MITOLOGIA

Hécate - Deusa da Magia e da Noite


O templo dedicado a deusa ficou pronto em Elêusis e Deméter(Δήμητρα) se recolheu nele. A saudade de Core(Κόρη) doía cada vez mais em seu peito, aumentando ainda mais com a impossibilidade de transformar Demofonte(Δημοφῶν) em um imortal. Escondida de todos, Deméter sofria suspeitando que Hades havia levado sua amada filha.

Sendo assim, continuou viajando, portanto, com uma tocha na mão, dia e noite interrogando a todos os que encontrava pelos caminhos e batendo a todas as portas. Mas ninguém dava notícia. Ninguém a vira, nem sabia informar, pelo menos algo diferente do que já sabia. Uma ou outra vez, quando via no chão uma flor emurchecida, Deméter a recolhia e beijava, fazendo-a renovar-se, e a escondia no seio. Talvez tivesse caído das mãos de Core, talvez tivesse pousado em seus lábios.

O Sol, inclemente, iluminava seus passos na procura inútil. O frio da Noite enregelava seu corpo. E nem o calor do dia nem os Ventos imprevistos nem as trevas noturnas detinham sua triste caminhada. Numa tarde, longe de todos os lugares onde os homens moravam, Deméter chegou à boca de uma caverna sombria onde parecia luzir, lá no fundo, uma pequena tocha.

Outro qualquer fugiria. A caverna assustava. Mas Deméter parou, espreitou, chamou. A pequena tocha acesa era indício de haver alguém ali. Quem seria? Como ninguém respondeu, entrou, cautelosa, iluminando-a um pouco mais com a pequena tocha que trazia acesa.

— Tem alguém aí?

Ninguém respondeu.

— Tem alguém aí? Por favor, apareça! Core?!

Ouviu então um resmungo que parecia um lamento, soturno e rouco. Deméter, sem querer, trêmula, pensou em voz alta:

— Aqui mora gente ou monstro? — Posso me aproximar?

Ouviu um gemido ao fundo.

— Entre. — Respondeu a voz de mulher.

Iluminando melhor a caverna com sua tocha, Deméter viu ao fundo um vulto de mulher, que aos poucos foi tomando forma, diante de seus divinos e aterrados olhos.

Não era muito bela, mas era uma mulher, feiticeira ou deusa. Achegando-se para mais perto, viu que possuía, três corpos e três cabeças. Levava sobre a testa o crescente lunar (tiara chamada de pollos), uma tocha em cada mão e, como ornamento, serpentes enroladas em seu pescoço. Ao seu lado repousavam algumas éguas, lobas e cadelas. Seu aspecto era infernal e terrível. Parecia pronta a convocar os espectros e os fantasmas do interior de todas as almas.

Apesar da aparência não atacava, não ameaçava, não parecia agressiva. Apenas gemia no tom mais lamentoso, como se tivesse perdido não uma, mas uma centena de filhas. E logo Deméter percebeu de quem se tratava, apesar de conhecê-la vagamente.

Era Hécate(Εκάτη), verdadeira encarnação de certas pessoas que sentiam prazer na própria desgraça e que se refugiavam na sua miséria como se o sofrimento fosse em si mesmo um consolo. Estava sentada sobre um monte de folhas e suspirava e gemia, indiferente à presença da forasteira.

Dizia-se que As Empusas(Έμπουσα) eram suas filhas e saíam do submundo durante à noite com sede de sangue, à maneira dos Vampiros. Possuíam uma perna de mula e outra de bronze. Para seduzir os homens, mudavam de forma, assumindo aspecto de mulheres maravilhosas.

Deméter, percebendo apenas que se ela encontrava diante de uma deusa que sofria, pensou: "Pelo menos, ela é capaz de entender o meu sofrimento". E cansada de tanto caminhar, Deméter aproximou-se e deixou-se cair sobre o chão de folhas secas.

— Seu nome é Hécate, não é?

Hécate confirmou, agitando as cabeças e continuou acariciando uma das cobras do pescoço.

— Sabe quem sou? — Questionou Deméter.

— Uma colega — A voz de Hécate soou profunda e lúgubre e a deusa deu um longo suspiro.

Deméter levou as mãos ao pescoço e à cabeça, para ver se não tinha mudado. Hécate pareceu compreender seu pensamento, e continuou, quase em tom de volúpia:

— Colega de sofrimento. Basta olhar-se, para saber que é uma criatura infeliz. Não tanto como eu, é claro. Mas infeliz, infeliz, infeliz... — E, olhando para a deusa, perguntou: — Acertei?

— Acertou. Sou Deméter, filha de Crono(Κρόνος) e Rhea(Ῥέα) e irmã daquele que governa do Olimpo. Eu era aquela que abençoava os campos e enchia de frutos as mãos dos trabalhadores da Terra. Hoje sou apenas uma triste mãe à procura de sua filha. Deusa dos sortilégios, que está à minha presença e ilumine minha busca! — E pousando nela seu olhar fatigado completou: — Sabe onde está minha filha, Hécate? Ela que desapareceu de maneira misteriosa, nas proximidades de Colonas? Tem notícia dela por acaso?

Hécate começou a gemer e lamentar-se em voz alta. Deméter assustou-se.

— Soube de alguma coisa?... Hécate?!

— Choro por não saber. É mais uma desgraça minha. Não posso ajudá-la.

E quase arrancou as cobras do pescoço, de tanto desespero. Nisso, fulguraram seus olhos. Hécate hesitou antes de falar novamente. Depois, em meio a uma respiração ruidosa e entrecortada, disse:

— Foi há quantos dias?

— Dez...

— Tinha voz infantil?

— É uma criança.

Hécate, a personificação da Noite Escura, suspirou.

— Ver, eu não vi. Eu não costumo sair desta caverna sombria. Mas os meus ouvidos foram feitos para recolher todos os suspiros, todos os gritos de dor, todos os sofrimentos do mundo... Graças a eles eu estou sempre em dia com as últimas desgraças sofridas...

— Assim você me assusta, terrível Hécate...

— Eu não assusto, pobre infeliz... Eu informo.

— Então se explique. Fale!

— Pois bem...

Hécate fez suspense. Deu um profundo suspiro, gemeu, informou que era a criatura mais sofredora da Terra, entre todas as divindades ctonianas.

— Sabe o que eu tenho sofrido?

E já ia falar de suas desgraças, quando Deméter a interrompeu:

— Por Zeus, Hécate, fale de minha filha...!

— Ah! sim...

E, novamente suspirando e gemendo, e quase arrancando as suas cobras, Hécate contou que, nove dias antes, ouvira o pranto e os gritos e o clamor de uma voz infantil que corria pelo Céu, como se estivesse no maior desespero, conduzida por um vivo rumor de carro no espaço, a enorme velocidade.

— Seria ela?

— Devia ser! Ela gritava “socorro, mamãe! Socorro!”

— E então?

— Não sei. Não ouvi mais nada.

— E o carro ia a que direção?

— Desapareceu na direção do nascer do Sol, ou seja, no seio das sombras....

Deméter ergueu-se, num sobressalto.

— Eu vou partir na direção do Sol! Adeus!

— Não vá, fique! Não adianta perder tempo. Pelo jeito, era rumor de carro de dragão e asas de monstro o que eu ouvi, abafando os gritos da menina, puxando o carro veloz que passava. Não adianta lutar contra o Destino ou contra as forças mágicas da Natureza.

— Eu vou lutar! — afirmou Deméter que estava decidida.

A deusa da agricultura acabava de conseguir uma coisa notável: convenceu Hécate a deixar por algum tempo a sombria caverna em que habitava. Iria ajudá-la a procurar sua filha. Sair da escuridão, abandonar a treva, enfrentar as claridades, era, para a soturna senhora, algo quase impossível.

Para ela, o bem era sofrer e se lamentar. Bom era o sombrio, o trágico, o triste. Positivamente não era boa companheira para ninguém. Mas Deméter precisava de um apoio qualquer. Insistiu para que Hécate a acompanhasse em suas novas andanças. E como ela se regozijasse, no fundo de seu negro coração, com o espetáculo daquele coração de mãe despedaçado, acabou concordando.

— Está bem, infeliz. Eu vou contigo. Vamos perder tempo em canseiras inúteis e em procuras vãs. Vamos sofrer juntas, minha pobre coitada. Vai se consolar com as minhas queixas. Eu me confortarei com a tua desgraça irremediável. E juntas elevaremos as nossas lamentações e havemos de chorar nosso trágico destino. Ainda tem lágrimas para chorar?

Deméter estranhou a pergunta, e Hécate continuou:

— Sim, porque vai ter que chorar muito... Mas não faz mal. Eu sou uma fonte de lágrimas. Conte comigo. Bem, vamos. Esta com a sua tocha?

— Sim.

— Levo a minha também.

— Mas vamos caminhar durante o dia, muitas vezes. — Indagou Deméter.

— Eu prefiro a minha tocha. Ela dá sombra, em vez de iluminar... e distrai a minha vista do Sol. Odeio o Sol!

Deméter já ia desistir de companhia tão amarga, quando a referência feita por Hécate ao Sol lhe deu uma idéia animadora.

— Poderoso Zeus(Ζεύς)! E eu que não tinha pensado no Sol! Vamos procurá-lo. Talvez ele nos possa ajudar.

E começou a caminhar. Hécate foi logo atrás, resmungando o tempo todo.

— Que idéia mais idiota! Procurar aquele vadio... Um irresponsável... Um boêmio... Um músico frívolo... Um rapaz que não leva nada a sério... Vê tudo cor-de-rosa... Acha tudo lindo... Está satisfeito com tudo... Que é que esperas dele?

— Apolo(Ἀπόλλων)? Não... refiro-me a Hélios(Ἥλιος), filho dos Titãs. Ele pode dar-me notícias de minha filha.

— Apolo... Hélios... qualquer um deles! Vai dar coisa alguma! Olhe, querida infeliz, eu só a acompanho porque sei que vai ter a maior decepção do mundo...

Hécate não se convencia. Não admitia a luz do Sol, mesmo representado por seu avô Hélios e por Apolo, que às vezes servia de cocheiro à flamejante carruagem. E continuava resmungando. Apolo era ocioso, leviano... E ainda tinha uma coisa desagradável, para Hécate: era radiante como o próprio Hélios, o Sol.

— Não gosto de luz! O Sol é um chato!

— Então volte para a sua caverna...!

— Não. Eu comecei, eu vou até o fim. Quero ter o prazer de lhe consolar, contando as minhas tristezas, quando se sentir a mais desgraçada das mães sem esperança...

Sempre caminhando, Deméter viu mais uma vez os dedos rosados de Éos(Ἠώς), a Aurora, abrirem as portas da escuridão, para deixar passar a carruagem de Hélios. Felizmente estavam atravessando um campo de agapantos e, nas flores que luziam ao Sol, Deméter sentiu renascer um bom pensamento:

— Essas flores não seriam tão lindas se não tivessem a esperança de serem vistas por ela... Minha filha está viva!

— Olha, Hécate! Só pode ser ele! Não encontramos Hélios, mas ali está Apolo, que poderá nos servir!

— Eu sabia...

Haviam caminhado muito e, para ela, só avistar, de longe, aquele jovem tão belo, de cabelos encaracolados, que pareciam feitos de raios do Sol, já valia a pena ter andado tanto.

Já Hécate pensava exatamente o contrário:

— Não faço fé nesse cabeludo! Esse tipo não é de nada!

E, apontando a lira, que Apolo tangia, com os olhos nas nuvens, disse ainda:

— Tem jeito isso? Observe só, Deméter... Em vez de trabalhar, de produzir alguma coisa em benefício dos deuses ou dos homens, ele fica tocando música, como se fosse o melhor que sabe fazer...

— Mas ele é um artista. — Deméter apressou o passo.

— Muito me admira que você, uma deusa respeitável, a rainha dos campos e das plantações, que preside a produção e a colheita dos frutos...

— ...e das flores. — Completou Deméter.

— ...Você, divindade encarregada de coroar o trabalho duro dos homens do campo, não devia favorecer a ociosidade...— Retrucou irritada Hécate.

— Cada um tem a sua missão neste mundo. Um planta o trigo, outro faz o pão, um cultiva as flores, que perfumam a Terra, outro produz beleza, que torna a vida dos que trabalham duro mais agradável... Ouve só a doçura de sua melodia...

E aproximaram-se.

— É impossível que ele não me dê notícia de minha filha...

— Quere apostar?

Hécate, ofuscada pela intensa luminosidade que irradiava daquele deus, cobriu os olhos. As cobras de seu pescoço chiavam de raiva, participando do pessimismo e da irritação da sombria senhora das cavernas. Deméter correu ao seu encontro.

— Apolo! Nobre Apolo!

— Deméter?! Que desejas? Queres que te escreva um poema? Que componha para ti uma nova canção? — Surpreendeu-se o deus que eixou de tocar e voltou-se para a deusa, que vinha-lhe ao encontro desesperada.

Hécate, baixando as cabeça devido à luminosidade e para que o belo jovem não lhe visse a horrenda figura, murmurou para suas cobras:

— Olha só que cara de pau! Em vez de prestar serviço, em vez de desiludir logo a infeliz, ele quer cantar, compor, vadiar... E suas canções são ridículas, sem nenhum contato com a realidade. Se ele ao menos cantasse as desgraças do mundo, nós ainda podíamos tolerar... Mas não: é inconsciente...

Mas Deméter já estava ao lado de Apolo, com as mãos unidas numa súplica:

— Quero, sim, quero um poema. Quero uma nova canção. Mas para traduzir a minha alegria, quando me deres notícia de minha filha que desapareceu e que eu não consigo encontrar.

Hécate não resistiu:

— E você pensa que ele sabe de alguma coisa? Pensa que ele se interessa por alguma coisa? Ah!

— Ele é amigo de Hélios flamejante, ele tem os olhos do Sol que tudo vê!

Deméter afastou a companheira. E, voltando-se para Apolo, disse-lhe:

— Estou certa?

— Quem você procura?

— Core. Desapareceu há pouco mais de dez dias. Procurei-a por todos os caminhos, ninguém deu notícia. Apenas esta “boa” amiga teve a impressão de ouvir os gritos de socorro, confundidos com um tropel de cavalos ou dragões que passavam no Céu...

— ...e com certeza rumo ao Mundo Inferior.

Deméter virou para Hécate, e esta continuou:

— É... já deve estar morta, entendeu?

E, assim dizendo, enxugava com as cobras as lágrimas que chorava, na sua voluptuosa mania de sofrer.

Apolo olhou com repugnância aquela estranha figura. E pensou: " Vai ser feia assim nas profundezas do Tártaros!". Apolo não era capaz de ferir oralmente qualquer ser, mesmo a um ser como ela, com horrendas cabeças e tão tenebrosos pensamentos. E, voltando os olhos para Deméter, disse-lhe:

— Eu acho que ouvi também esse tropel de cavalos... Ouvi também uma vozinha linda que pedia socorro...

— Só podia ser minha filha... Quando foi?

— Há oito ou dez dias... Mas se realmente era sua filha e se pedia socorro...

— Já está liquidada. —Agourou Hécate

Apolo não se deixou abalar pela aquela conclusão.

— Pelo contrário. Se é sua filha, está salva e deve estar agora na maior felicidade.

— Será possível? — Surprennedeu-se Deméter

— Duvido.

De súbito, Hécate recebeu um olhar desprezível e zangado de Apolo e Deméter, que fez a sombria senhora das cavernas estremecer. E Apolo continuou:

— É possível e é natural. Deméter, seu sofrimento me entristeceu. O que eu ouvi foi o tropel dos cavalos que puxavam o carro maravilhoso de Hades(Άδης).

Horrorizada, Deméter pôde apenas balbuciar:

— Hades?! Meu irmão? Então Core foi levada ao mundo inferior? Apolo, ajude-me, diga mais alguma coisa! Temo por minha filha! Zeus deve ter planejado isso! Ah, eu hei de me vingar...!

— Mas Deméter se sua filha teve o privilégio de ser convidada para conhecer o palácio de Hades, ela deve ter se assustado, mas deve estar agora deslumbrada e feliz, carregada de presentes...

Hécate e Deméter se entreolharam.

— Hades é um deus poderoso, como sabem. Não conheço meu tio muito bem, pois rara são as vezes que aparece no Olimpo. Mas, pelo que sei de meu pai Zeus, é o mais rico dos Imortais.

Ao contrário de Hécate, que se comprazia com o lado negativo das coisas, com o seu tenebroso pessimismo, Apolo viu apenas o lado bom. Não amava a tristeza nem a maldade. Deliciava-se com o lado róseo da vida. E facilmente esquecia o que havia ou sabia de mau.

Falando do possível destino da pequena Core, que caíra nas garras de Hades, que era irmão de Zeus(Ζεύς), Poseidon(Ποσειδῶν), Hera(Ἥρα), Hestia(Ἑστία) e mesmo de Deméter, ele a consolava falando-lhe do esplendor do palácio de grande beleza arquitetônica, de salões vastíssimos, de elegantes colunas e da riqueza de todos os objetos que nele existiam.

— Segundo meu irmão Hermes(Ἑρμής), que vive indo lá, Hades é o rei das minas, o senhor supremo do ouro, dos diamantes, das pérolas, das pedras preciosas. Se sua filha agradou a Hades, ela só pode estar feliz, mesmo sentindo sua falta...

— Mas eu prefiro minha filha comigo...

— E a riqueza jamais fez a felicidade plena de ninguém. Eu posso garantir, Deméter, que Core não há de fugir à regra. Ela deve estar sofrendo... — Hécate complementou.

— Ah, língua de cobra!

Apolo sentiu o desejo de atirar a lira contra suas cabeças, mas conteve-se. Hécate já se encontrava de costas, cansada de esconder o rosto com as mãos.

— Espere, Apolo, nisso a minha amiga tem razão. Feliz ela não pode estar. Se Hades fosse, pelo menos, o rei dos jardins e das flores... é tudo o que ela mais gosta...

— Ora, Deméter, as flores lá são de ouro, o tempo não desgasta...

— Minha filha, como eu, prefere as flores que perecem, de vida curta, mas de perfume suave, delicado...

Houve uma pausa, até que Apolo, levantando-se, pôs a mão no ombro da triste mãe.

— Eu acredito que sua filha esteja feliz. Honestamente acredito. Mas você tem que se resignar ao Destino...

— Como assim?

— Porque as Moiras já devem ter fiado o destino de Core...

— Eu preciso de minha filha e ela precisa de mim! — Indagou aos prantos.

Deméter, furiosa, cerrou os punhos e brandiu-os em direção ao Olimpo. Dirigindo sua palavra ao senhor dos deuses:

— Zeus, austero soberano, sempre segui seus passos e bem mais fui fiel a você, porém, agora, eu exijo que arranque das sombras a minha filha, que também é sua, que Hades, o infernal Hades, tirou de meu convívio! Como pôde permitir que sua própria filha fosse raptada ao mundos dos mortos? Por que me castiga desta maneira, Zeus?

Mas somente o silêncio respondeu aos seus gritos aflitos. E, fixando a silhueta do monte que se elevava no horizonte, varando as nuvens, disse baixinho:

— Eu o advirto, senhor do raio, incendiarei o mundo na desgraça e na miséria, fazendo o fogo alcançar o seu Olimpo, secando a fonte das honras aos poderes imortais, caso se negue a atender o que agora suplico por amor à nossa filha Core! Só voltarei ao Olimpo depois de ter minha filha de volta! Não desistirei até conseguir isto! Que o ingrato solo, que tornei fértil e cobri de ervas e grãos nutritivos, não mais gozará de meus favores!

Apolo, surpreso, agora sabia o que ninguém antes sabia: Core era filha de Zeus. Não se surpreendeu. Não seria de admirar, pela forma que Deméter havia concebido aquela menina. E diante de tal ameaça de Deméter, Apolo observou:

— Ela está sofrendo, eu tenho certeza!

— O sofrimento, às vezes, é a melhor escola... Deixe-a sofrer, Deméter... Até que é bom... — Indagou Hécate.

Apolo não se conteve.

— Essa sua amiga é de morte, hein?

— Tenho a Morte na alma!

— Por Zeus! Por Zeus! Pelo Olimpo todo! Cale-se!

Hécate se afastou, resmungando, e Apolo observava:

— Com um Sol luminoso como o de hoje, com tanta beleza nos campos, com tanta música no ar, essa criatura só fala em coisas fúnebres...!

Tomando sua lira em posição, disse a Deméter:

— Vou compor uma canção falando nas alegrias que sua filha terá, se ela tem a sua sensibilidade, certamente está admirando os tesouros que há nos domínios de Hades.

E começou a dedilhar a lira, improvisando uma canção. Mas, angustiada, Deméter o interrompeu:

— Não, meu querido Apolo. Eu sei que está procurando me consolar de uma desgraça que parece irremediável. É amigo de Hélios, o Sol, e Heméra, o Dia. Quer que eu veja só o lado amável da vida. Mas eu não consigo. Eu preciso reaver minha filha. Diga-me, com sinceridade: posso ter esperança?

Uma nuvem de tristeza passou pelos olhos antes luminosos de Apolo.

— Talvez não, minha amiga. Até onde eu posso ir...? Você não pode ignorar estas coisas... Quem uma vez entrar nos domínios de Hades não voltará mais. Tem que aceitar! A menos que o próprio Hades permita que saia...

— Não aceito, não posso aceitar! Eu preciso salvá-la das mãos de meu irmão! Ajude-me, Apolo!

— Vai ser difícil.

— Leve-me até Hades, ajude-me a falar com ele. Todos te amam, todos te admiram!

— É... mas Hades tem uma diferença comigo. Ele não gosta muito de mim. Mais ou menos como esta senhora que trouxe com você...

— Então eu irei sozinha. Ensine-me o caminho.

— Esqueça, querida. O sofrimento é dos homens e dos deuses. Mas a sabedoria e a resignação só aos deuses pertencem. Não é uma deusa também?

— Quem sou eu? Apenas uma pobre mãe desesperada... Eu vou, Apolo! Conhece ou não o caminho para os Mundo Inferior?

— Mesmo que eu conhecesse, não lhe ensinaria.

— Por quê?

— São muitas as entradas, mas todas vão dar no Érebos, lugar defendido por um terrível mastim... não era páreo para ele...

— Que mastim?

— Um cão feroz de três cabeças... É pelo menos a mais terrível criatura que já se ouviu falar. Talvez mais terrível que o próprio Inferno!

— Então ele deve ter devorado minha filha!

— Não... Cérbero(Κέρβερος) está ali para impedir a entrada dos que não foram convidados pelo rei, não os que chegam com o rei... No seu lugar, eu não iria...

— Eu vou. Adeus.

— Sinto não poder fazer mais nada...

— Já fizeste muito. Pelo menos já tenho certeza onde encontrar minha filha. E eu adorei as tuas canções...

Deméter já se afastava, quando viu que Hécate a chamava. Deteve-se um momento.

— Não vais aborrecer-te se eu não te acompanhar? Volto para a minha caverna...

— Tudo bem, Hécate.

Despediram-se sem aperto de mão, dando um grande alívio a Deméter. Afinal, “melhor sozinha do que mal-acompanhada”.

Hécate retornou para o sombrio lugar onde tinha morada, sempre a gemer e a lamentar-se. Verdadeiramente, a deusa Hécate conhecia as entradas que davam para os Infernos, pois era a deusa da magia e servia ao deus Hades. Porém, temendo a ira do deus, evitou informar e acompanhar Deméter.

Sem destino certo, Deméter saiu pelo mundo, com sua humilde tocha acesa, na sua angustiada procura. Toda a sua esplêndida beleza fenecera ao peso de tanto sofrimento. Já não se interessava por coisa alguma. Durante o tempo em que Deméter ficou fora do Olimpo a terra tornou-se estéril, o gado morreu, o arado quebrou, os grãos não germinaram.

Sem comida a população sofria de fome e doenças. Deméter Já não via as árvores, nem as flores, nem sequer via os frutos, que eram antes o seu encanto e o seu cuidado, agora pareciam tristes também, galhos caídos, flores murchando, frutos apodrecidos. A Terra sofria com a ausência de Deméter...

Fonte: Olimpo - A Saga dos Deuses
Emmanuel Mourão - Mitologia grega ao alcance de todos.

Foto: Genzoman
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