MITOLOGIA

Medusa - A Górgona Amaldiçoada


As divindades marinhas não conseguiam esconder sua curiosidade. Por que teria Zeus(Ζεύς) chamado Poseidon(Ποσειδῶν) ao Olimpo? Ao chamado do Senhor do Olimpo, o rei dos oceanos deixou seu palácio encantado que se erguia sobre colunas de corais, no meio do magnífico jardim ornado de plantas marítimas e, segurando o pesado tridente, subiu em sua carruagem puxada por quatro imponentes corcéis marinhos e partiu através das águas, seguindo por uma incrível escolta de golfinhos e monstros marinhos.

As três mil Oceânides, filhas de Oceano(Ὠκεανὸς) e Tétis(Τηθύς), aproximaram-se alvoroçadas. À frente, vinham Electra(Ἠλέκτρα), Dóris(Δωρίς), Calírroe(Καλλιρρόη), Dione(Διώνη), Climene(Κλυμένη), Calipso(Καλυψώ) e Estige(Στύξ).

Pontos(Πόντος), o mar filho de Gaia(Γαῖα), espirrou suas alvas espumas para o alto, procurando seguir Poseidon em sua corrida para o Olimpo, mas elas apenas deram uma volta no ar e caíram na praia, formando pequenos flocos brancos que logo foram absorvidos pela areia.

Houve uma época muito remota em que Pontos gerou sozinho Nereu(Νηρεύς), o velho do mar e depois, encharcando Gaia com sua espuma branca, engendrou outras divindades — Taumas(Θαῦμας) (o temor - impressionante "maravilha" do Mar, incorporação de aspectos perigosos do mar), Forcis(Φόρκυς) (deus dos perigos escondidos das profundezas), Ceto(Κητώ) (deusa dos monstros marinhos) e Euríbia(Εὐρυβία) (deusa dos mares menores).

Da união de Forcis e Ceto nasceram as Greias(Γραῖαι) e a Górgonas(Γοργών). As Greias, também conhecidas como as Cinzentas, ou as Bruxas do Estige, eram três: Ênio(Ἐνυώ), Péfredo(Πεμφρηδώ) e Dino(Δεινώ), já nasceram velhas e pavorosas e só tinham um olho e um dente para as três. Logo fugiram para o País da Noite, onde Hélios jamais chegava e, ocultas numa gruta imunda, disputavam aos gritos o único olho e o único dente que possuíam.

As Górgonas também eram três: Esteno(Σθεννώ), Euríale(Εὐρυάλη) e Medusa(Μέδουσα). As duas primeiras, imortais, eram seres monstruosos; tinham serpentes em lugar de cabelos, presas afiadas, mãos de bronze e asas de ouro. Seus olhos lançavam chamas e transformavam em pedra aquele que as olhasse nem que fosse apenas por um segundo.

Medusa, ao contrário de suas irmãs, era uma mulher deslumbrante, que todos os homens da Grécia queriam possuir, a ela não foi garantida a imortalidade. Seus olhos acinzentados, cabelos longos e encaracolados, lindos de serem vistos, eram admirados e invejados por suas repelentes irmãs, que procuravam escondê-la de todos.

Mas Medusa não podia se casar, pois era sacerdotisa de Athena(Ἀθάνα), a deusa da guerra e virgem, e como a deusa, suas sacerdotisas e serventes tinham que ser virgens e apenas dedicar suas energias a serviço dela, sendo assim ela estava além dos desejos masculinos.

Mas como as paredes do Paternon não podiam conter nem esconder toda a beleza da virgem, um dia atiçado pela beleza da mulher, Poseidon se apaixonou por ela quando a mesma foi banhar-se em suas ondas à luz do luar. Poseidon resolveu agir, enlouquecido pelo desejo e vendo que não conseguiria aproximar-se de sua amada, metamorfoseou-se em um pássaro, raptou-a, levando-a ao Templo de Athena, e lá cobriu com seu amor. Assim, a inocência de Medusa foi roubada e sua vida mudaria para sempre.

Certo dia Athena, vendo a linda moça cantarolando, feliz, em seu Templo, transformou-se em uma anciã e aproximou-se dela.

— Quem é você, menina? — perguntou a velha.

— Sou Medusa, — respondeu ela, empertigando-se toda — a sacerdotisa de Athena. E o que faz aqui, bondosa anciã?

— O Templo de Athena é a minha morada — respondeu a deusa.

Medusa olhou em volta.

— E onde está Athena? Ainda não a vi em seu Templo. Estará ela se descuidando de sua divina morada, talvez à procura de alguém que lhe aqueça o leito?

A anciã apertou os olhos, indignada.

— Athena jamais se esqueceria de seus deveres. É guerreira, mas também é deusa.

Medusa deu uma risada.

— Não discuto isto, minha boa velhinha. Ela é guerreira, é deusa e é virgem. Não será bela o suficiente para encontrar quem a ame? Olhe para mim! Minha beleza atraiu Poseidon quando me viu pela primeira vez. Isto acontece sempre às mulheres belas. Acho que Athena, portanto, não deve possuir muito encantos.

Furiosa, a deusa deixou ver sua real aparência. Medusa arregalou os olhos, mas nada pode fazer. E Com um gesto Athena convocou o senhor dos Mares, disposta a tirar a limpo a ofensa.

— Poseidon, senhor dos oceanos, ofende minha honra ao possuir uma de minhas sacerdotisas, Apareça!

Sem poder negar ao chamado diante de grave ofensa, Poseidon se materializa e confirma o acontecido. Athena, esquecendo-se de sua bondade natural, ficou furiosa pois além de perder a virgindade, a mulher fez aquilo em seu templo, assim sendo, aquela mulher não poderia se casar normalmente conforme o costume Grego, e como não era mais virgem, não poderia servir a deusa. Athena ergueu sua lança para atingir o senhor dos Mares. Medusa se pôs na frente do amante, tentando defendê-lo.

— Como punição por ter cedido às investidas do "Senhor dos Mares", Poseidon, e deitado-se com ele no meu próprio templo, que a minha fúria recaia sobre ti, tola mortal!

O contato com o objeto divino da deusa paralisou-a por instantes e uma transformação rápida modificou seu rosto e seu corpo. A outrora bela Medusa agora parecia um cadáver humano, o belo cabelo da donzela, que ela tanto amava, tornou-se em serpentes, e deixou seu rosto tão horrível de se contemplar que a mera visão dele transformaria todos que o olhassem em pedra. Lembrando que ela já fora a mulher mais desejada pelos homens, quanto por deuses. Agora não passava de um monstro horrível e ameaçador e com um ódio profundo de Poseidon.

Poseidon, que a viu transformar em pedra seus animais aquáticos. Totalmente desesperado, foi esconder-se em seu reino, no mar Arquipélago, enquanto Athena, sem saber se arrependia-se ou se ria, voltou às pressas ao Olimpo.

Horrorizada, Medusa fugiu do Templo de Athena e foi para o extremo ocidente, à procura das duas outras Górgonas que moravam perto do Jardim das Hespérides — as Filhas da Noite —, que tinham a missão de cuidar das maçãs de ouro, com que Gaia presenteara Hera, no dia de seu casamento com Zeus.

Desesperado com o ocorrido, Poseidon invocou Hécate(Ἑκάτη).

— Deusa da magia, e lhe suplico! Quebre o encanto que se abateu sobre minha amada.

A deusa olhou-o tristemente, suspirou e falou:

— Os poderes ou pragas de Athena são insuperáveis. Minha magia não tem alcance neste campo no entanto consigo vislumbrar algo em minha tela mental, uma imagem do futuro. — e ´Hécate prosseguiu dizendo-lhe: — Medusa terá dois filhos: um gigante e um belíssimo cavalo alado. Eles nascerião mesmo que Medusa morra, e só nascerião nessa condição. Seu nascimento será a prova de que o amor produzirá sempre bons frutos, mesmo por um amor impossível...

Fonte: Olimpo - A Saga dos Deuses
Emmanuel Mourão - Mitologia grega ao alcance de todos.

Foto: Genzoman
Mitologia - OpenBrasil.org

Postagens mais visitadas