MITOLOGIA

Hades - Imperador do Mundo dos Mortos


Após a vitória sobre os Titãs, a Hades(Άδης) coube domínio dos reinos subterrâneos, ou seja, o lugar para onde vão as almas das pessoas mortas (sejam elas boas ou más), guiadas por Hermes(Ἑρμής), o emissário dos deuses, para lá tornarem-se sombras.

Hades era tão temido pelos homens, que eles não o chamavam pelo nome, com medo de irritá-lo. Passaram, então, a chamar de Hades ao reino subterrâneo e ao temível deus deram o nome de Plutão, que significa Rico, achando que, com isto poderiam mantê-lo tranqüilo. Escolheram este nome acreditando que o império subterrâneo era muito opulento, não somente em número de habitantes, como também em riquezas minerais e vegetais.

O reino do Hades era extenso, possuindo várias entradas sendo a principal situada no Oceano, além do horizonte ocidental, no entanto possuía outras entradas em regiões remotas e sombrias como em Cumas, ou mesmo próximo ao Vesúvio, estendendo-se abaixo de toda superfície terrestre.

A entrada era separada do interior por vários rios, de águas turbulentas, dos quais o mais famoso era o Estige(Στύξ), tão fiável que os próprios deuses o evocavam como testemunha dos seus juramentos.

O reino do submundo era dividido em três áreas: No primeira habitavam aquelas almas que haviam cometido crimes hediondos e lá espiavam suas culpas. Este local era o Tártaro(Τάρταρος), nome que inicialmente designava genericamente os infernos. O segundo plano era uma espécie de limbo, onde habitavam aqueles que haviam cometido pequenas faltas e que se recuperavam lentamente. A este nível deram o nome de Érebos(Ἔρεβος), os campos de asfódelo, que no começo denominava as trevas que envolviam a Terra. O terceiro plano, conhecido como Elísios(Ἠλύσιον), era o local de alegrias e bem-aventuranças.

As almas que viviam no Érebo, depois de um período de purificação e aprendizagem, passavam aos Elísios. Mas, se não aproveitassem os ensinamentos obtidos no Érebo, seriam mergulhadas no Tártaro. Nos Elísios, as almas aguardavam o momento em que nasceriam para uma nova existência física. Mas a todos era dada de comer a semente da romã, que tinha a propriedade de fazer retornar ao Hades todas as almas que dele se afastassem.

As outras entradas para o Hades geralmente se localizavam em cavernas profundas, na superfície da Terra. Essas cavernas se prolongavam em longos e sombrios corredores que davam nas profundezas subterrâneas. Os homens, logo depois de abandonarem suas vestimentas físicas, eram conduzidos por Hermes a um dos rios infernais, que eram quatro: Aqueronte(Αχέρων), o rio da eterna aflição, Lete(Λήθη), o rio do esquecimento, Flegetonte(Φλεγέθων), o rio de fogo, Cócito(Κωκυτός), o rio do pranto e lamento. Lá aguardavam a barca conduzida por Caronte(Χάρων).

Caronte era um velho horroroso e esquelético, filho de Érebo e Nix(Νύξ), cuja missão era transportar a alma de todos os mortos, fossem eles homens, mulheres, crianças, ricos e pobres. Todos eram levados ao reino de Hades propriamente dito, através do rio. Logo, Caronte estendia a mão ossuda, que surgia das pregas da enorme e larga túnica suja de lama, para receber o pagamento pela viagem. Sabendo disto, os parentes do morto sempre colocavam uma moeda de ouro, conhecida como óbulo em sua boca, para que ele pudesse pagar ao banqueiro. Nehum ser vivo era conduzido na barca de Caronte, a não ser que levasse um salvo-conduto: um ramo de ouro da árvore consagrada aos deuses.

Caso a alma não pudesse pagar pela travessia, ficaria presa as margens do rio Aqueronte por toda a eternidade, podendo inclusive retornar para atormentar os vivos. Ao chegarem ao outro lado da margem, onde se situava a entrada do reino de Hades. O acesso se dava por uma porta de diamantes junto a qual Cérbero(Κέρβερος) montava guarda. Cérbero era um cão tricéfalo (três cabeças), junto a elas são encontradas serpentes cuspidoras de fogo saindo de seu pescoço até a extensão de seu tronco que findava em uma cauda reptiliana.

Após passarem pelo cão, eram conduzidos a presença de Radamanthys(Ῥαδάμανθυς), filho de Zeus(Ζεύς), que os obrigava a confessar todos os seus crimes, mesmo aqueles que nunca ousavam confessar nem a si mesmos. Eram então julgados e levados a um dos três níveis dos mundos subterrâneos, de acordo com o resultado do julgamento.

E, diariamente, Caronte recebia novos passageiros em sua lúgubre barca. Em pé na proa, dava a partida com um leve sinal da mão esquálida, e as almas começavam a remar. E o ruído dos remos mergulhando na água feria o silêncio sepulcral...

Um dia, Hermes(Ἑρμής) foi chamado à presença de Hades.

— Hermes, mensageiro dos deuses, o único capaz de ir aos céus e aos infernos, aos mares e à terra, eu o saúdo e peço seu auxílio. Os seres humanos não estão devidamente instruídos para abandonarem seus corpos. Quando isso acontece, eles se desesperam e se agarram loucamente à sua matéria inerte.

— É verdade — concordou Hermes. — Tenho encontrado mais dificuldades em arrancar os homens de seus corpos mortos, aos quais aderem-se como ostras na pedra, tentando reanimá-los. Parece-me que os homens estão ainda bem pouco preparados para a vida e, pior ainda, para a morte.

Hades concordou com um mudo balançar de cabeça. Franziu as sobrancelhas, que se destacavam na pele pálida, emoldurando os olhos amendoados de um negro intenso e depois falou:

— Peço-lhe, Hermes, que ensine aos homens alguns métodos cerimoniais que irão auxiliar seus mortos e abandonarem rapidamente seus corpos inanimados. Diga a eles que façam o seguinte: no momento em que a alma deixar o corpo e o tênue cordão de prata que a une a ele for rompido, seus sacerdotes, ou os chefes de tribo ou da família, deverão orar, pedindo aos deuses que iluminem a mente do morto com a chama da compreensão. Depois, o corpo sem vida deverá ser cremado no alto de uma fogueira, junto com ervas aromáticas. Assim, sem a presença de seu invólucro físico, a alma se desligará com mais facilidade da matéria. As cinzas e o que restar dos ossos, deverá ser enterrado em cova profunda, para que a alma do morto compreenda que é nas profundezas da terra que está sua próxima morada. E, então, Hermes, você poderá conduzir as almas sem maiores problemas até Caronte, que as transportará através do rio até a entrada do Hades. Lá passarão por Cérbero, o cão de três cabeças que guarda a entrada dos Infernos. Ele não oporá nenhuma resistência, pois sua única missão é impedir a saída das almas e não a sua entrada. Agora vá, Hermes, e ensine aos homens tudo o que lhe foi dito agora.

Depois disso, o trabalho de Hermes foi mais fácil. Do Olimpo, os deuses viam as piras crematórias erguerem-se numa coluna negra e comentavam:

— Os homens procuram cumprir bem tudo o que lhes é ensinado pelo deuses. Vamos esperar que continuem sempre assim...

Usando o capacete que o tornava invisível, Hades passeava por todo o seu reino, desde as mais imundas camadas do Tártaro, até o nível mais elevado e belo dos Elísios.

No Tártaro, sem se deixar ver, olhava as almas que chapinhavam no charco negro, os braços estendidos para cima, pedindo clemência. As pernas mergulhadas na lama densa não podiam quase se mover e não conseguiam fugir dos monstros temíveis que lhes impunham os mais penosos suplícios.

No Érebo, destacando-se contra a penumbra, as almas caminhavam às cegas, procurando por guias que lhes trouxessem uma luz na escuridão. Em seus níveis mais elevados, o Érebo se abria numa imensa clareira mais iluminada, onde os habitantes se moviam com facilidade e encontravam alívio na certeza de que ali estavam temporariamente, apenas aguardando o momento de serem erguidos aos Elísios, onde reinava a eterna primavera e onde as almas encontravam repouso sobre a relva macia, escutando os poetas cantarem em versos a estória de todos os deuses. Através do Hades passava o rio Lete, o rio do esquecimento, de cujas águas as almas bebiam e conseguiam se esquecer do mundo.

E Hades vivia mergulhado em seu reino infernal, sem visitar a luz do dia, sem procurar os irmãos do Olimpo, convivendo com monstros e almas sofredoras, entre as Hárpias e as Queres e vendo a chegada do barco de Caronte com seus lamurientos passageiros.

Depois que Zeus e seus irmãos terem derrotado os Titãs e os expulsado para o Tártaro, constantemente a Terra era sacudida por terremotos. Provavelmente provocados pelas tentativas dos Titãs se libertarem. E Hades sentiu-se alarmado, receoso de que seu reino pudesse ser aberto à luz do Sol, já sobraram muitas fendas no solo terrestre. Presa dessa apreensão, Hades já planejava ir verificar a extensão dos danos.

Como soberano do Reino dos Mortos, das obscuras cavernas do Tártaro. Ali vivia ele a fazer companhia, sozinho, às almas dos defuntos, e sua solidão entristecia-o. Não era propriamente um deus sombrio, mas os Infernos tornaram-se seu quinhão, muito diferente de onde brincavam e viviam as Ninfas das florestas e dos regatos e os Amores, criaturas lindas e serenas, que acompanhavam o séquito de Afrodite(Ἀφροδίτ). Entre eles, havia um pequenino ser, que divertia-se atirando a esmo as flechas da paixão no coração de todos os seres. Isso incomodava um pouco a deusa, porque muitas vezes a paixão podia ter conseqüências desastrosas. E isto atiçava a curiosidade de Éros.

— Por que, mamãe, mesmo no Céu, alguns desprezam nosso poder? Athena(Ἀθάνα), a sábia, e Ártemis(Ἄρτεμις), a caçadora, desafiam-nos.

— Cuidado, Eros(Ἔρως), porque poderás atiçar a paixão do mais gélido ser, e isto poderá trazer tristeza ao mais sublime coração.

Coisas do Destino. Éros, o deus do amor, posicionado sobre o monte Érix, preparando-se, armou seu arco com uma de suas flechas e ao atirar sem destino a flecha infalível da paixão entrou por uma fenda no chão e foi ferir o coração frio de Hades, o deus dos mortos.

Hades, sem entender o que sentia, procurou buscar o entendimento na sua fonte mágica, que lhe indicaria um motivo para lhe revelar esse sentimento novo: a fonte revelou que algumas Ninfas brincavam, correndo na relva salpicada de pequenas flores coloridas. E entre elas estava Core, a filha de Deméter transitava no vale de Ena.

—Core, — chamou uma das ninfas — venha ver este pequeno esquilo! Acho que é o mesmo que vem, todos os dias, comer as nozes que caem daquela árvore.

Core foi ver o animal que segurava uma noz enorme para seu tamanho. As Ninfas sempre a chamavam de Core, a Jovem. Ao ver a moça, o coração flechado por uma das setas de Eros extasiava-se com essa sensação que crescia no peito e um desejo intenso fez vibrar todas as fibras de seu ser, assustado o deus recuou.

Porém ao fixar os olhos na fonte reveladora, viu em detalhes o rosto da menina, uma flor em forma de deusa, com cabelos da cor do trigo, e teve por ela um grande interesse. Ao vê-la tão radiante, do fundo do abismo, por ela se apaixonou e uma fulminante atração atormentou seu corpo. Supôs que, desposando-a, levadas pela graça de uma linda mulher, a luz e a alegria penetrariam e permaneceriam nos profundos abismos, para dissipar-lhe a melancolia.

Porém, ao pensar sobre isso, não pensou um só momento nas conseqüências que poderiam advir do seu procedimento. Procurava um meio de localizá-la, quando viu surgir, diante de seus olhos, uma nova cena: a menina corria a abraçar sua mãe, a deusa Deméter.

— Mas então é minha sobrinha...!

O soberano das sombras, vestindo seu manto negro, ordenou que preparassem para ele sua carruagem, pois precisava ia até o Olimpo...

Fonte: Olimpo - A Saga dos Deuses
Emmanuel Mourão - Mitologia grega ao alcance de todos.

Foto: Genzoman
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