MITOLOGIA

Cadmos e Harmonia, sua metamorfose em serpente


Dionísio(Διονυσος) voltou ao Olimpo logo depois que Agave(Αγαυη), em seu louco delírio, matou o próprio filho e fugiu de Tebas. Mal chegou à morada dos deuses, encontrou Athena(Ἀθάνα) que, em seu observatório de pedras, assistira ao trágico fim de Penteu(Πενθεύς).

— Dionísio — disse ela, abrindo os braços para um abraço — você fez o que tinha que ser feito. Agave mentiu, envolvendo o nome de Sêmele(Σεμέλη) e Zeus(Ζεύς), e Penteu recusou-se a recebê-lo em seu reino. E ainda ousou trancá-lo em uma cadeia.

Dionísio abraçou a deusa, mas não havia ternura em seu olhar.

— Às vezes penso que não gosto dos humanos — disse ele, entre dentes — São falsos e ardilosos. É difícil saber se amam ou se odeiam.

Atena acariciou os cabelos rebeldes de Dionísio.

— Vamos lá, rapaz! Não se amargure por tão pouco. São apenas humanos...— e acrescentou, sorrindo — Vamos comemorar sua volta! Onde está aquele vinho delicioso que sempre traz consigo?

Dionísio mergulhou a mão no bolso da túnica e de lá tirou um cântaro. — Terá que beber aqui mesmo, deusa. Não tenho cálices comigo.

Atena absorveu a bebida com prazer.

— Magnífico — exclamou, estalando a língua — Um vinho destes merece um cálice de ouro. Será o meu presente para você, Dionísio. Um cálice de ouro!

Dionísio bebeu o resto do vinho e logo se esqueceu da promessa de Atena. E ficou ali a observar o mundo pois conseguira estabelecer seu culto por toda sua vastidão. Dando sua missão por terminada, entrou no mundo sem tempo e, unificado com Zeus, se viu lutando na guerra dos Titãs, abatendo o gigante Êurito. E Zeus sorriu, feliz, vendo afinal seu filho e sucessor perto de si, participando de sua glória infinita...

Enquanto isso, nas terras dos bárbaros, a dor e a amargura alcançavam Cadmos e Harmonia no exílio.O tempo passara, e os dois reinaram sabiamente sobre a Iliria, no entanto o mesmo se sentia profundamente amargurado pelo infortúnio acometido a sua descendência e sempre se culpava pelo fato de ter causado tal destino após a morte do dragão de Ares(Ἄρης).

— Como os deuses puderam fazer isso com minha família — Lamentava o regente e só então se lembrou das remotas palavras de Atena no dia em que ele matara o dragão de Áres:

— e talvez um dia ele te faça pagar por essa perda, por mais justificada que ela tenha sido.

E Cadmos, erguendo os olhos para o Céu, gritou:

— Se a vida de uma serpente é tão valiosa aos deuses, ó querida Harmonia, e se este é o preço que tenho de pagar pela morte do dragão de Áres, prefiro transformar-me numa criatura como ele a ver meus filhos e netos punidos com tanta crueldade!

Foi com esta praga infeliz que Cadmos, ex-rei de Tebas, deu sua entrada no reino dos ofídios. O velho Cadmos mal havia pronunciado tais palavras quando sentiu o corpo se adelgar e alongar, viu escamas formando-se sobre a pele e seus membros desaparecerem, a cabeça estreitou-se e ganhou forma de cunha. Sua língua bifurcou-se, até que num instante só restava do antigo soberano uma serpente de grande cabeça chata e olhos de pupilas horizontais.

Harmonia, sua esposa, ao ver o que estava acontecendo com o marido, gritou desesperada:

— Oh, Cadmos, querido! O que fizeram com você os perversos deuses?

Um sibilo foi a única resposta que Cadmos pôde dar naquele momento. Harmonia, desesperada e sozinha, vendo que a metamorfose era definitiva, abanou a cabeça.

— Era esta, então, a última desgraça que nos faltava acontecer, não bastassem todas as outras que nos desabaram! — disse a mulher, esmurrando os peitos. — Oh, mas vocês, deuses coléricos, não serão tão cruéis a ponto de me abandonar aqui, ainda jovem e solitária, sem meu querido Cadmos! Façam com que ao menos eu compartilhe do destino dele, pois uma miséria compartilhada já não parece tão funesta a um mortal!

Os deuses não hesitaram em atender logo aos rogos da velha Harmonia: num instante estava também, a pobre, transformada numa comprida serpente, que foi logo juntar-se à outra, que parecia satisfeita, a chacoalhar os guizos. Logo as duas deslizaram pela relva, sumindo-se pelo bosque adentro.

Passado o primeiro choque da transformação, Cadmos e Harmonia foram aos poucos se acostumando com a sua nova condição de ofídios — pois a que o ser humano não se adapta, quando não há outra solução? Em poucos dias estavam plenamente habituados ao seu novo estilo de vida, bem como ao novo habitat: Cadmos e Harmonia eram agora duas ágeis serpentes, a infiltrar-se na mata espessa e virgem, livres dos incômodos da velhice, que nos últimos tempos os afligiam seriamente. Entretanto, com o passar do tempo, chegaram a se aborrecer com a sua nova rotina e também com o seu novo estado — pois a que o ser humano não toma logo tédio, uma vez acabada a novidade?

Assim, todas as vezes que as tardes ensolaradas se prolongavam demais, Harmonia não resistia e com seus olhos úmidos de serpente punha-se a relembrar seus tempos de glória.

— Não há tarde quente como esta — disse Harmonia, observando de esguelha um pequeno pássaro que piava num galho acima — que não me faça relembrar os saudosos dias em que minhas servas me banhavam com ervas perfumadas e eu ia repousar sobre o meu divã dourado, com a mesa, ao lado, farta das mais saborosas iguarias. Por que tinha você, afinal, que ir provocar os deuses? Por sua causa, agora, eu, a filha de dois deuses, estou condenada a rastejar ignobilmente nesta floresta infestada de mosquitos e a aturar o canto infindável destas malditas cigarras!

— Tem razão, minha querida! — disse Cadmos, sem coragem para afrontar a ira da mulher. — O que eu fiz não tem perdão! Se quiser amaldiçoar também o dia do nosso casamento, pode fazê-lo sem remorso, pois foi neste funesto dia que uni meu destino ao seu, arrastando-a para um negro destino!

— Ah, o nosso casamento... — disse Harmonia, dando um novo brilho ao olhar de suas verdes pupilas. — Que festa memorável! Todos os deuses abalaram-se do Olimpo — menos, é claro, aquela invejosa da Hera— para assistir às nossas festejadas núpcias. — Harmonia sibilava de ódio incontido.

— Sim, minha amada, também me recordo perfeitamente — disse Cadmos, concordando. — Mas veja, nem tudo era harmonia naquele tempo! Se, de fato, não temos mais aquela antiga felicidade, tampouco amargamos hoje as desgraças que então tivemos de suportar.

— Oh, nem me fale destes horrores outra vez! — disse Harmonia, voltando a cabeça para o lado.

Mas Cadmos precisava falar, repisar de novo o começo das suas desgraças, pois lhe parecia que se não falasse acabaria envenenado por suas próprias palavras.

— Sim, a desgraça começou para nossa família desde o dia em que abati aquele maldito dragão consagrada a Ares, o seu funesto pai.

— Por que não a deixou quieta, então? — resmungou Harmonia.

— Como? Esqueceu da maneira como se deu o nosso encontro? "Ah, lá vem ele de novo com a história do duelo com a criatura!", pensou a esposa de Cadmos. "E logo depois a dos mirmidões, eu poderia apostar." Então cresceu na alma de Harmonia a certeza de que não existia coisa mais enfadonha à paciência humana do que o homem de um único feito — ou mesmo de dois ou três.

— Deixar em paz aquele maldito Dragão, que devorou meus homens! E a isto que você se refere quando censura a atitude que tomei em relação a criatura?

— Cadmos, apesar de transformada em serpente, estou velha demais para fingir que não sei aonde você pretende chegar. Desenrole logo o fio do seu novelo e chegue logo à narrativa do seu glorioso duelo com o maldito dragão! Bem sei que é a primeira vez como serpente que deverei escutá-la, mas aviso já que será a primeira e a última!

Não, não era a última, pois assim como Cadmos jurava que repetiria sua história pela última vez, assim Harmonia jurava de pés juntos que a escutaria pela derradeira vez, e assim iam distraindo suas miseráveis existências.

Cadmos, a esta altura, já estava surdo às palavras da esposa; à sua frente tinha uma interlocutora inteiramente nova: aquele rosto ofídico nunca tinha ouvido o seu relato, e agora Cadmos iria observar pela primeira vez as reações faciais dele diante do seu espantoso relato.

— Aquele dragão era um monstro, um monstro horrendo e assassino! — , e fiz um favor à humanidade ao limpar a Terra da sua presença.

O transe começara, e Harmonia sabia que uma vez iniciado só havia um jeito de fazê-lo terminar logo: conduzir o relato por meio de perguntas objetivas, tal como um vaqueiro tange o gado, para que chegasse o mais breve possível ao seu destino. E assim ele prosseguiu ao relato dos fatos, fazendo pausas esporádicas para retomar o fôlego.

A noite já vinha caindo, e as duas serpentes já estavam cansadas de relembrar, e de sorrir, e de chorar, e de sofrer, e de se aborrecer, enfim, de tudo isto. Para felicidade delas não foram obrigadas a relembrar os fatos que se seguiram muito depois, e a terrível maldição que se abateu sobre a casa de Cadmos por conta do dragão, que ele matou naquele terrível dia. Seus filhos e netos foram extremamente infelizes, e o casal foi obrigado a partir de Tebas, indo reinar na Iliria, o país dos enquelianos, que, parece, souberam dar mais valor ao dois velhos monarcas do que o próprio povo destes.

Neste momento uma luz brilhou diante das duas serpentes: era Hermes(Ἑρμής) quem vinha, a mando de Zeus(Ζεύς), para conduzir até os Campos Elísios as duas serpentes.

— Eis que os deuses apiedaram-se de vocês, — informou o mensageiro dos Deuses — e é chegada a hora de passarem ambos aos amenos campos — completou o deus das sandálias aladas.

Suas almas não desceram para as escuras e tenebrosas profundezas: viajaram para as Ilhas dos Bem-Aventurados, os Campos Elísios, onde não há tristeza nem angústia. E esta foi, seguramente, a primeira e única vez que serpentes adentraram o Paraíso. E, no lugar onde morreram, foram construídos dois túmulos em forma de serpentes.

Fonte: Olimpo - A Saga dos Deuses
Emmanuel Mourão - Mitologia grega ao alcance de todos.

Foto: Tira-Ow
Mitologia - OpenBrasil.org

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