MITOLOGIA

O banquete selvagem de Tântalos e o sacrifício de Pélops


Tântalos(Τάνταλος), filho de Zeus(Ζεύς), e da oceânide Plutó(Πλουτω), reinava na Lídia. Rico e querido pelos deuses, era sempre admitido em seus festins, onde recolhia informações para levá-las aos mortais.

Desposou a plêiade Dione(Διωνη), filha de Atlas(Ἄτλας), e foi pai de Pélops(Πέλοψ) e Níobe(Νιόβη). Gozando o fato de ser filho de Zeus e acreditando que tudo pudesse fazer, Tântalos abusava de vaidade e ambição, sendo assim, sempre disposto a revelar aos homens os segredos divinos, Tântalos roubou o néctar e a ambrosia e ofereceu-os aos mortais.

Agraciado pela benevolência de seu pai o mesmo não foi punido. Em lugar de ficar contente com a generosidade de Zeus, Tântalos considerou aquele gesto do pai mais como fraqueza do que bondade. Confiando cegamente no amor que Zeus lhe tinha, Tântalos achou que poderia cometer o maior dos crimes sem sofrer nenhum castigo.

Depois que a doentia ideia da impunidade lhe veio à cabeça, Tântalos começou a maquinar o mais horrível e cruel crime que alguém seria capaz de imaginar. Pretendia, com isso, humilhar os Imortais e mostrar ao mundo que eles não eram tudo aquilo que os homens veneravam. Queria se certificar se os deuses realmente possuíam clarividência plena, o poder divinatório dos deuses, se sabiam de tudo e estavam em todos os lugares ao mesmo tempo.

Desde as primeiras horas da manhã, o palácio do rei Tântalos estava movimentado. E não era para menos, pois seu pai divino estava prestes a chegar para um amigável banquete. Além dele, foram convidados também os divinos Hermes(Ἑρμής), dos pés ligeiros, e Deméter(Δήμητρα), deusa da fecundidade.

Tântalos estava preocupado.

— O que irei oferecer a Zeus, no banquete?

Pensando em agradar semelhantes convivas, na sua qualidade de rei bárbaro, pensou que sacrifícios humanos seriam bem vistos pelos Imortais, os deuses da Hélade.

Levando ao extremo a sua intenção de agradar e, ao mesmo tempo, testar a divindade de seus convidados, mandou chamar seu filho Pélops, que ainda dormia.

— Pélops, meu filho, hoje tu terás o prazer de estar à mesa junto com os deuses!

— Oh! Meu avô Zeus vem nos visitar?!

— Não só ele, mas ainda outras duas divindades!

— Divino! Maravilhoso! Não vejo a hora de contar a meus amigos! Eles não vão acreditar! Vou vestir a minha melhor túnica!

— Isso, meu garoto...

Depois que o príncipe saiu, Tântalos chamou às pressas o seu cozinheiro.

— Nem uma palavra, apenas faça o que digo: vai atrás dele, mate-o e faça um assado magnífico com ele.

O cozinheiro, a princípio, achou que o rei estivesse brincando, mas, ao notar a sua aparência malévola, começou a tremer, e ficou sem ação.

— Vamos, idiota, faça o que eu disse! Não vê que hoje é um dia especial?

E pensava, enquanto o cozinheiro desatava a correr:

— Zeus ficará encantado ao descobrir que lhe sacrifico o meu próprio filho! Quantas vidas já sacrifiquei em sua honra... mas desta vez eu serei admitido na lista dos deuses!

Em seguida, viu seu cozinheiro trazendo-lhe o garoto.

— Idiota! Não disse para matá-lo de uma vez?

— Mas...

— Pai, por que faz isto? Você não disse que eu estaria à mesa, daqui a pouco, com os deuses?

— Sim, e estará! Vamos, escravo, faça rapidamente o que eu ordenei!

Depois, enquanto o filho era arrastado para o cepo, tentou acalmá-lo:

— Vamos, rapaz, deixa de fricotes. É por uma boa causa. Pedirei a Zeus que o recompense com a Imortalidade!

Então, a um sinal, a lâmina desceu e cortou-lhe a cabeça. Em seguida, o cozinheiro, já acostumado com a ideia, fatiou e salgou todas as partes nobres do corpo esquartejado.

Apaziguada a sua consciência perversa, Tântalos chamou as escravas e ordenou que preparassem a mesa com o maior requinte possível, que, sem de nada suspeitarem, obedeceram.

O Sol já estava no alto quando os visitantes do Olimpo se aproximaram do palácio, na Meônia. Todos pareciam pouco animados, enquanto outros retiravam-se de lá para nunca mais voltar. Os deuses estranharam, pois achavam que fossem queridos naquela terra. Enquanto Hermes vinha à frente, distraído, como sempre, mais atrás vinha o seu pai, de braço dado com sua irmã Deméter.

— Vê, pai, já chegamos ao palácio de meu irmão Tântalos... Não é uma beleza?

— Não fosse o mau-humor de Deméter...

A deusa estava ali contra sua vontade, já que ainda estava triste por Perséfone(Περσεφόνη), que havia a pouco retornado para o mundo dos mortos, e não tivera mais notícias suas. E respondeu:

— Vamos de uma vez! Se tem de ser, que seja logo!

Enquanto as três divindades adentravam-se pelas portas do salão, um escravo foi anunciá-los ao rei, que se concentrava, murmurando:

— Como seria mesmo? “Deus Tântalos”... ou então “Divino Tântalos”... ou melhor “Poderoso Tântalos”.

— Bondoso rei, as visitas já chegaram.

Disse o escravo curvando-se.

Tântalos despertou em sobressalto.

— Ótimo! Mande-os entrar! Vamos, imbecil, por que está demorando?

— Sêja bem-vindo, poderoso Zeus, meu pai, diante do qual todos os poderes celestes e terrenos se humilham.

E foi beijar-lhe os pés.

Em seguida, querendo chegar logo até a bela deusa, beijou rapidamente um dos pés de Hermes. Quando, porém, chegou até os pés da encantadora Deméter, esta lhe ofereceu distraidamente a sola empoeirada das sandálias.

— Divina Deméter, seus encantos superam, hoje, os da própria Afrodite!

Disse com a boca coberta de pó.

Tântalos levantou-se e conduziu os convidados até os seus assentos. E, sentando-se também, perguntou a Zeus:

— Como vão as coisas lá em casa, pai?

Zeus ficou um tanto confuso, mal percebendo que Tântalos se referia ao Olimpo.

— Vão bem, vão bem...

Zeus, na verdade, detestava aquelas visitas anuais que era obrigado a fazer ao filho bastardo, cuja mãe já deixara de procurar há muito tempo.

— Hermes, tens viajado muito?

Tântalos esforçava-se por ser atencioso e simpático, mas aparentava segundas intenções. E Hermes assentiu, sem dar muita conversa.

E o rei, aproximando seu rosto vil ao da deusa, de maneira quase obscena, observou:

— E você, Deméter, sempre muito formosa, hein? Foi boa a colheita este ano?

E começou a cheirar-lhe os cabelos.

Zeus e Hermes entreolhavam-se, enquanto a deusa lhe respondia ao mesmo tempo em que estendia o guardanapo, sem olhar para o rosto do interlocutor:

— É... bastante.

De repente, surgiram quatro escravos carregando uma imensa bandeja, que foi depositada com pompa sobre a mesa, diante de Zeus. E despertou os ânimos. Tântalos esfregava as mãos sob a mesa, na expectativa da reação favorável de seu pai. E pensava:

— A um passo da Imortalidade!

A tampa foi descoberta. Entre tâmaras, amêndoas e nozes descansavam partes nobres de um assado digno dos deuses.

Tântalos arremessou-se para a bandeja junto de Zeus e expulsou o escravo com um safanão.

— Faço questão de servir-lo eu mesmo. Prefere carne branca ou escura, meu pai?

— Branca.

Depois de escolher várias vezes, o anfitrião selecionou um grande pedaço de carne branca. Em seguida, serviu também a deusa, com pequenos pedaços de carne.

— Miúdos não, obrigada. Deixe, que eu mesmo escolho.

E Tântalos, assim que ela escolheu, serviu-a com mil trejeitos, e só depois pôs um pouco de carne no prato de Hermes. Zeus parecia não estar com muita vontade de comer, ensaiava várias vezes, e nada. Quanto a Hermes, antes de começar a comer, percebeu que havia recebido a pior porção. Na verdade, era implicância de Tântalos, que tinha ciúmes do filho predileto de Zeus, cuja mãe ainda procurava às ocultas.

Hermes parou os olhos sobre o pedaço ossudo que tinha no prato, depôs os talheres e observou:

— Mas... isto aqui parece um pé humano...!

Zeus quase ia por na boca um pedaço, quando Deméter, que com saudades da filha que voltara ao Hades, estava com muita fome, comeu uma bela porção da espádua. Ela tinha o hábito de comer com avidez ao sentir-se nervosa ou preocupada. E, distraída, nada ouviu.

Tântalos pensou:

— É agora.

E dirigiu-se para o pai Zeus, como se este fosse o autor da descoberta:

— Sim, meu pai, é o pé de meu querido Pélops!

— Mas que...

— E aqui está uma das mãos... peito... lombo...

Zeus ergueu um olhar ao rei da Meônia, de tal forma feroz, que o tornou branco como a parede de mármore.

— Como se atreve, maldito, a me oferecer a carne do próprio filho, que é meu neto?

Hermes levantou-se da mesa, enojado, enquanto Deméter, se dando conta, era acometida de náuseas.

— Mas pai, é um sacrifício humano! E é dedicado a você! Quis provar a minha dedicação extrema oferecendo-lhe, em holocausto, o meu próprio filho!

O pai dos deuses não havia sido enganado: o rosto do senhor dos deuses e dos homens ficou sombrio por uma incontrolável fúria; trovões e relâmpagos castigaram a Terra, e todos evitaram olhá-lo para não ficarem cegos.

— Idiota! Não sabe que a prática dos sacrifícios humanos já foi há muito tempo abolida?

Enquanto isso, Hermes, penalizado da sorte de Pélops, espiava-o dentro da imensa tigela.

— Pai, vamos tentar trazê-lo de volta à vida!

Hermes foi incumbido por Zeus de reunir e lavar todas as partes separadas do menino Pélops e de colocá-las numa caldeira mágica, de onde Cloto(Κλωθώ), a mais nova das três moiras, que ainda não lhe determinara a morte, retirou-o em perfeito estado. Mas, ao notar que faltava o ombro comido por Deméter, que escondera-se envergonhada, Hermes foi até seu irmão Hefesto(Ἥφαιστος), e pediu a ele que substituísse o pedaço, fazendo uma peça de marfim, com propriedades de curar as doenças de quem a tocasse.

Terminada a obra, enquanto Pã(Πᾶν) dançava euforicamente em torno do fogo, A divina Rhea(Ῥέα), mãe dos deuses, soprou vida nas narinas de Pélops, que renasceu, agora com um transplante de marfim no ombro. A partir de então, toda pessoa que tivesse manchas brancas no corpo seria chamada de “descendente de Pélops”.

Por ter afrontado os Deuses, Tântalos foi atirado ao Tártaro, condenado ao suplício da fome e da sede. ..

Fonte: Olimpo - A Saga dos Deuses
Emmanuel Mourão - Mitologia grega ao alcance de todos.

Foto: MateiT
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