MITOLOGIA

Nérites - O filho de Nereu e a paixão de Afrodite


Reclinada sobre uma pedra muito lisa, Afrodite(Ἀφροδίτ) sentia os raios do sol beijarem sua pele macia.

— Chipre é uma ilha maravilhosa, — pensou, deixando os olhos vagarem pela paisagem ao seu redor — mas um dia voltarei ao Olimpo.

Sentia saudades do Olimpo, de onde fugira ridicularizada por Hefesto(Ἥφαιστος), quando pilhou seus amores com Ares(Ἄρης). Em Chipre vivia em harmonia intensa com a natureza selvagem, absorvendo a energia da terra, da água e do ar. Mas era uma deusa. Seu lugar não era ali, mas sim no alto daquele monte que se escondia nas brumas do amanhecer.

— Vou voltar — resolveu.

Um pastor surgiu ao longe, tocando seu rebanho. Afrodite se levantou, ajeitou a manta e cobriu o rosto com um véu. Não queria ser reconhecida pelos habitantes da ilha, ou o seu sossego estaria seriamente comprometido. Caminhou pela beira do mar, deixando que a espuma das ondas que se estiravam na areia, preguiçosas, beijassem seus pés pequenos e delicados. Nascida do contato do esperma de Urano(Οὐρανός) com as águas do mar, Afrodite sempre sentira uma grande atração pelas profundezas do oceano.

De repente, o chamado do mar foi mais forte. Parou, arrancou as vestes e mergulhou. Passeou pelo solo arenoso, entre as algas e as plantas exóticas, sentindo na pele o frio roçar dos corpos escamosos dos peixes. A energia das águas invadia seus sentidos e uma vontade de amar foi chegando de mansinho. Fechou os olhos e deixou que aquela energia se espalhasse por todo o seu corpo e depois subisse lentamente, brincando entre as vértebras de sua coluna, até explodir no meio da cabeça em gotículas de luz.

Sentiu uma presença perto de si. Ainda de olhos fechados, procurou perceber a natureza do ser que se aproximava, invadindo devagar o campo energético de sua aura. A vibração que captou foi pura e intensa, agradável e estimulante. Abriu os olhos lentamente e, em meio ao brilho intenso da água que refletia a luminosidade de sua própria energia, viu um jovem lindíssimo. Os cabelos negros se espelhavam em volta de um rosto imberbe e sereno e os olhos enormes e verdes brilhavam, cheios de curiosidade.

— Quem é você? — perguntou Afrodite, envolvendo a nudez do rapaz com um olhar cobiçoso.

Ele recuou um pouco, subiu e flutuou acima da areia fina.

— Sou Nérites(Νηριτης) — respondeu afinal — filho de Nereu(Νηρεύς) e Dóris(Δωρίς) e irmão das nereidas. Você é Afrodite?

Ela respondeu apenas com um sorriso.

— O que faz no reino de Poseidon(Ποσειδῶν)? — perguntou Nérites.

Afrodite estendeu os braços para o alto, colhendo nas mãos os raios dourados do sol que se infiltrava pelas águas.

— Busco energia. A água do mar revigora minhas forças.

Abaixou os braços e estendeu as mãos para o rapaz.

— Venha, chegue perto de mim! Vamos percorrer juntos o reino de Poseidon.

De mãos dadas, flutuaram entre os corais, mergulharam através de cavernas escuras que se abriam em luminosas clareiras, brincaram com as plantas coloridas e fizeram amor sobre as algas macias. Assim passaram bom tempo juntos e enquanto viveu no mar para recobrar suas energias, Afrodite só encontrava prazer em Nérites, e vivia com ele como se fosse seu amante. No entanto, chegou o momento, como estava destinado, em que ela seria admirada entre os olimpícos e a humanidade, sendo assim, dirigiu-se ao seu amante.

— Nérites — disse Afrodite, acariciando o ventre bronzeado do rapaz — Vou voltar ao Olimpo e quero levar você comigo.

Ele fez uma careta marota.

— Como posso ir ao Olimpo se não sei voar?

— Mas você iria, se soubesse? — perguntou a deusa.

Ele a abraçou com força e se deitou novamente sobre ela. Não respondeu, apenas a beijou com paixão. Ela repetiu a pergunta, desviando os lábios dos beijos gulosos.

— Diga-me, Nérites, você iria para o Olimpo comigo?

— Vou com você para onde quiser me levar. — Sussurou ele, enquanto ondulava os quadris, procurando entrar outra vez no corpo quente da deusa.

E ela se permitiu desfrutar de cada nuance de movimento naquele instante, gemendo e murmurando o nome dele, enquanto suas mãos o seguravam gentilmente pela nunca, as unhas arranhando de leve, descendo para o pescoço, enquanto seus quadris ondulavam ao ritmo ditado por ele.

Era sempre assim... Nérites buscava sempre o prazer dela em primeiro lugar. Ele se negava a se entregar ao frisson da própria excitação antes de satisfazê-la por completo, ao menos uma vez. Às vezes Afrodite chegava a pensar que ele considerava o prazer dela muito mais do que o próprio prazer dele. E a noção a tocava... preenchia seu coração e sua alma, se é que ela acreditava nisso!

Mas ela sempre se deixava levar por ele... como naquele exato momento. E ela mais uma vez se entregou, permitindo que ele a levasse rumo aos limites do racional e da emoção... e além. Afrodite seguiu o ritmo ditado pelo parceiro, entregando-se ao modo como ele incitava seu corpo na busca pela satisfação, até que sentiu a pulsação alterar-se de modo inconfundível. Seu corpo enrijeceu e ela apertou o parceiro contra si com ambas as mãos, com os braços... e dentro de poucos segundos, para sua surpresa, o corpo dele também foi tomado pela mesma reação de intensidade.

Os corpos então aceleraram o rítmo momentos depois, ambos se atiraram juntos no precipício feito de longos e eufóricos segundos antes de retornarem ao terreno da razão.

Muitos minutos mais tarde, Nérites foi o primeiro a se mover, e, acomodou-se ao lado dela, de forma protetora, o corpo quente e pesado a envolvendo por trás. Suas pernas se entrelaçaram, assim como seus braços, e ela sorriu. Podia sentir seus corações ainda agitados, o dele batendo contra suas costas, ao mesmo ritmo do seu.

Respirando em sincronia, eles permaneceram deitados juntos, compartilhando um silêncio confortável. Quando ela sentiu os olhos começarem a se fechar, tentou resistir à onda de sono que se abatia sobre seu corpo saciado, querendo permanecer acordada, saboreando aquele momento perfeito por mais algum tempo.

Entrelaçando os dedos aos de Nérites, ela deslizou as mãos unidas dos dois até seu ventre. Afrodite sentiu os lábios dele pressionarem levemente a base de seu pescoço, e ela sentiu o corpo inteiro se arrepiar gostosamente. Enfim o cansaço tomou conta de Nérites e ele rolou para o lado e dormiu.

Afrodite se levantou, determinada a levar consigo o camarada e companheiro de folguedos para o Olimpo, reuniu algas e plantas, corais e conchas e fez um par de asas. Em seguida, estendeu as mãos sobre elas e recitou palavras mágicas. E as asas se transformaram, pelo impulso de sua magia, em duas lidas asas, recobertas de plumas muito alvas.

Quando Néritas acordou, viu as asas lindíssimas brilhando contra as algas esverdeadas.

— O que é isso? — perguntou, admirado.

Afrodite sorriu, exibindo as asas com orgulho.

— São asas, para que possa voar comigo para o Olimpo.

Ele se sentou, sem desviar os olhos das imensas asas. Depois apertou o cenho e se voltou para Afrodite.

— Você está louca? É claro que jamais usaria isto!

— Mas seria somente para chegar ao Olimpo! — protestou Afrodite. — Depois não precisaria mais delas.

Ele sacudiu a cabeça obstinadamente.

— E quem disse que eu quero ir para o Olimpo? Meu lugar é aqui, no reino de Poseidon! Pois é de meu agrado viver no mar com as minhas irmãs e os meus pais.

Afrodite, furiosa, apertou as pálpebras e despejou nele toda a sua fúria.

— Ninguém engana uma deusa! — disse ela, vomitando as palavras junto com seu ódio.

Ele pressentiu o perigo e se encolheu todo. Mas nada pôde fazer.

A um gesto de Afrodite, foi imediatamente transformado em um caramujo...

Afrodite voltou à praia, caminhou pela beira do mar e as asas que arrastava atrás de si deixavam sulcos profundos na areia quente. Parou e se sentou. Ainda furiosa, não percebeu a chegada de Eros(Ἔρως). Fez uma careta quando sentiu o puxão nos longos cabelos. Virou-se rapidamente.

— Ora, é você, Eros? — disse a deusa, procurando sorrir — Passeando pelas ilhas?

Eros tirou a aljava dos ombros e jogou-a perto de Afrodite, que girou o corpo com agilidade.

— Cuidado com estas flechas! — exclamou ela. — Não quero me apaixonar tolamente!

Eros soltou uma risada e se estendeu na areia ao lado dela.

— Não quer se apaixonar? — disse ele, num tom de galhofa. — Logo você, que é a deusa do Amor?

— Alto lá, mocinho! Gosto que se apaixonem por mim, mas não quero me prender a ninguém por laços piegas.

Eros a olhou atentamente. Descobrira um tom de amargura nas palavras de Afrodite.

— Deusa, — disse o jovem deus — você está triste e não adianta tentar me convencer do contrário. Quem a magoou?

Ela não respondeu. Apenas acariciou as plumas brancas das asas empilhadas a seus pés.

— Olhe — continuou Eros, sem se importar com o silêncio de Afrodite. — Não sei o que houve, mas não deixe que ninguém roube o lindo sorriso de seus lábios. Não fique aí, com este ar de pobre abandonada. Vamos, ria!

Desta vez, ela sorriu.

— Obrigada por me alegrar, Eros. Você é mesmo um bom amigo.

Eros afagou os cabelos louros da deusa.

— Gosto muito de você, Afrodite. Lembra-se de como nos divertíamos no Olimpo? Você era a única que não me recriminava pelas minhas flechadas certeiras.

Ela o abraçou carinhosamente e uma súbita ternura invadiu seu coração.

— Gostaria que fosse meu filho, Eros. Os filhos que já tive, nem sei por onde andam agora.

Ele se aconchegou no seio macio da deusa.

— Afrodite, filhos são aqueles eleitos pelo coração. Se me quer como filho, que importa que não me tenha gerado?

Ela beijou os cabelos anelados do rapaz.

— Meu filho... Como é bom abraçar um filho assim, tão junto do coração.

Quando Eros ia partir, Afrodite o presenteou com o par de asas.

— Tome, meu filho. Use-as sempre. Elas ficam bem em você, que é gentil e meigo, apesar de traquinas. Merece ser um deus alado!

E Eros vôou, feliz, em direção ao Olimpo...

Fonte: Olimpo - A Saga dos Deuses
Emmanuel Mourão - Mitologia grega ao alcance de todos.

Foto: Muller Pereira.
Mitologia - OpenBrasil.org

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