MITOLOGIA

Psiqué - A paixão secreta de Eros

Afrodite(Ἀφροδίτ) ainda se habituava a sua rotina no Olimpo, com admiração ela acompanhava os passos de Eros(Ἔρως), que espalhava o amor pelo mundo dos homens, ela observava atentamente a adoração em seus temlos e sentia apreces dos humanos direcionadas a ela.

No entanto havia algum tempo que não mais sentia aquela sensação harmoniosa que outrora a tocara, decidida a verificar as razoes de tal desconforto, passou a verificar atentamente o mundo humano. Sua atenção se deteve então em uma pequena cidade encravada ao lado de um imenso rochedo que emergia das águas fundas do oceano. A cidade crescia e prosperava.

O palácio real era suntuoso e os Templos erguidos às divindades destacavam-se por sua imponência. E lá estava o templo de Atena, cheio de fiéis, e o de Deméter enfeitado de trigo, parecendo aguardar o momento de alguma festa. O Templo de Afrodite, uma bela construção de pedras, era belíssimo e se erguia no alto de um outeiro. A deusa o contemplou com orgulho.

— É o mais lindo de todos, pensou.

Mas, apurando melhor sua visão, viu que estava vazio e sem ornamentos. Debruçou-se mais ainda na beirada de pedra e esbravejou para si mesma:

— Vazio! Meu Templo está vazio! E nem um ramo de flores para adorná-lo! Como pôde acontecer isto? Onde estão os homens daquela cidade, que não se preocupam em prestar seu culto à deusa do Amor?

E tanto procurou, que acabou por encontrá-los. Estavam todos num parque lindíssimo, perto do castelo do rei. Dentro em pouco, vinda do castelo, surgiu uma jovem de rara beleza, com um semblante infantil e ingênuo.

— É Psiqué(Ψυχη)! — exclamaram os homens. — Vamos prestar-lhe nossas homenagens!

Psiqué era seu nome. Eros já advertira a deusa, quando visitou o mundo dos homens pois criara-se tamanho fascínio diante de sua beleza que já estava se formando um culto em sua homenagem. Alguns exageravam, dizendo que ela seria a própria Afrodite, que decidira viver entre os homens. Mas ao mesmo tempo em que se homenageava a deusa, comparando a beleza de Psiqué à sua, deixavam-se abandonados os seus templos.

Afrodite, que do alto do Céu via tudo, não pôde refrear a indignação:

— Como?! Eu, Afrodite, a primeira entre as filhas de Zeus, eu que fecundo o Universo, devo partilhar com uma simples mortal as honras devidas à minha posição suprema! Deverá o meu nome, que é consagrado no Céu, ser profanado na Terra, terei eu de ver os meus altares descuidados por uma criatura destinada a morrer? Ah, a que assim usurpa os meus direitos vai arrepender-se da sua insolente beleza!

Furiosa, a deusa pegou uma pedra e ia arremessá-la contra a moça, mas Eros chegou a tempo de impedir o gesto impensado. Ele deu uma risada.

— O que é isso, Afrodite? Que mortal a ofendeu a ponto de desejar partir-lhe a cabeça?

— Olhe lá, Eros! — bufou a deusa. — Olhe bem aquela cidade ali, ao lado do grande rochedo. Os homens prestam culto àquela moça e deixam meu Templo vazio!

Eros procurou conter o riso, ante a fúria de Afrodite.

— Com ciúmes, deusa?

Ela ignorou a pergunta. Parecia absorta em algum pensamento.

— Eros, preciso de sua ajuda! — disse ela ao filho.

— Pois não, minha mãe — disse o arqueiro divino.

— Filho, em nome da Ternura que o une a mim, quero que você vingue sua mãe ultrajada; mas me vingue plenamente. Só peço uma coisa, vá até a cidade e fira esta mortal com a seta da mais violenta paixão pelo último dos homens, por um infeliz condenado pela Sorte a não ter nem posição social, nem patrimônio, nem segurança de vida; enfim, por um ser de tal modo ignóbil, de tal forma monstruoso, que no mundo inteiro não se encontre outro igual! Você fará isto por mim?

Eros, sempre obediente, deu de ombros e afirmou positivamente com a cabeça.

Afrodite então apertou-o contra o peito com ternura e beijou-o com calor. E depois debruçou-se novamente na beirada de pedra, enquanto apreciava o alegre voo de Eros...

E Eros começou a matutar. Pensou, pensou... e não lembrou-se de ninguém, pelo menos que ele conhecesse ser assim tão vil como sua mãe descrevia. Mas pôs mão à obra. Sempre obediente, partiu para cumprir sua missão.

Havia duas fontes no jardim de Afrodite, uma de água doce, outra de água amarga. Eros encheu dois vasos de âmbar, cada um com água de uma das fontes, e suspendendo-os no alto de sua aljava, ao cair da noite, o jovem deus entrou no quarto onde Psiqué dormia e tocou-a de lado com a ponta de um de seus dardos, depois de embebê-lo no filtro do amor de água amarga.

Tivera a ideia de que, logo que ela acordasse, a primeira pessoa que visse iria por ela se apaixonar, e certamente induziria a pessoa mais horrenda para ir vê-la, um homem das ruas, de aspecto repugnante.

Na escuridão do quarto, quando Eros já ia enfiar a seta no peito da jovem, foi surpreendido por um gesto inesperado. Ao afastar os cabelos do rosto, em profundo sono, um brilho intenso fosforesceu seu belo aspecto, e a mão do deus estremeceu, e acabou ferindo a ele próprio.

A seta caiu ao chão, causando um leve ruído, mas o suficiente para abrir os olhos de Psiqué, que nada enxergou. Estava sozinha no quarto. E Eros, invisível, muito confuso, sem saber exatamente o que deveria fazer, esperou que ela voltasse a fechar os olhos e, tendo o único pensamento de desfazer o mal que fizera, derramou as balsâmicas gotas de alegria sobre os sedosos cabelos da jovem, e retirou-se, impossibilitado de desejar qualquer mal para uma jovem tão encantadoramente bela.

Afrodite, por sua vez, extravasara sua cólera, cujos efeitos já se faziam sentir, porque, enquanto as duas irmãs de Psiqué já haviam desposado reis, a infeliz jovem, culpada de excesso de beleza, encontrava por toda parte adoradores, mas não marido.

— Onde está o príncipe encantado de nossa querida Psiqué? — diziam as duas, em tom de ironia, e loucas de inveja da bela irmã.


A beleza de Psiqué era tão profunda que os homens a adoravam como se fosse uma divindade, mas nenhum deles tinha coragem de tocá-la.

A rainha já começava a estranhar tudo aquilo.

— Senhor meu rei — disse ela, um dia — tenho uma preocupação a me apertar o peito.

O rei a olhou com o canto dos olhos, parecendo não se importar com o comentário da esposa. Mas ela continuou:

— Nossa filha Psiqué está se tornando muito bela e temo que isso possa ofender as deusas.

Desta vez o rei levantou a cabeça.

— Ora essa, mas que ideia! E o que tem de mais ser tão bonita?

A rainha, mais confiante com a atenção que o rei lhe dispensava, empertigou-se toda.

— Vejo que os homens veneram Psiqué com se ela fosse uma deusa. No entanto, nossa filha não tem atributos divinos, a não ser sua alma imortal. Mas se é bela, fomos nós que assim a fizemos e se é pura e meiga, só deve isto à educação que recebeu no palácio.

O rei concordou com a cabeça.

— Vejo que os seus temores têm fundamento, minha rainha. Se os homens veneram Psiqué como a uma divindade, certamente estarão atraindo a ira das deusas para todos nós. Nossa filha é apenas uma menina, o conhecimento que tem da vida é nenhum e ingenuamente aceita as homenagens que os homens lhe prestam. Creio que seria sábio de nossa parte consultar o Oráculo, para sabermos se os deuses estão contra nós.

O rei, finalmente preocupado diante do inexplicável desprezo que se abatera sobre a sua filha predileta, decidiu consultar o oráculo do deus Apolo para saber das razões. E partiram em viagem, para fazerem a consulta ao Oráculo de Apolo. A resposta foi assustadora.

— Sua filha não casará com um mortal — disse a pitonisa —, mas com um ser alado e perverso, que se compraz em ferir os homens e até mesmo os Imortais. A menina deve ser vestida com as roupas destinadas ao casamento e abandonada no alto de um rochedo, onde o ser monstruoso virá buscá-la para o seu palácio.

Essa terrível predição do oráculo encheu a todos de desânimo, a rainha desatou num pranto copioso, que nada consolava. As duas irmãs mais velhas de Psiqué, agarradas a seus maridos, lamentavam a sorte da caçula.

— Pobre Psiqué! Por ser humana e receber as honras de uma deusa, será destruída antes mesmo que desabroche para a vida!

— Por que se enraivecem os deuses, pelo fato de uma menina, que nem se desenvolveu ainda, receber as homenagens dos homens? Não terão as mortais este direito?

— Não blasfeme, irmã! Os deuses têm os se desígnios e a nós só cabe obedecer, pobre Psiqué.

Enfim, os pais da jovem entregaram-se ao desespero. Psiqué, porém, lhes disse:

— Por que me lamentam, queridos pais? Deveriam antes ter sofrido quando todos me cumulavam de honras indevidas e a uma voz me chamavam de Afrodite. Percebo agora que sou vítima daquele nome. Resigno-me. Levem-me ao rochedo a que me destinou meu desventurado destino.

O rei ficou inconsolável com esse prognóstico sombrio. Durante vários dias lutou contra a ideia de abandonar a amada filha a este ser monstruoso. Mesmo sentindo-se pesarosos pelo destino da filha, seus pais seguiram as instruções recebidas, pois temiam que poderia ser ainda pior desobedecer. A menina sofreria algum mal terrível e eles mesmos seriam punidos por alguma maldição. Após vários dias consagrados ao pranto e à tristeza, preparam a pompa do fúnebre himeneu.

O archote nupcial foi representado por archotes cor de fuligem e cinza. Os cantos jubilosos de himeneu se transformaram em uivos lúgubres, e a jovem noiva enxugava as lágrimas com o próprio véu nupcial. Uma vez terminado o cerimonial, o triste cortejo partiu em direção ao rochedo. Envolta em escuros véus, Psiqué foi atada à pedra e lá deixada sozinha, entregue à própria sorte, para aguardar o tenebroso esposo.

Aos poucos os archotes que haviam sido acesos foram se apagando um a um, enquanto a noite descia, escurecendo tudo ao redor da pobre vítima. Psiqué, apreensiva, aguardava apenas o momento de ser sacrificada, pois tinha a certeza de que era este o seu destino. O tempo foi passando sem que nada acontecesse, e Psiqué acabou adormecendo.

No Olimpo Eros observava a ferida causada por sua própria flecha. O sangue parara de correr há algum tempo, mas o veneno da paixão já chegara a seu coração. Perdido de amores por Psiqué, Eros chamou Zéfiross(Ζεφυρος), que passava, agitando a vegetação.

Zéfiross era o deus do vento oeste, juntamente com seus três irmãos Bóreas(Βορεας) o vento norte, Notos(Νοτος) o vento sul e Euros(Ευρος) o vento Leste eram os deuses dos quatro ventos direcionais, os Anemoi(Ανεμοι).

— Zéfiross — segredou Eros nos ouvidos do vento — retire minha amada do rochedo e transporte-a ao castelo dos sonhos. Lá a farei minha esposa.

O tempo foi passando sem que nada acontecesse, Psiqué continuava adormecida. Nesse instante, Zéfiross, o vento suave que sopra, vindo do oeste, surgiu no alto do rochedo e fez ondular dos dois lados a veste que protegia a jovem, cujas dobras se encheram invisivelmente, e carregou-a pelos ares com delicadeza, para não acordá-la. Ela, semi-adormecida, sentia o vento agitar suas vestes e as nuvens umedecerem o seu rosto enquanto era carregada. Aos poucos Zéfiross foi descendo com sua delicada carga, por um declive insensível e depositou-a no fundo de um vale, onde havia uma fonte de águas claras e abundantes, sobre a relva coalhada de flores.

Quando Psiqué despertou, a primeira coisa que seus olhos viram foi um paraíso florido, tal qual descrevia-se os Campos Elísios. Olhou em volta de si e percebeu uma fonte transparente como cristal, no meio de árvores altas e copadas. Aos poucos, a recordação da pena que lhe havia sido imposta veio à sua mente. Sem compreender o que tinha acontecido, levantou-se e perto das margens, erguia-se uma morada real não construída por mãos humanas, um castelo de ouro e mármore, que parecia saído de um sonho.

Viu seus muros recobertos de baixos-relevos de prata e os assoalhos de mosaico de pedras preciosas cortadas em mil pedacinhos e combinados em variadas pinturas. Maravilhada com a visão, percebeu que ali tudo era mágico... as portas se abriam para ela, parecendo que lá dentro ela já era aguardada. Vozes sussurravam sobre tudo o que ela precisava saber.

Caminhou por um jardim até chegar a magnífico castelo. O ambiente sombrio, mas tranqüilo logo lhe inspirou confiança. Psiqué criou ânimo a ponto de ultrapassar o limiar, e, cedendo à atração de tão grande número de maravilhas, a tudo observava. Uma brisa mansa às suas costas a impeliu para diante e logo adentrou a um salão majestoso, recoberto de mármores e de pedrarias.

— Há alguém aqui? — disse a moça, cuja voz ecoou pelas colunas de ouro. perdendo-se nos corredores amplos e vazios, era a solidão absoluta em que se encontrava.

Psiqué subiu lentamente os degraus de uma imensa escadaria de pórfiro, cujos corrimões eram da mais pura e esverdeada jade. Depois percorreu várias salas, repletas das mais belas estátuas que seus olhos já haviam contemplado. Todas, se exceção, representavam amantes nus, cujos braços enlaçavam os corpos dos seus seres amados.

Cada sala revelou-se mais bela do que a outra, até que a princesa, finalmente, chegou a quarto espaçoso, iluminado pela luz alegre de uma imponente lareira. Um leito perfeitamente arrumado estava no centro do quarto, enquanto uma refrescante brisa agitava as finíssimas cortinas rendadas das janelas.

Depois de conhecer todo aquele castelo maravilhoso e encantado, Psiqué pensou:

— De quem será este castelo? E por que é tão solitário?

Imediatamente, vinda de algum lugar ignorado, talvez de um corpo invisível, uma voz delicada soou em seus ouvidos, provocando-lhe um ligeiro susto:

— Por que, soberana, você se admira de tão grande opulência? Tudo o que vê neste palácio é seu. É o seu mundo interior. Entre nestes aposentos, nele a aguarda um banho, para refazer as forças, e o banquete real que é a você destinado não se fará esperar. Este não é um reino tão solitário quanto julga. Nós, cuja voz está ouvindo, estamos às suas ordens, e executaremos atentamente tudo o que nos ordenar ou pedir.

Psiqué olhou em volta, procurando quem falava. Não viu ninguém.

— Quem é você? — perguntou alto, e ouviu a própria voz repetir muitas vezes a mesma pergunta, tangida pelo poder da ninfa Eco.

E a Voz invisível respondeu, misturada ao som repetido e monótono do eco, e acompanhada por outras Vozes desconhecidas:

— Somos sua voz interna. Falaremos a você sempre que nos chamar.

Na parte interior do aposento havia uma peça para o banho. Psiqué adentrou-o e percebeu, maravilhada, que uma banheira de mármore cheia de espuma parecia aguardá-la.

— Permita que a ajude a se despir — disse a mesma voz invisível.

A moça sentiu que sua pequena túnica deslizava por sua pele, retirada por uma delicada mão invisível. Logo a jovem estava despida e mergulhada na água refrescante, sentindo que mãos invisíveis ensaboavam seu corpo.

Em seguida, após ficar alguns minutos sozinha, quando tudo permanecia em silêncio, secou-se e vestiu uma túnica nova, que lhe foi preparada por alguém que ela não conseguia ver. Então, desceu ao salão principal, onde a esperava um banquete digno de uma rainha.

Sentou-se, então, à mesa, e diante dela se sucediam os vinhos mais deliciosos, as iguarias mais incomuns, mas aparentemente trazidas por um sopro, pois não distinguia nenhum ser visível. Um delicioso concerto a alegrou, mas os cantores não lhe apareciam. Admirada, e ao mesmo tempo assustada, pensando no esposo que aguardava, cedeu, no entanto, à fadiga recolheu-se definitivamente ao seu quarto, sem que nada ou ninguém lhe perturbasse o repouso, embora sempre sozinha.

Quando chegou a Noite, deitada em seus aposentos, despertou e ouvindo as mesmas vozes misteriosas, que antes recebeu os mesmos cuidados de seres que não conseguia distinguir.

— Quem é você e por que nunca aparece? — disse a jovem.

A voz, no entanto, não respondia a nenhuma de suas perguntas. Ainda exausta dos acontecimentos, a jovem deitou-se em seu magnífico leito e adormeceu...

No Olimpo, Eros esperava que Hélios(Ἥλιος) guardasse sua carruagem de fogo nas estrebarias da noite. De longe, via o castelo que abrigava sua amada. Aflito, louco para tocá-la, aguardava a escuridão para partir ao seu encontro.

— Psiqué, amada Psiqué — pensava ele — como desejo tê-la em meus braços. Mas sei, meu amor, que não poderá saber quem eu sou. Sou Eros, o Amor, mas também sou o desejo de Amar e os homens — ah, os homens! — já me acusam de corruptor da moral e causador de escândalos. Você é pura, é menina e é ingênua, não pode ainda saber quem sou, ou o peso das calúnias que os homens já lançaram sobre meu nome na certa esmagariam seu puro amor por mim. Talvez um dia, amada, cresça e se torne suficientemente esclarecida para compreender que sou apenas Eros, o Amor, e não o monstro de maldades, o destruidor de lares, o corruptor da moral. Sim, minha Psiqué, sou somente Eros, o Deus do Amor.

Vários dias transcorreram sem que lhe fosse dado ver alma viva. Se o esposo invisível a visitou, foi com certeza quando ela estava adormecida, pois nada havia visto, e o amo do palácio em que estava era tão desconhecido como os criados que a serviam.

A escuridão desceu sobre o castelo dos sonhos. Selene(Σελήνη), a lua, muito fina e encurvada, não emitia luz suficiente para clarear o quarto de Psiqué. Tudo era noite.Tão logo teve a certeza de que sua amada dormia, Eros se aproximou discretamente e deitou-se a seu lado. Ficou longo tempo observando suas feições. Depois, deu um beijo na testa da jovem, que despertou, assustada.

Foi quando uma borboleta, de repente, começou a esvoaçar sobre a sua cabeça, ela subtamente sentou-se num cabeço de relva; o seu aspecto ingênuo e algo espantado se explicou pela presença do seu noivo que, invisível para ela, lhe deu um beijo na testa. Então, percebeu ao seu lado a presença de alguém que só poderia ser o seu esposo predestinado pelo Oráculo.

— Quem está aqui? — disse ela ao sentir uma presença em seu quarto. Uma presença real, silenciosa. Não eram as Vozes prestes a falar. Era algo físico, que tocava sua aura com uma energia intensa.

E, em resposta, recebeu um beijo nos lábios. Ela, assustada, recuou um pouco, e a voz soou novamente:

— Não se assuste, meu amor! — disse o jovem, cobrindo-a de ardentes carícias.

E uma brisa leve começou a soprar. Então, dois braços fortes a ergueram do chão, como se fosse o próprio Vento, e levou-a para a cama daquele aposento. Chegava a Noite, e Psiqué foi delicadamente depositada sobre o leito. Psiqué fechou os olhos e sentiu o tocar carinhoso de seu noivo secreto.

O movimento do corpo em seu leito deslocou as cobertas. Psiqué estendeu a mão para puxar novamente a manta e tocou em um corpo nu e morno. Não se assustou. O contato da pele na pele trouxe uma sensação de doce integração. Não se surpreendeu quando mãos que não via a despiram de suas vestes sutilmente acariciando todo o seu corpo, deixando-a extasiada ao prazer. Nem quando aquele corpo tão real, mas escondido pela escuridão, pesou sobre o seu.

Durante a noite inteira, os dois entregaram-se ao Amor. Psiqué deixou-se envolver por cálida ternura, sem nunca poder ver as formas de seu amado, que despertava em seu ser energias e sensações até então desconhecidas. A jovem princesa procurava enxergar com as mãos, deslizando seus dedos pelo rosto e pelo corpo inteiro daquele ser desconhecido, que fazia o mesmo como se também a procurasse, só com a diferença de que podia vê-la perfeitamente. Mas Eros o fazia com tal ardor que o cego parecia ele. Até que ao amanhecer ambos adormeceram unidos num mesmo abraço.

Aos primeiros raios de Hélios, Eros falou:

— Psiqué, minha adorada, vou partir agora, mas voltarei com a escuridão. Voltarei sempre, mas não tente jamais saber quem sou, ou me afastarei para nunca mais voltar.

E Psiqué passava seus dias em contato com as Vozes, cada vez mais intensas e esclarecedoras, e à noite recebia a visita de seu amado que fazia nascer em sua alma, junto com um terno amor, a atração pelo Belo, pela natureza e pelo Infinito. Psiqué se sentia completa. Mas sua juventude inexperiente não permitia que conhecesse a real natureza daquela completude.

Os dias se passaram, e Psiqué era visitada com freqüência todas as noites, embora o esposo nunca se manifestasse de forma visível, não deixava nunca de satisfazê-la. A jovem foi aos poucos se familiarizando com todo o esplendor do castelo e, passada a novidade, começou a sentir-se sozinha. Um dia, já quase amanhecia, Psiqué voltou-se para o vulto de seu amante, ainda em seu leito, e disse:

— Meu marido, por que não vem me fazer companhia? — clamava ela, desesperada — Como posso amar um ser invisível?

Psiqué não ouvia resposta alguma, mas esperou, porque sentia que alguém a acompanhava. Até que ouviu a voz novamente:

— Minha visão lhe seria funesta, adorada Psiqué. Eu poderia feri-la e provocar em você sofrimentos como nunca antes talvez tenha experimentado.

— Que me importa? Que mal me faria? Se for uma criatura terrível, eu aprenderei a amar-lo da mesma forma.

E Psiqué não obteve resposta imediata. No entanto, ele, invisível, a advertiu:

— Psiqué, minha doce amiga, minha companheira adorada, a Sorte cruel a ameaça de um terrível perigo; suas irmãs, já turbadas com a ideia da sua morte, procuram-na, e não tardarão em encontrá-la.

— Minhas irmãs?

— Não se comova com os seus falsos queixumes, e não se deixe ceder aos perniciosos conselhos que elas lhe derem para levar-la a me ver. A sacrílega Curiosidade nos há de separar para sempre e há de te mergulhar num abismo de males.

Psiqué concordou. Aliás, o tom daquela voz era tão penetrante que se sentia atraída a ele por uma força desconhecida. Assim, prometeu-lhe que obedeceria.

E assim foram seus dias, ela tinha tudo que desejava, era feliz, muito feliz, porque seu marido, na escuridão da Noite, lhe trazia uma sensação do mais profundo amor e lhe era extremamente carinhoso.

Entretanto, Psiqué, lembrando-se do Oráculo de Apolo, tremia de espanto, pensando que, apesar da voz tão doce, fosse o esposo sem dúvida um horrível monstro, visto que o temiam homens e deuses.

Com o passar do tempo, porém, ela começou a sentir saudades de seus pais.

— Tenho saudades de meus pais e também de minhas irmãs — disse a jovem. — Gostaria imensamente de poder revê-los. Provavelmente não sabem que estou viva e feliz e devem chorar com grandes penas a triste sorte que julgam que tive. Por favor, deixe-me vê-los e consolá-los!

Eros estremeceu e se sentou no leito.

— Nunca! Seria perigoso para você o contato com o mundo exterior! Lembra-se do que disse sobre as suas irmãs?

— Mas, amor — insistiu Psiqué — sinto que em breve enlouquecerei de angústia se não entrar em contato com minha família. Este castelo de sonhos é maravilhoso e é meu verdadeiro reino. Mas tenho obrigações a cumprir no mundo de onde vim, e uma delas é tranquilizar o coração dos meus familiares. Não posso ser feliz aqui, sabendo que choram por mim.

O noivo invisível calou-se, porque seria a última coisa que poderia desejar de sua amada. Ele relutou, os Oráculos advertiam de que esta viagem traria péssimas conseqüências, Eros, sem outros argumentos prometeu pensar no pedido, enquanto deixava Psiqué entregue outra vez à sua cruel solidão.

Na mesma noite, o amante invisível retornou com uma boa notícia:

— Psiqué, estou disposto a permitir que suas irmãs venham visitá-la.

Radiante de alegria, ela abraçou o vazio.

— Obrigada, meu querido esposo!

Porém, temeroso de perder sua adorada Psiqué, Eros acrescentou:

— Tome, entretanto, muito cuidado com suas irmãs. Elas certamente ficarão tomadas pela inveja quando virem que você é senhora deste magnífico palácio, de todas as riquezas que ele contém e de tanta servidão. Visite seus pais, conforta-os e dá-lhes boas notícias. Tenho certeza que voltarás.

Assim sendo Eros pediu a Zéfiross que levasse sua amante à casa de seus pais. Psiqué foi recebida com muita alegria e levou muitos presentes para todos. E as irmãs, ao ouvirem as narrações da feliz princesa, mal acreditavam que a irmã estivesse ali, ante seus olhos, feliz e cheia de vida, logo se encheram de inveja e começaram a crivá-la de perguntas:

— Psiqué, minha doce irmãzinha! Quanta alegria em vê-la novamente! Nossos pais quase morreram de felicidade, quando souberam que você está bem.

Ainda sob o impacto daqueles presentes surpreendentes, as duas irmãs comentaram.

— Isto tudo é seu? — disse uma delas, sem conseguir conter a inveja.

Embora vivesse também num palácio, um rancor surdo agitava também a alma da outra irmã.

— E seu maravilhoso esposo, onde está? Ele é mesmo tão rico como descreves? Ele é mesmo um ser monstruoso?— quis saber a outra, na esperança de que fosse mesmo um ser horroroso, tal como predissera o oráculo de Apolo.

Psiqué fez o que pôde para explicar sua vida no castelo. Conversou, desconversou, deu presentes caros às irmãs e por fim Psiqué respondeu com dúvidas:

— Bem... na verdade... jamais pus os olhos nele, nem em qualquer pessoa viva desde que cheguei naquele lugar encantado. Mas eu prometo que estou muito feliz...

As irmãs retornaram cheias de curiosidade. No íntimo, sabiam que Psiqué não dissera tudo. Como viveria, na verdade, a irmã? Entreolhavam-se, caladas, mas seus olhares já haviam firmado um pacto mútuo: haveriam de descobrir a verdade.

Psiqué, toda contente, contou a Eros como se saíra bem com as respostas que dera às perguntas das irmãs.

Algum tempo depois, a saudade do mundo exterior voltou a inquietar o coração de Psiqué e ela pediu ao jovem deus que trouxesse suas irmãs para vê-la. Eros franziu o cenho, preocupado, e falou, em meio à escuridão:

— Não posso negar-lhe este pedido, Psiqué. Mas advirto-a de que está prestes a cair numa cilada. Muito cuidado, pois suas irmãs são mais espertas do que você!

— Não fale assim, meu amor. Nada conseguirá me afastar de você.

As irmãs vieram trazidas por Zéfiros. Mas, desta vez, resolvidas a descobrir tudo sobre a misteriosa vida de Psiqué. E tanto fizeram, tanto pediram, tanto mentiram, que a menina acabou lhes contando sobre as Vozes de seu castelo.

— Você ficou louca, irmãzinha? — exclamou uma delas. — Ouvindo Vozes invisíveis e entregando-se a um fantasma!

— Ele não é um fantasma! É bem real, terno, meigo e adorável!

Elas soltaram uma risada cheia de sarcasmo.

— Terno, meigo e adorável? — repetiu a outra — Como pode garantir que não seja horrível e repelente?

— E assistida por Vozes invisíveis? Na certa enlouqueceu, Psiqué! — acrescentou a primeira, cheia de veneno.

— Logo vi! — disse a outra , em triunfo. — Deve ser tão monstruoso que não tem coragem de aparecer abertamente.

— Psiqué, se o seu marido é um monstro — concluiu a primeira, radiante — cedo ou tarde irá matá-la.

Psiqué, assustada, olhava as irmãs sem mais nada dizer.

— Lembre-se, Psiqué — continuou a irmã — que o Oráculo disse que teria que ser dada em casamento a um ser monstruoso. Como sabe se não é ele o seu adorável amante? E se for, na certa irá devorá-la, depois que seu amor não mais o saciar.

Chegaram-se bem perto de Psiqué e disseram quase ao mesmo tempo:

— Você precisa ver o rosto do seu esposo. É importante, Psiqué, que conheça aquele que a toca todas as noites.

A jovem, atordoada por aqueles sombrios prognósticos, encheu-se de medo de seu enigmático esposo.
Uma das irmãs correu até a cozinha e ao voltar lhe estendeu uma faca afiada, ordenando:

— Você deve matá-lo.

— Matá-lo? Não... — indagou Psiqué, atônita.

— Mate-o, antes que ele o faça. — disse a invejosa. — Hoje à noite, preste atenção, você fará o seguinte: assim que deitar, esteja atenta para quando ele vier unir-se a você. Tão logo sinta que ele adormeceu, levante-se e acenda uma vela, iluminando a sua figura, a fim de ver quem é verdadeiramente o seu marido.

— Esteja, porém, nesse instante, com a faca na mão — disse a segunda irmã. cujos olhos faiscavam. — Assim que perceber que tem um monstro odioso a seu lado, trespasse seu coração com a lâmina, sem pensar duas vezes.

— Mas...

— Psiqué... pensa.

Psiqué, julgando que o conselho era ditado pela amizade, resolveu finalmente decifrar o mistério.

Psiqué parou para pensar, e as vozes enlouquecidas de suas irmãs lhe enchiam os pensamentos. Afinal, ela mesma não entendia as reações misteriosas de seu marido, que evitava se dar a conhecer. Pensava no conselho de suas irmãs, que, mesmo violentos, não deixavam de ser audíveis, já que as previsões do Oráculo se faziam verdadeiras. Evidentemente que as intenções delas eram apenas de prejudicar Psiqué, já que ela havia feito uma promessa a ele.

— Está bem, farei exatamente como dizem.

Naquele dia, quando as irmãs partiram, deixaram Psiqué convencida de que devia mesmo conhecer o rosto de seu misterioso amante. Seria ele um monstro, como disseram as irmãs? Ao voltar para sua casa, a Curiosidade tomou conta de seu coração. Tão logo veio a Noite, ela esperou que ele adormecesse e assim, em silêncio, abriu os olhos, levantou-se e foi acender uma vela para poder vê-lo. Em seguida, retirou debaixo do travesseiro, a adaga maldita.

Então, fez a volta no leito e, aproximando-se, dirigiu a luz em direção do vulto estendido. No entanto, uma exclamação mal contida de espanto escapou de seus lábios ao se deparar com a tão linda figura de Eros, e ela se perdeu em sonhos e ficou ali, embevecida, admirando-o. Era um ser alado, maravilhoso, de beleza inexplicável. O deus se mexeu no leito e Psiqué recuou bruscamente, ferindo-se numa das flechas que saíam pela boca da aljava.

— Por Zeus, como é belo! — exclamou extasiada.

Porém, ao tentar ver melhor as feições de seu amado esposo. Psiqué inclinou demais e, na distração, esqueceu-se da vela que tinha nas mãos. E um pingo de cera caiu sobre o peito de Eros, seu marido oculto, fazendo-o acordar com a dor. Eros, abrindo os olhos, viu que seu segredo havia sido descoberto e, enxergou a jovem, que empunhava numa das mãos uma vela queimando e na outra a adaga afiada para ele preparada. Levantando-se, o deus exclamou:

— Então é isto! Você preferiu seguir os conselhos maldosos de suas pérfidas irmãs, em vez de confiar em minhas palavras!

Psiqué lançou fora a adaga e mal sabia o que dizer:

— Não, não, jamais pretendi fazer-lhe mal algum.

— É tola, Psiqué, não é assim que deves retribuir ao meu amor. Depois de haver desobedecido às ordens de minha mãe e te tornado minha esposa, você me julgava um monstro e estavas disposta a cortar minha cabeça. Vá. Volte para junto de suas irmãs, cujos conselhos você parece preferir aos meus. Não a imponho outro castigo, além de deixar-la para sempre. O Amor não pode conviver com a Desconfiança.

Sentido com a quebra da promessa da esposa, Eros partiu, fazendo cumprir a sentença do Oráculo. Ela lhe estendeu o braço em sinal de súplica, sendo deixada inconsolável, ferida pela flecha e louca de amor, Alucinada, Psiqué chamou as Vozes. Somente uma delas respondeu:

— O amor tocou seu coração, mas você não tinha consciência disso, Vivia feliz sem saber o tamanho de sua felicidade. Ouviu as vozes do exterior e acreditou nelas. Eros é adorável, Psiqué, ele é um deus. E, por ser deus, é sábio, e por isso não quis nunca que visse a sua face. A face do Amor só pode ser conhecida pelos olhos da alma. Os olhos físicos o vêem a maneira como foi descrito por suas irmãs: um monstro de maldades, um causador de escândalos, um corruptor de costumes.

Psiqué caiu desconsolada na cama e mergulhou o rosto nas mãos, desesperada. Quando ergueu a cabeça, percebeu estarrecida que estava deitada sobre a grama verde dos campos. Ao seu redor não havia nem sinal mais do seu maravilhoso castelo.

— O que foi feito de meu palácio? — exclamou Psiqué, sem nada entender.

Relanceando o olhar ao redor, percebeu que estava a pouca distância da casa de seus pais.

Fonte: Olimpo - A Saga dos Deuses
Emmanuel Mourão - Mitologia grega ao alcance de todos.

Foto: Genzoman
Mitologia - OpenBrasil.org

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