lutava com Íon por sua vida.

Vendo que a sacerdotisa se aproximava, Íon correu em sua direção e exclamou:

— Bem vinda, querida mãe, pois é assim que eu a chamo, embora não tenha sido você quem deste à luz. Soube de que cilada escapei? Mal encontrei meu pai, e já a sua mulher está tramando a minha morte!

E a sacerdotisa advertiu-o:

— Íon, vai para Atenas sem manchara sua mão!

Íon refletiu um momento antes de responder.

— Mas não é justo matar os nossos inimigos?

— Não faz nada antes de me ouvir. Está vendo esta velha cestinha? Foi aqui que você foi abandonado.

— E de que me adianta essa cesta?

— Ela contém as fraldas que você usava.

— Minhas fraldas?! Mas isso é uma pista que me pode levar a encontrar minha mãe!

A sacerdotisa entregou-lhe a cestinha aberta, e Íon, ansioso, enfiou a mão dentro dela e puxou os panos cuidadosamente dobrados. Enquanto ele observava aquelas provas com os olhos rasos de lágrimas, Creúsa acalmou-se. Um olhar sobre a cestinha revelou-lhe toda a verdade. De um salto ela deixou o altar e, com um grito de alegria, exclamou:

— Meu filho!

E abraçou o atônito Íon. Mas ele olhou para ela desconfiado e tentou desvencilhar-se. Creúsa recuou e disse:

— Essas fraldas são a prova, filho! Desdobre-as e verá o sinal que eu vou te descrever. No meio do pano está desenhada a cabeça de uma Górgona, cercada de serpentes.

Incrédulo, Íon desdobrou a fraldas. Mas então, enchendo-se de alegria, gritou:

— Grande Zeus(Ζεύς)! Aqui está a Górgona, e aqui estão as serpentes!

— Na cesta deve haver também pequenos dragões de ouro para lembrar os dragões da caixa de Erictônios, e um colarzinho para o recém-nascido.

Íon continuou a revolver a cesta e, com um sorriso de contentamento, logo tirou dali as imagens dos dragões.

— E o último sinal, meu filho, será um ramo de uma oliveira que jamais murcha, colhido da oliveira sagrada de Atena. Foi com essa coroa que coroei a cabeça de meu filho recém-nascido.

E, enquanto ele procurava pelos sinais que indicava a mulher que se dizia sua mãe, ela concluía:

— Não, não estou louca, meu filho! Esse véu e essa capa pertenceram a mim! Com eles cobri seu corpo, quando nasceu. A amiga de quem falei não era outra senão eu mesma... Ouça, meu querido, sou a sua mãe, não tenha dúvida alguma... O deus Apolo é o seu pai!

Íon revolveu o fundo do cesto e tirou de lá um belo ramo de oliveira. E exclamou, em soluços:

— Mãe, mãe!

E, abraçando Creúsa, cobriu-lhe o rosto de beijos. Por fim soltou-a: queria ir para junto de seu pai, Xutos. Creúsa então revelou o segredo de seu nascimento e disse-lhe que ele era filho do deus em cujo Templo servira por tantos anos.

Então, de repente, mãe e filho viram surgir do alto uma maravilhosa visão: envolta num halo de intensa luz, uma deusa de celestial beleza descia dos céus, diante de seus olhos.

— Sou Athena(Ἀθάνα), filha de Zeus. Apolo pediu-me que aqui viesse para confirmar que Íon é filho de Creúsa e dele próprio. Foi ele, através de Hermes, quem o tirou da caverna quando foi abandonado. Mulher, leve-o com você para Atenas, pois ele é digno de governar meu país e minha cidade.

A deusa desapareceu em seguida. Mãe e filho trocaram um olhar cheio de amor e alegria.

— E quanto àquele deus que te referias? Ainda guardas no coração algum resquício de ódio pelo que ele fez?

Creúsa sentia-se justiçada, apenas isto. Sabia ela o que era bem e o que era mal, em se tratando dos deuses? Tudo isto agora pouco importava. Seus olhos estavam voltados para o futuro, de onde via sempre a lhe sorrir o rosto jovem e feliz de Íon, seu filho.

Xutos aceitou Íon como preciosa dádiva divina, e os três voltaram ao Templo para agradecer ao deus. Do alto de sua trípode, a sacerdotisa augurou que Íon seria o fundador de uma grande dinastia, a dos jônios. Regozijando por tudo ter terminado tão bem, e cheios de esperança no futuro, o régio casal ateniense partiu de volta para seu lar com o filho reencontrado e os moradores de Delfos os acompanharam.

Fonte: Olimpo - A Saga dos Deuses
Emmanuel Mourão - Mitologia grega ao alcance de todos.

Foto: LhuneArt
Mitologia - OpenBrasil.org

Postagens mais visitadas