MITOLOGIA

A vingança de Afrodite e a redenção de Psiqué


Psiqué(Ψυχη) correu para a residência, para buscar alguma explicação. E novamente encontrou suas irmãs acompanhadas de seus maridos. Depois de ser recebida com espanto por elas, contou toda a sua terrível história.

— Oh, que pena... — disse uma das irmãs, fingindo pesar.

— Aí está o preço da ingratidão — disse a segunda, fingindo revolta. — Deveria ter sido mais generosa, depois de tudo o que ele fez por você.

Psiqué frustrada com o mal acolhimento de suas irmãs acabara de tomar uma resolução: Iria destruir as irmãs, para que nunca mais voltassem a enganá-la. Levou-as para o alto do rochedo do qual Zéfiros a havia levado e mostrou a elas a beleza do céu.

— Vejam — disse Psiqué, apontando para cima — ali está o Infinito e, mergulhada nele, está a morada dos deuses. Eros é um deus, é puro e lindo. Vocês fizeram com que eu acreditasse que ele poderia me destruir. Suas palavras me encheram de pensamentos enganosos e agora terei que arrancá-los de mim, purificando-me até alcançar minha alma imortal. Só então poderei encontrar novamente o deus do Amor. No entanto não tenho rancor — mentiu — pelo contrario, peço que aguardem aqui pois uma de vocês será a minha substituta no coração do deus do amor. Aguardem pelo sinal de Zéfiros(Ζεφυρος).

Dizendo isto, Psiqué continuou seu caminho, sem saber, no entanto, para onde ir deixando suas irmãs no alto do rochedo. Na esperança de que Zéfiros retornasse e as conduzissem de volta para o palácio de Eros(Ἔρως), as duas aguardaram.

— Quem sabe uma de nós não será a escolhida para substituir nossa ingrata irmã? — disse uma delas, cheia de esperanças.

— Ou mesmo as duas escolhidas...

Sentaram-se ambas sobre a relva e aguardaram que viessem buscá-las. Durante muito tempo estiveram ali deitadas sem que soprasse a menor brisa. Um calor insuportável descia do céu, fazendo-as quase perder os sentidos de tanto calor.

— Então, idiotas, vêm ou não nos carregar outra vez? — bradou a mais colérica das duas, no alto da montanha.

Em resposta, sentiram as duas uma forte brisa soprar em seus rostos.

— Vamos, mana, Zéfiros já esta aqui pra nos levar até o palácio encantado!

Dando as mãos, as duas lançaram-se no espaço, certas de que seriam imediatamente seguras pelas vaporosas mãos suave do vento. As irmãs começaram a sentir que o forte Zéfiros erguia as duas ao céu, e sorriam satisfeitas. Seus pés, no entanto, pedalaram no vazio, sem que braço algum impedisse a queda violenta de seus corpos. Com um grito de pavor, as duas mergulharam, despedaçando-se no abismo...

Enquanto isso no Olimpo, o formoso Eros encontrava-se doente, preso ao leito e cheio de dores, triste e angustiado. A gota de cera que pingara sobre seu peito se transformara numa ferida feia. Sabendo disto, Afrodite(Ἀφροδίτ) foi visitá-lo.

— Meu filho! — exclamou, abraçando o rapaz carinhosamente. — O que aconteceu? Por que está tão mal assim?

— Afastei-me de Psiqué — gemeu o rapaz — e sua ausência tornou-me muito fraco.

Afrodite olhou para Eros, cheia de surpresa e raiva.

— O quê? Durante todo esse tempo estava junto com Psiqué, aquela maldita que pretendeu tomar meu lugar no coração dos homens?

— Não fale assim de Psiqué, Afrodite! Ela jamais pretendeu substituí-la. Você ocupa o trono do Amor, da Volúpia e da Sensualidade. Psiqué nunca iria ocupar esse lugar, que é somente seu.

Mas Afrodite não se convenceu.

— Até você, Eros, que elegi meu filho querido, preferiu Psiqué. Sinto-me traída e humilhada.

E partiu furiosa, envolta num véu de ciúmes...

Afrodite mandou procurar Psiqué por toda a parte, e, na sua cólera cheia de ciúme, perguntou a si própria que suplício lhe devia infligir. E decidiu importuná-la, humilhá-la.

Psiqué percorria o mundo à procura de Eros. Passou a caminhar horas e horas, dia após dia, sem descanso e sem se alimentar, à procura do marido, até avistar uma imponente montanha, em cujo cume havia um templo magnífico.

Mal entrara, viu montões de trigo, em espigas e em feixes, misturados com espigas de cevada. Espalhados em torno, havia foices e ancinhos e todos os demais instrumentos da ceifa, em desordem, como que atirados descuidadamente pelas mãos de ceifadores cansados, nas horas escaldantes do dia.

A piedosa Psiqué pôs fim àquela confusão indizível, separando e colocando cada coisa em seu devido lugar, convencida de que não deveria negligenciar o culto de nenhum deus, mas, ao contrário, procurar, com sua diligência, cultuá-los todos. A deusa Deméter(Δήμητρα), de quem era aquele templo, vendo a jovem tão piedosamente ocupada e disposta, assim lhe falou:

— Psiqué, em verdade digna de nossa piedade, embora eu não possa protegê-la contra a má-vontade de Afrodite, posso ensinar-la o melhor meio de evitar desagradá-la. Vá e voluntariamente renda-se à deusa e soberana e trate de conseguir o perdão pela modéstia e submissão, e talvez ela ainda lhe restitua o marido que perdeu.

A princesa decidiu seguir os conselhos de Deméter e ir falar pessoalmente com Afrodite, e foi ao templo da deusa. No caminho, fortalecia o espírito, repetindo, em voz baixa, o que iria dizer e como tentaria apaziguar a divindade irritada, compreendendo que o caso era difícil e talvez fatal.

Encontrou a deusa toda encolhida em seu Templo, curtindo sua raiva devastadora. Quando soube que Psiqué a procurava, esbravejou:

— Convoco minhas duas escravas, Inquietação e Tristeza, e quero que elas destruam Psiqué.

E Psiqué, que havia procurado a deusa do Amor, da Volúpia e da Sensualidade, julgando obter dela a informação certa, foi torturada implacavelmente pela Inquietação e pela Tristeza, até cair no chão, quase morta de dor. Ali permaneceu durante algum tempo. Seus olhos marejados de lágrimas não a deixavam ver onde se encontrava. De repente, um vulto surgiu à sua frente e cutucou-a com a ponta do pé descalço, limpou os olhos para enxergar melhor e viu Afrodite.

— Levante-se, menina! — disse a deusa falando baixinho, apertando sua raiva entre os dentes cerrados. — Você, a mais ingrata e infiel das servas, lembrou afinal que tem uma senhora? Ou veio ver se conseguiu acabar com o meu filho? Agora compreende que os deuses também sofrem?

— Perdão, deusa, jamais tive a intenção de machucar o seu filho — disse Psiqué.

— Com que então ousou pretender me substituir?

Psique ajoelhou-se em frente à deusa.

— Não, Afrodite, nunca pensaria em ocupar seu lugar. Sou uma pobre mortal que nada conhece sobre os deuses. A única coisa que pretendo é tornar a encontrar Eros.

Afrodite, sem se deixar comover pelas palavras da jovem, decidiu mantê-la sob seus serviços, maltratando-a e impondo-lhe serviços e obrigações acima de suas forças.

— Você é tão pouco favorecida e tão desagradável, que o único meio pelo qual podes merecer o teu amante é a prova de indústria e diligência.

Mas a jovem suportava tudo com ânimo forte, disposta a ir até o fim apenas para reaver o esposo. Afrodite, vendo que Psiquê era resistente, decidiu impor-lhe uma tarefa além de suas forças:

— Para encontrar Eros, precisa mostrar que é forte. Farei uma experiência de tua capacidade como dona de casa. Se é isto o que deseja, vou lhe dar uma tarefa para cumprir.

Chamou as servas do Templo e mandou que no celeiro reunissem em um só monte uma imensa quantidade de trigo, cevada, milho, grão-de-bico e mais quatro qualidades diferentes de sementes. Depois disse a Psique:

— A noite está chegando. Antes que Éos, a aurora, abra as cortinas da escuridão para deixar passar o carro de Hélio, vá ao meu celeiro, no bosque, onde há grande quantidade de trigo, aveia, nilhete, ervilhas, feijões e lentilhas, preparados para alimentar os pombos sagrados, e separe todos estes cereais, colocando cada um de acordo com sua qualidade.

Psique desanimou. Como poderia separar todos aqueles grãos e sementes em apenas uma noite, caindo consternada, diante da imensidade do trabalho, estúpida e calada, sem mover um dedo. Não sabia por onde começar, mas teve que pôr mãos à obra. E sendo assim orou:

— Gaia(Γαῖα), oh mãe Terra! — pensou ela — ajude-me a cumprir minha missão. Deméter, deusa da agricultura, senhora dos grãos e das sementes, dê-me seu auxílio. Preciso realizar minha tarefa, para chegar à minha alma imortal.

As deusas ouviram suas preces e compadecendo-se de pena, mobilizaram milhares de formigas. A líder do formigueiro e toda a multidão de suas súditas aproximaram-se do montão de cereais e com a maior diligência, tomando grão por grão, separaram o montão, formando um monte de cada qualidade. Psiqué ficou estupefata e imaginava que algum deus ou deusa havia dela se apiedado. A tarefa aparentemente impossível foi feita por ela através da ajuda das formigas.

Afrodite voltou do banquete dos deuses, rescendendo a perfumes e coroada de rosas. Verificando que os grãos estavam devidamente separados e furiosa, exclamou:

Ao retornar, Afrodite pensou:

— Isto não é obra sua, desgraçada, no entanto foi forte o suficiente para conseguir o auxílio dos espíritos da Terra.

Depois, Afrodite mandou-a dormir no relento com a refeição de apenas uma côdea de pão duro, pretendendo assim acabar com a beleza da princesa. Mas Psiqué saiu-se bem.

Na manhã seguinte, vendo que não tinha surtido efeito o castigo, Afrodite deu-lhe nova incumbência:

— Olhe para aquele bosque que se entende à margem do rio. Ali encontrarás carneiro pastando sem um pastor, cobertos de lã brilhante como ouro. Va buscar-me uma amostra daqueles flocos de lã preciosa colhida de cada um dos velocinos.

Docilmente, Psiqué, apanhando uma tesoura,saiu à procura das ovelhas, dirigindo-se à margem do regato, disposta a fazer o que estivesse ao seu alcance para executar a ordem. O deus-rio, porém, inspirou aos juncos harmoniosos murmúrios, que pareciam dizer:

— Donzela duramente experimentada, não desafie a corrente perigosa, nem se aventure entre os formidáveis carneiros da outra margem, pois, enquanto eles estiverem sob a influência do sol nascente, são dominados por uma raiva cruel de destruir os mortais, com seus chifres aguçados ou seus rudes dentes. Quando, porém, o sol do meio-dia tiver levado o rebanho para a sombra e o espírito sereno da corrente o tiver acalentado para descansar, podes atravessar entre ele sem perigo e encontrarás a lã de ouro nas moitas de arbustos e nos troncos das árvores.

Assim o bondoso deus-rio ensinou a Psiqué o que deveria fazer para executar sua tarefa e, seguindo suas instruções, ela aguardou o entardecer e novamente orou:

— Éolo(Αιολος), deus dos ventos, suplico seu auxílio. Acalme as ovelhas selvagens para que eu possa realizar minha tarefa!

No mesmo instante, Éolo mandou os Silfos que chegaram trazendo ventos frescos e perfumados, que acalmaram a fúria das ovelhas. Tranqüilas, retiraram-se para dormir e deixaram presos às árvores os preciosos flocos de lã. Psiqué chegou a eles sem medo e sem perigo. Colheu-os e voltou para junto de Afrodite, com os braços cheios de lã de ouro. Não foi, contudo, recebida com benevolência por sua implacável senhora, que disse:

— Maldição! — resmungou a deusa. — Ela conseguiu a ajuda dos espíritos do ar! Sei muito bem que não foi por seu próprio esforço que foi bem-sucedida nessa tarefa e ainda não estou convencida de que tenha capacidade para executar sozinha uma tarefa útil.

Chamou Psiqué e deu a ela a terceira missão. Deveria trazer um vaso cheio com a água a fonte sagrada, que nascia no alto de um rochedo íngreme e perigoso. A fonte era protegida por terríveis dragões.

Sem protestar, Psiqué pegou o vaso e partiu em direção ao rochedo. Lá chegando, não soube como prosseguir. O rochedo era tão íngreme e liso que seria impossível escalá-lo. Psiqué respirou fundo e convocou:

— Doces Náiades, Ninfas das Fontes, atendam ao meu pedido! Preciso alcançar a fonte sagrada, mas meu pobre corpo humano não tem como chegar a ela.

As Ninfas ouviram seu apelo. Uma delas foi buscar a águia de Zeus(Ζεύς), que esvoaçou em volta da menina, pegou o vaso com o bico encurvado e voou. Em minutos estava de volta, com o vaso cheio de água da fonte sagrada.

Afrodite não se conformou com o sucesso de Psiqué .

— A mocinha com certeza conhece as artes da magia e com isto conseguiu o auxílio dos espíritos da água.

Vendo que Psiqué era resistente, Afrodite decidiu impor-lhe uma tarefa além de suas forças, a derradeira:

— Quero que você vá à Casa de Hades pedir a Perséfone que me envie um estojo de beleza, pois perdi um pouco da minha ao preocupar-me demais com os sofrimentos de meu filho enfermo. Não demore a executar o encargo, pois preciso disso para aparecer na reunião dos deuses e deusas esta noite.

Psiqué, a princípio pensando que poderia cair nas graças da deusa, partiu, mas percebeu que talvez jamais voltaria. Logo, desanimou realmente. Como descer ao Hades, ser aceita na barca de Caronte e chegar a Perséfone? Missão totalmente impossível para um ser mortal. Desistiu de tudo e subiu ao alto de uma torre, disposta a se atirar lá de cima. Fechou os olhos e já ia saltando quando ouviu uma Voz que vinha do nada:

— Por que, desventurada jovem, pretende pôr fim aos seus dias de modo tão horrível? Onde estão suas forças, Psiqué? E que covardia faz desanimar diante deste último perigo quem tão milagrosamente venceu todos os outros? Desta vez, ainda não convocou os espíritos da natureza. Perdeu também a confiança?

Psiqué olhou em volta, mas não viu ninguém. Então baixou a cabeça, sem saber o que dizer ou fazer, já que deveria cumprir a última tarefa sozinha.

— Faça como eu lhe disser e só assim conseguirá chegar até onde mora Perséfone.

Psiqué resolveu, no entanto, aceitar a sugestão, que lhe fora dada. Reuniu gravetos e folhas secas e ateou fogo. E de pé, com as mãos estendidas sobre as chamas, implorou:

— Espíritos do Fogo, ouçam meu chamado! Mostrem-me a maneira de chegar ao Hades e de cumprir mais uma das tarefas que me foram impostas.

No mesmo momento, a rainha das salamandras ergueu-se do meio do fogo, contorceu o corpo numa dança exótica e disse:

— Vá ao Cabo Tênaro, no Peloponeso. Lá encontrará uma das entradas ao Hades. E leve consigo uma moeda na boca, um ramo de ouro da árvore consagrada aos deuses, como salvo-conduto que entregará a Caronte(Χαρων) e um bolo de cevada e mel, que dará a Cérbero(Κέρβερος) no momento preciso. E não dê ouvidos a quem quer encontre pelo caminho.

Andou vários dias até chegar perto de uma grande fenda, cercada por uma densa floresta fechada. Ali, já nos limites do Mundo Inferior, munida somente de sua coragem, Psique penetrou nos escuros labirintos da morada dos mortos.

Pelo caminho, um velho aleijado que puxava um burro manco, pediu a ela que apanhasse umas lascas de madeira caída no chão. Mas Psiqué se lembrou da recomendação e não parou para auxiliá-lo. Continuou andando e, depois de um bom tempo, conseguiu encontrar um grande rio negro, onde viu um homem, ou pelo menos parecia ser. Era Caronte.

Depois de convencer o barqueiro a levá-la para a outra margem do rio, porque vinha numa missão ordenada por Afrodite, Caronte, fingindo não saber sobre o assunto, concordou, ela então entregou a ele a moeda que trazia escondida na boca juntamente com o salvo-conduto e Psiqué atravessou o Aqueronte, na barca de Caronte.

Durante a viagem na barca, um náufrago estendeu-lhe as mãos, suplicando que o puxasse para dentro da barca. Sempre atenta às palavras da rainha das salamandras, Psiqué não deu o auxílio solicitado. Desceu da barca e se dirigiu ao castelo de Plutão. Antes de lá chegar, umas velhas fiandeiras bloquearam seu caminho, pedindo ajuda. Mas Psiqué se desviou delas e continuou.

Chegou enfim ao castelo. Hades e Perséfone receberam-na de braços abertos.

— Fique para o jantar — convidou Perséfone. — Precisa descansar um pouco.

— Muito agradeço o seu convite, Perséfone, mas não posso aceitá-lo — respondeu Psiqué . — Tenho uma missão a cumprir e não posso me deter. Então transmitiu o recado à rainha do Érebos, que lhe entregou o estojo de beleza exigida por Afrodite. Psiqué agradeceu e se despediu.

Voltou à barca de Caronte. Cérbero, cumprindo seu papel de guardião que evita a saida do mundo dos mortos, arreganhou para ela todos os dentes das suas três cabeças e já ia agarrá-la. Então Psiqué pegou o bolo de cevada e mel, dividiu-o em três partes iguais e ofereceu-as ao cão. Ele aceitou a oferenda e Psiqué deixou o mundo dos mortos, retornando enfim para o seu mundo.

Após retornar para a luz do dia, que contemplou com infinito alívio, Psiqué se preparava para levar o precioso objeto para a deusa do Amor, no entanto, uma forte tentação invadiu seu espírito.

— O que haverá, afinal, aqui dentro? — disse Psique, embora lembrasse bem da recomendação que a voz lhe fizera para que não abrisse a caixa. — Sou forte agora. Venci as quatro tarefas, tive o auxílio dos quatro elementos. Por que não me há de servir esta caixa, depois de tantos perigos por que passei? Levo comigo a beleza imortal. E se eu usasse um pouquinho, quem sabe se não conseguiria assim chegar com maior rapidez a meu amado Eros e reconquistar meu marido.

Após muita hesitação, a caixa cedeu finalmente ao pequeno esforço por ela feito. Mal abriu um pouco a caixa, ao invés de beleza, saiu um vapor sonífero, e Psiqué, desmaiada, tombou com a face voltada para o chão. A Morte preparava-se para buscar a sua alma.

Eros, já refeito de sua ferida, só pensava em Psiqué.

— Não devia tê-la abandonado — pensava, aflito. — Agora tenho saudades. Algo me diz que ela está precisando de mim. Preciso encontrá-la.

Aproveitando-se de um descuido da vigilante mãe. O jovem voou de um lado para outro até que encontrou Psiqué, caída no chão. desacordada.

— Eu sabia, sua curiosidade estragou tudo outra vez! — exclamou Eros que fora a voz que a advertira para não abrir a caixa misteriosa.

Despertou Psiqué de seu sono mortal com a ponta de uma das suas setas e, assim que ela abriu os olhos, percebeu que estava nos braços de seu amado Eros.

— Meu amado Eros! Sinto que agora já posso olhar sua face sem perigo.

— Sim — respondeu o jovem deus — Você foi iniciada pela Terra, pela Água, pelo Ar e pelo Fogo. O contato com os quatro elementos purificou seus pensamentos e arrancou deles as impressões maldosas deixadas por suas irmãs. Agora pode me ver como realmente sou.

E Psique fitou extasiada a face de Eros, o Deus do Amor.

— Psiqué, leve a caixa para Afrodite, minha mãe, e conclua a tarefa a qual foi incubida mas, pelo nosso amor, não a abra outra vez, porque não poderei devolver-te a vida! — disse Eros. — Enquanto isto vou falar com Zeus para que convença minha mãe a aceitar-te como minha esposa.

Eros voou rápido para os pés do trono de Zeus, que, enternecido pelas suas lágrimas, decidiu interceder a favor de ambos diante de Afrodite. A moça retornou a Afrodite e cumpriu sua última missão, entregando a ela o estojo. Afrodite nada mais lhe pediu...

Há muito que Zeus acompanhava a jornada de Psique, com grande interesse. Ao ver a moça concluir sua última tarefa, sorriu e disse a Hera(Ἥρα):

— Viu, cara esposa, tinha razão ao acreditar que a geração de Deucalião(Δευκαλίων) e Pirra(Πύρρα) teria condições de alcançar a imortalidade. Psique encontrou o caminho da iniciação interior e pode conhecer Eros em todo a sua pureza primitiva.

— É interessante observar — acrescentou Hera — que o caminho que leva à divindade é muito simples de ser trilhado. Os obstáculos são colocados na estrada pelos próprios homens. Eles criam seus demônios interiores e depois levam tempo para se livrarem deles, na jornada da purificação.

Eros com a mesma velocidade que entrou no recinto, deste também saiu e foi encontrar-se com sua amada. Zeus suspirou e apontou para Psique que, abraçada a Eros, corria alegre pela planície.

— Ela conquistou a imortalidade.

Chamou Hermes(Ἑρμής) e pediu que trouxesse Psiqué à sua presença. A garota foi chamada então ao Olimpo e recebeu das mãos do próprio Zeus uma taça contendo um néctar. E lá, rodeado por todos os deuses, inclusive por Afrodite, Zeus também ofereceu à moça a ambrosia, concedendo-lhe a imortalidade recebeu ainda das mãos do próprio Zeus uma taça contendo o néctar.

— Psiqué — disse Zeus — seu caminho foi árduo, mas conseguiu chegar ao fim de sua jornada. Beba e coma isto e seja imortal. Sua alma está agora liberta dos entraves criados pela ignorância dos homens. Éros não romperá jamais o laço que atou, mas essas núpcias serão perpétuas. A partir de agora você terá um lugar entre os deuses.

Enquanto Psiqué bebia o néctar, uma linda borboleta pousou sobre sua cabeça. Zeus deu a Imortalidade a Psiqué, e convidou todos os deuses para um banquete de núpcias. E Psiqué, admitida ao seio dos Imortais, passou a acompanhar o marido. Éros e Psiqué, o Amor e a Alma (por ter ressuscitado), permaneceram juntos por toda a Eternidade, e tiveram uma filha, que lhe deram o nome de Hédone (a Volúpia).

Fonte: Olimpo - A Saga dos Deuses
Emmanuel Mourão - Mitologia grega ao alcance de todos.

Foto: Genzoman
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