MITOLOGIA

Hefesto tenta violar Athena e o nascimento de Erictônio

Erictônio

Hefesto(Ἥφαιστος) enxugou a testa com a costa da mão. O calor do fogo queimava sua pele e seu corpo nu brilhava de suor. Escutou passos, olhou e para sua surpresa naquele momento adentrava em sua forja Athena(Ἀθάνα).

— Como vai, deusa? A que devo a honra desta visita?

Athena aproximou-se, hesitante. O calor era insuportável.

— Hefesto, você é um ourives e, sobretudo, um artista. Quero que faça um cálice de ouro, com cachos de uva desenhados em relevo.

— Um cálice de ouro adornado, Athena? Posso fazê-lo em poucas horas.

— Ótimo, — disse a deusa, sentando-se em um banco tosco. — eu espero. Prometi este cálice a Dionísio(Διονυσος) e não quero voltar ao Olimpo sem ele.

Hefesto começou seu trabalho. Enquanto o ouro derretia, fabricou as fôrmas necessárias. Suas mãos hábeis trabalhavam o metal, mas seus olhos teimavam em procurar a deusa. O fogo da caldeira queimava sua pele e o desejo que chegava aos poucos queimava seu coração e suas entranhas.

Em seu canto, Athena pensava em Palas. A saudade da amiga foi invadindo sua alma e seus pensamentos e ela não sentiu o tempo passar e nem percebeu a volúpia que se instalara em Hefesto, tomando conta de seus sentidos e de seus movimentos.

Foi somente quando sentiu no ombro o peso da mão do deus, que retornou à consciência do momento e do lugar onde estava. À frente de seus olhos brilhava um magnífico cálice de ouro, com cachos de uva entrelaçados, em relevo. Levantou-se e tomou-o entre as mãos.

— Que trabalho esplêndido, Hefesto! Nem sei como recompensá-lo!

— Fiz este trabalho por amor.

Athena não entendeu bem o significado dessas palavras, já que desconhecia os dons de Eros(Ἔρως). Acabou por concluir que o deus Hefesto amava o seu trabalho. Porém, o deus-ferreiro colocou-se-lhe na frente e quis dar os passos necessários. O ferreiro, apesar da sua feiura, foi o marido da bela entre as belas, de Afrodite(Ἀφροδίτ), e embora o seu casamento não tenha resultado tão satisfatório e nobre como devia ter sido, pois a mesma o havia abandonado, a presença de Athena o fez pensar de novo na possível felicidade de estar com uma mulher tão maravilhosa como aquela que tinha diante de si. Então pegou o cálice e colocou-o sobre o banco. Depois acariciou o rosto de Athena e, inflado de desejo pela deusa virgem, atraiu-a com firmeza.

— Quero somente o seu amor — disse ele, procurando os lábios da deusa com a boca aflita.

Atena quis virar o rosto, mas as mãos fortes de Hefesto comprimiram sua cabeça, obrigando-a a receber o beijo sôfrego. Ela debateu-se furiosamente, sentindo na pele a pressão do corpo do deus. Num movimento rápido, ele a empurrou contra a bancada de pedra, suspendeu sua veste fina e tentou afastar suas pernas. Mas a filha de Zeus se defendeu e a musculatura forte de Atena não cedeu.

A virginal Athena recebeu em muitas ocasiões o requerimento amoroso dos seus pais, mas sempre se manteve fiel à sua ideia inicial de ser virgem por vocação. Ao fim e ao cabo, essa era a petição mais importante da sua vida e estava claro que não o tinha feito por capricho, mas porque compreendia que o seu nascimento marcava o seu destino, separada absolutamente do sexo que nem sequer tinha existido na sua concepção.

— Nunca! Athena é e sempre será virgem! E esse é o seu nobre desejo.

Cega de raiva, ela esmurrou inutilmente os ombros de Hefesto, que se comprimia nervosamente contra seu corpo, procurando uma brecha entre as coxas cerradas. De repente, o rosto de Hefesto se torceu num esgar de prazer e Athena sentiu o líquido quente escorrer por sua perna, contrariada e enojada pela desagradável experiência, retirou-o com um floco de algodão que encontrou por ali e lançou o pingo ao chão, pensando que assim dava o incidente por resolvido, e não chegou a pensar no que ia suceder imediatamente com esse pingo encharcado com o esperma do agora desfalecido Hefesto. Irritada a deusa empurrou com facilidade o corpo mais relaxado de Hefesto, que respirava ofegantemente.

— Você enlouqueceu, Hefesto? — gritou Athena, vermelha de ódio — Como pôde forçar-me desta maneira?

Hefesto não respondeu, apenas torceu a boca num sorriso e ficou olhando para a deusa que limpava a perna com a barra da veste. Nisto, uma névoa clara e brilhante começou a sair da terra, no lugar onde caíra o sêmen de Hefesto. Athena parou de reclamar e olhou, surpresa, o chão que crescia e avolumava-se, formando um pequeno monte coberto por uma luz azulada. E a névoa foi se tornando mais densa, até esconder a terra estufada em meio a círculos de luz que se expandiam e coloriam a cratera do vulcão. E, no meio de toda aquela explosão de cores,uma criança chorou. Depois a luz foi se misturando à névoa, que começou a se tornar menos densa, até desaparecer por completo, deixando ver um recém nascido que esperneava e gritava, deitado na terra. E Então ouviu-se a voz de Gaia(Γαῖα).

— Não estou disposta a carregar esse produto da brincadeira de indubitável mal gosto de vocês e não aceitarei o filho resultante da estupidez dos outros. — Vociferou Gaia, a Terra, que recebeu o esperma e ficou automaticamente grávida, por azar, por essas coisas do destino. — Athena, esta criança é sua, menina! Era você e não eu que Hefesto queria como esposa. Portanto, cuide dela você mesma!

Athena, sentindo-se em parte responsável pelo incidente, tomou a decisão de encarregar-se da criatura assim que foi parido por Gaia. Então se curvou e apertou-o contra o peito.

— Pobrezinho... — sussurrou ela, beijando a face rosada do bebê que logo se acalmou. — Vou levá-lo comigo.

E saiu sem ao menos olhar para Hefesto que, ainda exibindo o mesmo riso nos lábios, acompanhou com os olhos a deusa que se afastava, levando consigo a criança e o cálice de ouro....

Athena, a fim de evitar que os outros deuses descobrissem o ocorrido, não quis voltar ao Olimpo com o bebê. Abrigou-se numa pequena gruta e deitou a criança sobre um monte de capim macio. Estendeu a mão sobre ele.

— Seu nome será Erictônio, que quer dizer, "filho da Terra".. Transmito-lhe a força e a coragem necessárias a um rei. Seu reino será a cidade que traz meu nome, Atenas.

O ruído sibilante de uma serpente chamou-lhe a atenção. Pegou a cobra ecolocou-a ao lado do menino.

— Você será sua guardiã e o protegerá contra todos os perigos — disse a deusa, apontando para a serpente.

Depois encerrou o bebê e a cobra em uma canastra e partiu com passos determinados para a antiga cidade de Ática.

— Muito bem. Cuidarei disso eu mesma!

Pelo caminho, deixou que as imagens do passado voltassem à sua mente e lembrou-se de Cécrope(Κέκροπας), o filho de Gea, metade homem e metade serpente e de sua disputa com Poseidon(Ποσειδῶν) para ver quem seria patrono da cidade.

Fonte: Olimpo - A Saga dos Deuses
Emmanuel Mourão - Mitologia grega ao alcance de todos.

Foto: Rubus The Barbarian
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