MITOLOGIA

A prole numerosa de Níobe e a vigança de Leto

Níobe

Níobe(Νιόβη) era filha de Tântalos(Τάνταλος), o rei da Meônia (futura Lídia), e viera para a Hélade em companhia de seu irmão, Pélops(Πέλοψ). Depois de andarem de um lado para outro, buscando asilo, enquanto Pélops permanecia e reinava na Hélade, Níobe casou com Anfion(Ἀμφίων), o tocador de lira, que, com seu irmão Zetos(Ζῆθος), havia destronado Licos(Λύκος) e se apoderado de Tebas.

De natureza fecunda, foi mãe de sete filhos e sete filhas, uma prole numerosa que lhe transmitia dignidade e respeito, chegando a se vangloriar. Seus filhos eram: Damasícton(Δαμασιχθων), Alfenor(αλφενωρ)(também chamado de Eupínitos), Ilioneus(Ιλιονευς), Fédimos(Φαίδιμος), Ismênio(Ισμηνός), Sípilos(Σίπυλος) e Tântalos. E as filhas chamavam-se: Ftia(Φθία), Astíoque(Αστυόχη), Neera(Νέαιρα), Cleódoxa, Téra(Θήρας), Ogígia(Ὠγυγίη) e Pelópia(Πελοπεια), também conhecida como Melibéia.

Sendo mulher de Anfíon e mãe de tantos filhos, Níobe era a mulher mais feliz do mundo. Era rainha, amava o marido profundamente e acima de qualquer coisa adorava os quatorze filhos, o orgulho e a alegria de seu coração. Eram a razão de sua vida. Ela os banhava e penteava, não suas ancilas, mas ela mesma, alimentava os menores e rejubilava-se com a família bela e unida que formara com Anfíon. E seria assim por algum tempo.

Muito tempo depois, com o passar dos anos, Anfíon e Zetos decidiram levantar os muros que cercariam e protegeriam Tebas. Até então, Tebas era o que antes fora Cadméia. Contaram com a ajuda do amigo Lócros, que era irmão dos dois reis por parte de Zeus. Ajudaram-nos também seus filhos, enquanto observava o povo estupefato: com o toque mágico da flauta de Anfíon, as pedras, uma a uma, iam-se colocando nos seus devidos lugares, enquanto Zetos usava a força bruta.

Destarte, com a força física e as notas mágicas, os dois irmãos erigiram muralhas impenetráveis, com sete entradas para a cidade, que passou a ser conhecida como Tebas das Sete Portas, tal qual as sete cordas da lira de Anfíon. E a cada porta, deu o nome de suas sete filhas. Nascia ao redor da acrópole de Cadméia a fortificada cidade de Tebas.

Aédon(Αηδών) era a esposa de Zetos. Mas nem todo o seu poder e dinheiro tinham lhe trazido a felicidade. Segundo um boato, a filha de Pandáreos havia sido amaldiçoada por renegar o culto de Dionisos. Por isso, Aédon tinha apenas um filho: Ítilos(Ιτυλος). E por mais que ela sonhasse ou pedisse aos deuses a vinda de outros filhos, não conseguia engravidar novamente. Para que sua decepção fosse completa, ela tinha a cunhada, Níobe, esposa do rei Anfíon, a qual repudiava com todas as forças. Isso porque a rainha tinha sete filhos e sete filhas, que despertavam uma imensa inveja em seu coração. Aliás, os irmãos Anfíon e Zetos reinavam juntos em Tebas, mas o nome de Anfíon era mais glorificado e mencionado pelas ruas da cidade.

Um dia, Aédon resolveu fazer uma visita a Níobe, levando seu filho junto, para que passassem uma temporada no palácio de sua inimiga. Aédon arquitetava acabar com a felicidade incômoda de sua cunhada, para que pudesse se conformar com sua desgraça.

Então, à noite, enquanto todos dormiam, Aédon apanhou um punhal e silenciosamente entrou no quarto em que as crianças dormiam. Em seguida, dirigiu-se ao leito de Amáleo, o filho mais velho de Níobe, e o degolou. A precisão foi tamanha, que nem um ruído sequer foi ouvido.

De manhã, todos foram acordados aos gritos das crianças que choravam assustadas. Níobe entrou em estado de choque pela porta do quarto e Aédon, dissimulando não saber de nada, correu para ver o que tinha ocorrido. Ao chegar nos aposentos do assassinato, teve uma surpresa aterradora. Durante a noite, seu filho, Ítilos, havia trocado de cama com o filho de Níobe. A figura do filho degolado no leito lhe apagou definitivamente a vontade de viver. Enlouquecida, Aédon pôs-se a chorar, inconsolável, perdendo a razão. Ninguém ousou punir a assassina: a fatalidade do seu destino e a sua consciência eram a maior pena que ela poderia sofrer. Porém, teve que abandonar a casa real, indo isolar-se.

Os dias passavam e todos os camponeses comentavam da mulher que chorava pela floresta e andava sem rumo, chamando pelo seu único filho morto. Mas os deuses se apiedaram da dor de Aédon e transformaram a infeliz num belo rouxinol, que sempre ao chegar a primavera, punha-se a cantar, nas florestas, lamentando o filho querido, que ela mesma tinha tirado a vida, chamando por seu nome:

— Ítis! Ítis! Ítis! Ítis!...

Foi por ocasião a celebração anual em honra a deusa Leto que a cidade de Tebas encontrava-se totalmente enfeitada, tendo incenso nos altares dos templos e a população pagando seus votos que Níobe, que tornara-se uma rainha muito orgulhosa devido à nobre estirpe de que descendia, e da qual não devia gabar-se muito pois seu pai, Tântalos, por sua crueldade e infidelidade aos deuses, havia sido punido por Zeus aos suplícios do Tártaros.

Seu irmão Pélops havia-se manchado com o assassinato do próprio sogro, Enômaus(Οἱνόμαος). Por isso, Níobe era tão vaidosa, era mal vista tanto pelos deuses como pelos homens.

— Sou a mais valorosa e feliz mãe do mundo. Não só do mundo, mas do Céu também.

Mas sua velha ama que a acompanhava a alertou:

— Minha senhora, sabemos, como nossos pais e nossos avós, que a mãe mais valorosa e feliz é a deusa Leto, que deu à luz Apolo e Ártemis, ambos deuses poderosos e respeitados por mortais e Imortais.

— Ora, eu gerei quatorze belos filhos. Meus filhos são os melhores atletas e os cavaleiros mais brilhantes. Minhas filhas são as mais belas flores de Tebas, e as sete grandes torres das muralhas da cidade têm seus nomes. Até a minha filha Clóris, que é mulher, venceu brilhantemente nos jogos instituídos pelo rei Pélops, em Pisa. Portanto, como Leto, que só tem dois filhos, poderia ser mais feliz e melhor mãe do que eu?

— A senhora pode ser rainha, mas foste amamentada com meu leite na velha Meônia, e isso me dá o direito de repreendê-la. Retire o que disse! Seja orgulhosa quanto quiser entre os mortais, mas seja humilde com os deuses. Pois os Imortais têm poder incalculável, e não somos nada diante deles.

— Leto teve de fugir e não tinha para onde ir. Eu posso mais do que Leto!

— Amenize seu tom de voz, minha rainha, cuidado para que os deuses não a ouçam!

— Ora, ama, eu sou querida dos deuses, e meus quatorze filhos são a fonte de meu poder. Meu escudo é meu marido, rei de Tebas e filho de Zeus!

— Ai, minha senhora, se os deuses não pudessem ouvir as palavras dos mortais e ler seus pensamentos, talvez nenhum mal lhe acontecesse. Mas, como não é assim, tenho medo, muito medo. Temo que uma desgraça sobre esta casa.

Vivia em Tebas a profetisa Manto(Μαντώ), filha do adivinho Tirésias e devota da deusa Leto. Para testar mais uma vez o orgulho de Níobe, Leto, que ouvira as injúrias da rainha, apareceu para sua sacerdotisa e lhe ordenou:

— Vá para o centro da ágora e ordene que as mães da cidade façam humildemente um sacrifício para mim. E asseguresse de que nenhuma deixe de me atender prontamente, pois sobre ela desabará o castigo mais hediondo que se possa imaginar.

Manto propalou as ordens de Leto em todos os cantos da cidade e ao longo dos muros do palácio, chamando a todas as mulheres de Tebas a comparecerem na ágora. As mulheres de Tebas, aconselhadas pela profetisa Manto, teceram os cabelos com ramos de loureiro para honrar a deusa Leto e seus filhos, Ártemis(Ἄρτεμις) e Apolo(Ἀπόλλων), levando consigo oferendas de incenso, para celebrar e honrar a deusa.

Assim que a ouviram, todas as mulheres tebanas apressaram-se e seguiram a sacerdotisa à praça principal; e Manto se posicionou aos pés da imagem da deusa e induziu as mulheres tebanas a oferecer de maneira solene sacrifícios e honrarias.

As matronas tebanas acederam ao convite da maga e deram início aos faustosos ritos, mas, no momento culminante, a cerimônia foi interrompida pelo improviso aparecimento de Níobe, que orgulhosa da beleza de sua prole, apareceu em meio a multidão. Seu traje era esplêndido bordado a ouro e cravejado com pedras preciosas, e seu rosto tão bonito como o rosto de uma mulher irritada pode ser. Ela se levantou e examinou as pessoas com olhares altivos, e assim falou às súditas:

— Que Tolice! — disse ela — É isso? Por que precisam honrar a esses deuses, sobre os quais todos contam histórias, e dos quais nenhum deles jamais esteve diante de seus olhos! se há Por que construiram altares para Leto e a homenageam, por que não oferecem incenso a mim que estou entre voces, as criaturas que foram mais abençoadas pelos Céus? Afinal, Tântalos é meu pai, o único mortal a partilhar da mesa dos Imortais, e minha mãe é Díone, irmã das Plêiades, que luzem nos céus como uma constelação. Um de meus antepassados é Átlas, o poderoso titã, que sustenta nos ombros a abóbada celeste; meu avô é Zeus, o pai dos deuses; até mesmo os povos da Frígia me devem obediência por herança paterna; a cidade de Cadmos, e até suas muralhas, que se construíram pelo som da lira, obedecem a mim e ao meu marido. Cada parte de meu palácio ostenta tesouros inestimáveis, minha aparência é digna de uma deusa e tenho filhos como nenhuma outra mãe os teve: sete filhas esplêndidas e sete robustos varões; e logo terei o mesmo número de genros e noras. Perguntai, então, se não tenho motivos suficientes para me orgulhar. Para onde viro meus olhos, presencio elementos de meu poder, não na forma ou presença de uma indigna deusa. Por que, ó mulheres de Tebas, rendem tantas homenagens a Leto, que somente pode gabar-se de seus dois filhos? Estas honras deviam ser dedicadas a mim, que tenho quatorze filhos. Voces ousaim colocar Leto acima de mim, a filha dos Titãs, a quem primeiro a vasta Terra não quis acolher para que desse à luz, até que uma ilha flutuante se apiedasse da grávida errante? Foi lá que ela deu à luz dois filhos, apenas dois, coitada. Esta é a sétima parte de minha alegria materna! Quem nega que sou mais feliz, quem duvida que continuarei sendo mais feliz do que ela? A deusa do destino teria muito trabalho para destruir as minhas riquezas! Portanto, cessem as oferendas! Voltem para as suas casas e não tornem a cometer tamanha tolice!

As tebanas ficaram espantadas com a temerária apóstrofe lançada por Níobe contra uma divindade e, mesmo pensando que a rainha endoidecera, obedeceram-lhe, como era seu dever de súditas, e não levaram a termo o sagrado ritual. Assustadas, tiraram as coroas da cabeça e voltaram em silêncio para suas casas, enquanto que, no íntimo, levantavam preces para aplacar a ira da deusa Leto.

No entanto, a velha ama de Níobe implorou:

— Va, minha senhora, pelo amor de seus filhos. Va antes que a desgraça se abata sobre nós. Sacrifica à deusa antes que seja tarde!

— Eu não temo Leto. Até hoje nunca me humilhei, e não vou fazê-lo agora. E, repito, tenho quatorze filhos e sou a mãe mais valorosa que existe. Não vou oferecer sacrifícios a ela!

A arrogante exclamação de Níobe que tanto se vangloriou, acabou por ofender mortalmente Leto, que, no cume do monte Cintos, em Delos, exigiu de seus filhos uma vingança atroz sobre a filha de Tântalos, porque uma simples mortal ousara comparar-se a ela, uma deusa, interrompendo uma festa em sua honra.

— Vejam, meus filhos; eu, que estou tão orgulhosa por seu nascimento, que não temo nenhuma deusa, exceto a rainha Héra, estou sendo ofendida por uma mortal desavergonhada. Se Níobe não for punida, os homens deixarão de reverenciar-me, e não serei mais cultuada como uma deusa. Meus altares ficarão abandonados e serei menosprezada pelos outros Imortais.

Apolo protestou:

— Nada disso, minha mãe, não se preocupe. Não permitiremos que nenhuma mortal a humilhe, seja lá quem for. Nós sabemos e faremos o que a senhora espera de nós.

E completou Ártemis:

— Vamos, irmão! Veremos em poucos instantes quantos filhos restarão àquela pretensiosa. Vamos ensiná-la a não insultar uma deusa — especialmente nossa mãe!

Apolo e Ártemis atenderam imediatamente ao desejo materno. As primeiras vítimas da divina vingança seriam os filhos varões de Níobe. Encontravam-se eles num terreno plano, junto às muralhas da cidade, do lado de fora, e exercitavam-se na equitação e no atletismo, satisfeitos por competir entre si para a conquista de uma primazia. Oculto por uma nuvem, Apolo sentou-se numa pedra bem no alto da acrópole. Com sua visão privilegiada, examinou o posicionamento de cada um dos príncipes, separou sete flechas de sua aljava, tomou uma, curvou o arco e mirou. Ismênio, dava mostras de sua habilidade, cavalgando em círculos, quando a flecha de Apolo feriu-o e fê-lo tombar exânime da sela, e ele só teve tempo de gritar e dar o último suspiro:

— Ai de mim!

Sípilos, que estava perto dele, ouviu o zumbido da flecha atravessando o ar e fugiu a rédeas soltas, mas assim mesmo foi apanhado por uma lança e, saltando por cima da crina do cavalo, caiu no chão, mortalmente ferido. Dois outros, Tântalos e Fédimos, antes que seus irmãos pudessem encontrar algum abrigo, as flechas do divino arqueiro mataram um após outro. O quinto filho, Alfenor, viu-os morrendo. Horrorizado, correu para junto deles e com seus braços tentou reavivar os corpos inertes e frios dos irmãos, mas também ele caiu sem vida, pois Apolo lançou o projétil mortal no fundo de seu coração. Damasícton, o sexto, um jovem delicado de longos cabelos cacheados, foi atingido por uma flecha no calcanhar e, quando se inclinava para trás a fim de tirar a seta com as mãos, uma outra penetrou profundamente sua boca aberta. O último e mais jovem dos filhos, o menino Ilioneus, também chamado de Âmiclas, que vira tudo aquilo, ajoelhou-se, abriu os braços e suplicou:

— Deuses, tenham piedade de mim!

E, por ordem de Zeus, apenas o pequeno Ilioneus foi poupado. E a flecha que já partia em sua direção caiu sem atingi-lo perto de seus joelhos.

No momento em que os vitoriosos deveriam ser exaltados, encabeçando uma marcha coroados de louro, o que se viu foi o povo saindo às pressas pelos portões da cidade para acudir e chorar os mortos, que foram então levados num cortejo fúnebre em direção do palácio. Anfíon aguardava no portão do castelo, como sempre fazia, para cumprimentar os vencedores. Mas a procissão que subia a colina dessa vez não se assemelhava a qualquer outra de que ele se lembrasse. Ficou parado olhando, numa crescente ansiedade, enquanto a longa coluna se aproximava, silenciosa e triste. Invadiram-lhe a mente imagens de algum desastre terrível, mas nenhuma comparável à pavorosa cena que se desenrolou quando os corpos de seis filhos seus foram enfileirados no chão.

Os olhos de Anfíon permaneceram abertos, mas ele se negava a entender aquilo. E só quando seu filho menor, Ilioneus, correu para abraçá-lo, teve plena consciência de todo o horror; desviou o olhar para o Céu e um grito mudo de angústia saiu de seu coração dilacerado. Anfíon estava transtornado de cólera contra os deuses do Olimpo e resolveu atacar e saquear o Templo de Apolo e seu santuário. Porém, antes que o pudesse fazer, o poder de Apolo fê-lo recuar. Sua cabeça pendeu, os olhos incendiaram-se com o desespero da ira e ele desembainhou a espada — com rapidez impressionante, mergulhou a lâmina no próprio peito.

A nefasta notícia foi logo levada ao conhecimento da rainha, que, a princípio, chorou, mas depois se reanimou e chamou em torno de si as sete filhas. Agarradas à mãe, depois de se vestirem de luto, atiraram-se sobre os corpos dos irmãos mortos, desataram a chorar. Níobe continuou de pé. Não podendo suportar a visão da cena hedionda, escondeu o rosto nas mãos. Segurou os soluços que a sufocavam, mas não pôde conter as lágrimas. Níobe pensou que a desgraça de que fora avisada já a golpeara. Agora a rainha travava consigo mesma uma luta angustiante, pois nem aquela punição desumana vergara seu espírito orgulhoso. No fundo do coração, nunca poderia aceitar que Leto fosse uma mãe melhor do que ela nem considerar aquele golpe uma prova de superioridade.

Juntando a coragem que restara, Níobe enxugou as lágrimas, ergueu os braços e passou a imprecar contra Leto:

— Olhe bem, deusa! Que seu espírito se alegre com esse crime hediondo, que exulte com o triunfo de sua crueldade. Mas não pense que isso é uma vitória, Leto. Embora muitos corpos sem vida estejam espalhados aqui, embora houveste matado os varões, restam-me ainda as meninas, que amenizarão minha dor, e são sete! Bem mais do que os filhos que você pode exibir... Você, que não é exatamente superior a mim!

E a resposta veio de Ártemis: ao ruído sibilante de uma flecha, a primogênita levou a mão ao coração, arrancou a flecha do peito e caiu aos pés de Níobe, e logo a seguiam, uma a uma, as demais, mortas pelas flechas infalíveis da deusa. Quando já estavam fulminadas as primeiras cinco, Níobe, deixando finalmente seu tom arrogante, de joelhos, implorou a Ártemis para que lhe deixasse ao menos sua filha mais nova, que lhe era mais cara de todas e que segurava desesperadamente entre os braços:

— Oh, grande e poderosa Leto! Tu me derrotaste! Perdoa-me por ter-te insultado, tem pena de meu sofrimento. Eu suplico, eu imploro que me deixes a última filha, para abrandar essa dor!

Mas a deusa não se deixou comover, e também a sexta filha de Níobe foi reunir-se aos irmãos e irmãs, apenas restando-lhe a mais velha, Melibéia, a piedosa, que cheia de terror pelo massacre dos
irmãos, se tornou tão empalidecia, o que lhe valeria, daí em diante, o nome de Clóris, a “verde”.

Desfigurada, a rainha contorcia-se, jogava-se ao chão, levantava os braços para o Céu, batia no peito suplicando:

— Se você não pode se apiedar de mim, pelo menos mostre clemência por esta criatura inofensiva e piedosa. Tire-me a vida, mas deixe-a viver para chorar, para esquecer e para dobrar os joelhos diante de seu poderoso nome!

Níobe agora se humilhara totalmente diante de Leto. Os últimos fragmentos de seu orgulho haviam se desintegrado. A deusa sentiu nisso grande prazer, mas não teve piedade. Os gritos de Níobe teriam derretido um coração de gelo, mas não abrandaram a fúria da deusa, filha dos Titãs: outorgou que Melibéia e o pequeno Âmiclas deveriam ser levados de Tebas, para bem longe do convívio e do amor maternal.

A rainha ficou em meio à cruel obra dos deuses, enlouquecida. Os seus filhos estavam mortos e o marido também. A carnificina fora inimaginável, terrível demais para ser descrita, mas inexoravelmente real. Com seu orgulho e sua felicidade arruinados, Níobe não tinha forças sequer para chorar. Permaneceu ali imóvel e muda, como se toda a vida lhe tivesse escoado do corpo. A única mostra de sua dor eram as lágrimas que continuavam a rolar de seus olhos.

Níobe estava imersa em seu profundo sofrimento, quando uma voz áspera e horrenda lhe feriu os ouvidos. Os deuses ainda não haviam completado sua vingança. A profetisa Manto fazia uma nova ronda, gritando em todos os quarteirões da cidade:

— Povo de Tebas, ouçam minhas palavras! Os deuses proíbem que enterrem os filhos de Níobe. Para aumentar a punição dessa mulher vaidosa e mostrar a todos os tebanos, o verdadeiro poder do Olimpo, os corpos ficarão insepultos e serão comidos pelos abutres.

Inúmeras vezes a profetisa repetiu aquela mensagem com sua voz estridente. Os filhos e filhas de Níobe permaneceram insepultos; e Níobe não pôde mais suportar: devido ao grande desespero e dor que dela se apossou, Níobe fugiu para a terra de Tântalo, seu pai, e lá permaneceu, vertendo um pranto inesgotável, onde os deuses, apiedados de seu sofrimento, a transformaram num bloco de pedra. E conforme a angústia da rainha aumentava, avolumava-se a rocha em que ela se transformara, elevando-se cada vez mais, ameaçadora, como uma acusação contra a impiedade dos Imortais.

Quando os deuses viram aquele enorme pilar de pedra e as lágrimas que começavam a verter dele, censurando-os por sua hedionda vingança, compreenderam o mal que haviam feito. Primeiro ficaram envergonhados, depois atemorizados...

Sabendo agora que aquilo não fora uma vitória, mas um confronto humilhante, depois de dez dias, eles vieram secretamente, à noite, e sepultaram eles mesmos os filhos de Níobe. Depois, desencadeando um terrível redemoinho, levantaram a pedra e transferiram-na para uma montanha da Meônia; puseram-na atrás do monte Sípilos, para que fosse esquecida, e, debulhada em lágrimas, fez jorrar seu pranto, sob a forma de uma fonte perene — a mesma rocha que hoje se vê nas encostas do monte Mahnissa.

Os únicos sobreviventes, Âmiclas e Melibéia, haviam sido levados a Árgos, onde, mais tarde, construiriam um templo dedicado à deusa Leto. Melibéia, também chamada Pelópia, conhecida assim em honra de seu tio Pélops, agora intitulada Clóris pela sua palidez, haveria de se casar com um homem de Pilos, um certo Neleus, de família nobre, e lhe daria bom número de filhos, entre os quais, Nestor, o abençoado. O deus Apolo, para compensar a morte dos Nióbidas, concedeu a este todos os anos de vida que ele e Ártemis haviam tirado da prole de sua mãe; Nestor morreria muito, muito velho.

Com a morte de Anfíon e Zetos, Tebas, agora rodeada por muralhas, ficara sem rei, e o povo decidiu procurar Laios para suceder os reis gêmeos. E o encontraram exilado e desnorteado pela perda de sua paixão, o jovem Crísipos(Χρύσιππος), filho de Pélops. E Laios então aceitou tornar-se o novo rei de Tebas. Assim, a dinastia labdácida foi reconduzida ao poder.

Fonte: Olimpo - A Saga dos Deuses
Emmanuel Mourão - Mitologia grega ao alcance de todos.

Foto: AireensColor
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