MITOLOGIA

Quando a curiosidade mata, Herse, Pândrosa e Agraulos



Athena(Ἀθάνα) vinha embalando o infante dentro de sua canastra, um cesto redondo de vime, e pôs-se a cantar para adormecê-lo enquanto se dirigia a Atenas. A mesma lembrava-se ainda do velho rei e de suas filhas.

O primeiro rei de Atenas, Acteu(Ακταιος), que foi eleito pelo povo. Sua filha, Agraulos(Άγραυλος), casou-se com Cécrope(Κέκροπας) e lhe deu três filhas: Pândrose(Πάνδροσος), Herse(Έρση) e Agraulos, do mesmo nome da mãe. A casa do imperador, já havia tido relações com os deuses, pois uma de suas filhas já havia se envolvido com ningúem menos do que o deus da guerra Ares(Ἄρης).

Estavam as três irmãs brincando longe do castelo, quando foram vistas por Ares, que logo se enamorou de Agraulos. Como o deus da guerra estava ha algum tempo sozinho, vislumbrou ali a possibilidade, sendo assim, atraiu-a com seus encantos de deus e deu-lhe uma filha, Alcipe.

Apesar de todo o seu bom coração, Athena não conseguia livrar-se de suas preocupações guerreiras, e, estando a galgas a Acrópole levando o cesto, notou que a sua cidade não estava bastante fortificada do lado ocidental. Por isso, entrou na casa do senhor Cécrope e foi recebida festivamente pelas três irmãs, Agraulos, Herse e Pândrose.

— Fazemos questão que repouse em nossa casa — disseram. — Parece tão cansada!

Athena aceitou o convite, aliviada. Realmente aquela caminhada carregando a canastra que continha Erictônio(Ἐριχθόνιος) e a serpente, não fora das mais fáceis. Seria bom descansar um pouco e depois prosseguir na procura de um lugar seguro onde deixar a criança. As irmãs não despregavam os olhos do cesto lacrado.

— Que haverá aí dentro? — perguntou Herse, num sussurro.

— Ouvi dizer que Athena veio da forja de Hefesto(Ἥφαιστος) — respondeu Pâdrose, com ares cobiçosos.

— Na certa trouxe belas jóias. Quem sabe nos presenteará com algumas, como pagamento de nossa hospitalidade?

— Não sejam tão curiosas — respondeu Agraulos, espiando para ver se Athena as escutava. — Curiosidade em excesso nunca acabou bem.

Calaram-se ao ouvirem os passos de Athena, que se aproximava.

— Minhas amigas, — disse a deusa — agradeço tanta gentileza e vou tentar fortificar o lado ocidental da cidade. Peço que cuidem bem deste cofre, mas não permito que vejam o que ele contém.

E disse a Agraulos, olhando fixamente em seus olhos:

— Tome conta deste cesto para mim. Não diga a ninguém que eu o entreguei e, aconteça o que acontecer, não deve abri-lo. Se abrir, a quaisquer uma de vocês, um grande mal perseguirá para sempre!

— Não se preocupe, deusa — respondeu prontamente Agraulos. — Ninguém abrirá esta arca.

A intenção de Athena era evitar que alguém soubesse que iria criar o filho de outra mulher. E acrescentou:

— Virei buscá-lo antes da Noite chegar.

Imediatamente, sem mais detalhes, partiu em busca de uma montanha que julgava necessária para a fortificação da cidade.

Herse e Pândrose não conseguiam conter sua curiosidade. E, num momento em que Agraulos se retirou, abriram a canastra. Mal haviam erguido a tampa, uma serpente saiu debaixo dos lençóis e ergueu-se ameaçadora. A simples visão do réptil foi suficiente para aterrorizar Herse e Pândrose, que gritaram, assustadas, ao verem a criança e a enorme serpente.

Uma gralha, alva como a neve, que tudo vira, foi contar o fato a Athena, que já segurava a montanha entre os braços, no meio da cidade, e que muito surpresa, deixou-a cair ao chão, originando o monte de nome Licábetos. Athena correu até a criança e logo viu que tinha sido desobedecida. Uma fúria incontida escapou de seus olhos e alcançou as duas irmãs, ferindo-as com a loucura. Gritando sempre, correram alucinadas e desorientadas e acabaram despencando da Acrópole, indo morrer esmagadas nas rochas do abismo. A deusa então pegando a criança nos braços, levou-a até seu templo e ali pessoalmente passou a criá-la. E a serpente seguiu-a.

O susto de Athena fez a gralha branca mudar de cor, tornando-se negra, e assim ficaram todas as gralhas depois dela. E nunca mais essas aves voltaram a habitar a Acrópole. Ao invés, as corujas passaram a merecer a simpatia dos atenienses, e seus grandes olhos passaram a simbolizar a sabedoria e a reflexão.

Quanto a Agraulos, a deusa concebeu um afeto muito especial e então pronunciou-se:

— Minha querida, que soube acatar minha vontade, entrego a você Erictônio. Cuide dele e transforme-o num rei.

Agraulos recebeu o menino com alegria e deu a ele a educação digna de um príncipe. Tinha saudade de Pândrose, mas Herse não deixara nenhuma recordação doce em seu coração...

Fonte: Olimpo - A Saga dos Deuses
Emmanuel Mourão - Mitologia grega ao alcance de todos.

Foto: Genzoman
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