MITOLOGIA

Tirésias - O vidente divino


Logo Dionísio(Διονυσος) aprendeu a observar o mundo, debruçando-se também nas beiradas de pedra que se projetavam acima do imenso abismo que se estendia abaixo do Olimpo. E foi de lá que reparou em Agave(Αγαυη), filha do rei Cadmos(Κάδμος) de Tebas, irmã de Sêmele(Σεμέλη). Agave era casada com Equíon, um dos cinco Spartoi, ou seja, dos guerreiros que ficaram, daqueles metamorforseados dos dentes do dragão que Cadmos destruíra. Dessa união nasceu Penteu(Πενθεύς).

Dionísio, de seu posto de observação, logo percebeu que Agave inventara uma história maldosa a respeito de sua irmã, Sêmele. Dizia a todos que Sêmele fora fulminada por Zeus(Ζεύς), por lhe ter atribuído mentirosamente a paternidade do filho que ia ter, certamente gerado por um simples mortal.

— Não posso admitir tal calúnia! — exclamou Dionísio — Sêmele foi minha mãe por pouco tempo e foi fulminada justamente por carregar no ventre um filho de Zeus. O ciúme de Hera(Ἥρα) foi implacável.

Athena(Ἀθάνα), que se aproximara a tempo de escutar seu desabafo, não pôde deixar de comentar:

— Tem razão, Dionísio, Agave está sujando a memória de Sêmele.

Dionísio não pensou duas vezes. Voltou-se para Athena, colocou a mão em seu ombro e pediu:

— Avise a meu pai que volto a Tebas. Não posso permitir que aquela criatura maldosa macule a memória daquela que tanto contribuiu para meu nascimento.

Algum tempo depois Dionísio já se encontrava na terra em que fora gerado.

— Aqui estou, finalmente, na terra dos cádmios, eu, Dionisio, gerado por Sêmele, após ser visitada pelo fogo dos raios; deixei a forma divina por outra mortal e venho visitar a fonte de Dirce e as águas de Ismenos. Vejo perto do palácio o túmulo de minha mãe atingida pelo raio, e as ruínas fumegantes de sua morada, e a chama celeste ainda viva, eterna vingança de Hera contra minha mãe. Aprovo a piedade de Cadmos, que, tornando este lugar inacessível aos pés dos profanos, o consagrou à filha; e eu o sombreei por toda parte de pâmpanos verdejantes. Deixei os vales da Lídia, onde abunda o ouro, e os campos dos frígios; atravessei as planícies ardentes da Pérsia e as cidades da Bactriana, a Média coberta de pedras e a feliz Arábia, e a Ásia inteira, cujo mal salgado banha as margens cobertas de cidades florescentes, povoadas simultaneamente pelos filhos de Helenos e pelos bárbaros, e é esta é a primeira das cidades deste país em que entrei após ter conduzido de um lado para outro as danças sagradas e celebrado os meus mistérios, para manifestar a minha divindade aos homens. Ó Tebas, a Cadméia dos meus ancestrais, é a primeira em que faço ouvir os brados das Mênades cobertas de nébrida e armadas do tirso envolto em hera.

Com isso, Dionisio passo a ser chamado de Tebano.

À medida que o culto de Dionisio espalhava-se pela Helade, ocorria com muito entusiasmo e pouca resistência, salvo em Tebas, onde Penteu, a segunda filha de Cadmos, recusava-se a aceitá-lo. Vindo acalorado das cercanias de Tebas, chegou ao palácio do jovem rei Penteu, o “homem da desgraça”, um mensageiro para narrar o que ele mesmo presenciara nas suas andanças pelo monte Citéron, a elevação maior próxima à cidade.

Penteu, de fato, era primo-irmão de Dionisio e alinhava-se com os partidários que negavam a ele qualquer vestígio de divindade, acusando-o de nada mais do que um bastardo condenado pela deusa Hera, a esposa de Zeus, a vagar sem destino pelo mundo, arrumando encrencas por onde passava.

A característica principal do culto de Dionisio era a formação de grupos de mulheres, as Mênades; vagavam por dias a fio pelas áreas das montanhas, num transe ou frenesi, bebendo vinho, alimentando filhotes de animais, ou despedaçando-os e comendo-os, encantando serpentes e de uma maneira geral se portando de maneira selvagem. Devido a estes aspectos semelhantes a orgias e também pelos principais seguidores serem mulheres, a adoração de Dionisio, que já era honrado como deus, era vista com desconfiança pelas autoridades masculinas, que gostavam de manter as mulheres em casa e sob o seu controle.

Penteu, que recentemente herdara o trono de Cadmos, seu avô, foi avisado da chegada de Dionísio e seu culto.

— O que vem ele fazer em meu reino? Com certeza pensa em levar nossas mulheres às práticas libidinosas, regadas de vinho e cheias de prazeres sensuais. Não vou permitir que entre em minha cidade!

Seu avô, Cadmos, prontamente o advertiu:

— Não faça isso, Penteu. Cedi meu trono a você, pois me sinto velho e cansado.

Sempre o julguei inteligente e ponderado. Não seja insensato, atraindo sem necessidade a ira dos deuses para Tebas.

Mas Penteu não ouviu os argumentos do avô.

— Nunca poderei permitir o culto violento que Dionísio implanta em todos os lugares por onde chega. As mulheres de Tebas são recatadas e dedicadas ao lar. Não posso deixar que se embriaguem e que se entreguem às loucas Bacantes, que sempre acompanham o deus do êxtase e do entusiasmo.

Vendo que não conseguia demover Penteu da idéia de impedir a chegada de Dionísio a Tebas, Cadmos convocou a presença do adivinho Tirésias, profeta de Apolo(Ἀπόλλων), em cuja palavra todos acreditavam. Depois do consultado, Tirésias quedou-se pensativo, enquanto procurava a resposta na escuridão em que a cegueira o condenara a viver para sempre.

— Não bloqueie o caminho de Dionísio — disse o adivinho, com sua voz suave e firme. — Os passos dos deuses jamais devem ser retardados pelo homem, ou sua vingança poderá ser impiedosa.

Mas nem as palavras de Tirésias fizeram Penteu mudar de idéia. Cadmos, de longe, contemplou a figura altiva do adivinho.

— Ele nunca erra em suas previsões — pensou. — Penteu certamente irá se arrepender de tanta teimosia. Tirésias é infalível. Nunca soube que falhasse, desde que Athena lhe deu o dom da profecia.

E era verdade. Tirésias acertava sempre... Mas não nascera com aquele dom.

Tirésias era um jovem filho de Éveres (ευηρης), um dos Spartói de Tebas, e de uma ninfa chamada Cáriclo (Χαρικλώ). Sua mãe, era a preferida de Atena. Juntas, caçavam e corriam pelos bosques, brincando com a natureza.

Tirésias, ainda adolescente, espiava, escondido entre os arbustos e arregalava os olhos, espantado, quando via sua mãe subir à carruagem de Atena, atrelada por fogosos cavalos, privilégio concedido somente aos deuses. Admirava os animais magníficos e lamentava que eles ainda não tivessem sido concedidos aos homens. E, quando as moças se abraçavam e se acariciavam, uma agradável excitação aquecia seus sentidos e suas mãos exploravam seu próprio corpo, despertando um prazer até então desconhecido. E já perto do orgasmo, deixava sua imaginação correr solta e se via colado à deusa, amando-a com paixão.

Certo dia, no silêncio do meio-dia, Tirésias, passando pela fonte de Hipocrene, no Hélicon, pensou em refrescar-se e beber um pouco de água, quando viu a deusa Athena dirigir-se ao lago, para seu banho matinal. Perseguiu a deusa com o olhar sôfrego e escondeu-se entre as plantas mais altas, procurando não perder nem um dos seus movimentos lânguidos. Atena despiu-se lentamente. Empurrou as sandálias com a ponta dos pés descalços e amontoou sobre elas o cinto de couro e a túnica branca. O esplendor do corpo nu fez Tirésias vibrar de emoção. Acariciou o sexo intumescido devagar, deixando que a paixão fosse chegando numa onda quente. Houve um momento em que fechou os olhos e não viu que Atena, pressentindo sua presença, chegou-se pé ante pé e abriu com um gesto decidido as folhagens que o ocultavam.

— Como ousa cobiçar-me com os olhos? — exclamou, vermelha de vergonha e indignação, a deusa virgem.

Tirésias estremeceu de susto e fitou-a, apavorado, sem conseguir evitar que o clímax chegasse, trazendo um violento espasmo ao corpo paralisado pelo pavor. Pensou em fugir, mas as pernas não obedeceram ao comando da mente. E a última coisa que viu foi a mão vingadora de Atena apontar pra seus olhos. Depois, a escuridão.

Sua mãe encontrou-o desfalecido à beira do lago. Molhou sua fronte e apertou-o contra o peito. Aos poucos, o rapaz foi recobrando a consciência e seu olhar vagou, perdido na noite negra em que mergulhara para sempre.

— Mãe, onde está você?

Cáriclo gritou, quando os olhos sem brilho do filho passaram por seu rosto e foram procurá-la em algum lugar mais adiante.

— Mãe, estou cego! — gemeu o rapaz, enquanto esfregava com as mãos os olhos mortos, procurando arrancar deles a venda invisível. — Estou cego!

A ninfa Cáriclo, mãe de Tirésias, não se conformou com a desgraça de seu filho. Foi em busca de Athena para queixar-se a ela e lhe pedir piedade, transtornada pela dor.

— Perdoe meu filho, Athena! Ele não teve a intenção de ofendê-la. Foi o ardor da juventude que despertou diante de sua beleza! Tenha pena dele, deusa! Tirésias só a viu porque estavas diante de seus olhos. Eu sou sua servidora mais dedicada, e meu pobre filho merece o seu perdão.

As palavras da ninfa tocaram o divino coração de Athena, que se comoveu com o pranto da amiga. Então, a deusa foi procurá-lo,encontrando-o humilhado e tateante, e ficou com pena e quis fazê-lo enxergar novamente. Mas não foi possível. A luz de seus olhos jovens havia desaparecido para sempre.

— Tirésias — disse a deusa — eu o perdoo. Como não posso devolver sua visão e para compensar o mal que lhe causei, tornando-o menos infeliz, a pedido de sua mãe Clárico, que é minha amiga íntima, vou lhe conceder três dádivas.

Tocou a fronte do rapaz com os dedos unidos e ele sentiu um leve choque correr por todo o seu crânio.

— Como primeiro presente, eu lhe concedo o dom da profecia.

Pegou um bastão feito do galho forte de uma árvore e colocou-o nas mãos de Tirésias.

— Este bastão será os seus olhos. Tudo o que tocar com ele se transformará em imagem em sua tela mental, assim com este poder poderá guiá-lo tão bem como se pudesse enxergar.

Em seguida, tocou levemente em seus ouvidos.

— E poderá compreender todas as línguas, inclusive a dos pássaros.

E Tirésias se refugiou na mata, procurando habituar-se à escuridão de sua cegueira e aos dons que recebera de Atena.

Sua capacidade de profetizar logo se tornou conhecida dos homens, que o procuravam para conhecer aquilo que se escondia nas esquinas do futuro. E ele acertava sempre.

Um dia, quando passeava pelas florestas do monte Citéron, ouviu um estalar no mato a seus pés. Com o bastão explorou o terreno e sentiu que tocava em algo macio.

Esperou que as imagens se formassem em sua mente e viu duas serpentes que se acasalavam. Com horror, lembrou-se do castigo que lhe foi imposto por Atena, por ter ousado amá-la. Imediatamente separou as serpentes com a ponta do bastão e matou a fêmea. Hera, que a tudo assistia não ficou satisfeita.

— Parece-me que continuas cego Tirésias...— E apontou o dedo vingador ao desafortunado.

No mesmo momento, uma estranha eletricidade correu por seu corpo. Pensou que ia morrer. Dobrou-se em convulsões e caiu inconsciente. Quando voltou a si, percebeu algo estranho em seu corpo. Apalpou-se e as formas que seu tato lhe mostrou eram femininas. Tirésias foi metamorfoseado em perfeita donzela. E assim haveria de permanecer durante sete anos..

Passada a surpresa do primeiro instante, Tirésias sorriu. Mulher, como sua deusa. Mulher, que não seria castigada por amar. Mulher, como sua mãe, que recebia as carícias de Atena e não seu ódio e sua vingança. Tateando com seu bastão, foi procurar Atena, mas ela não o recebeu. Nem ao menos teve curiosidade de conhecer sua forma feminina.

Nesse meio tempo, foi desejada e seduzida por Apolo, e a jovem cedeu, e em troca o deus lhe ensinou música. Mas a moça se negou a continuar se entregando a ele.

Triste e desapontado, Tirésias voltou à floresta. Andou sem rumo durante muito tempo. Teve sede e parou para beber num riacho que passava, cantando. Depois deitou e dormiu. Acordou com um toque gelado no rosto. Procurou com as mãos e achou a cabeça anelada de um animal. Ouviu uma risada, um pouco distante.

— Minha ovelha a despertou, moça? — perguntou uma voz alegre.

Tirésias passeou os olhos apagados pelo local de onde viera a voz. Ouviu passos que se aproximavam.

— Moça, — disse a voz, agora bem perto — o que houve com seus olhos? Não pode me ver?

Tirésias fez que não com a cabeça e estendeu o bastão.

— Deixe-me tocá-lo com meu bastão. Assim poderei conhecê-lo melhor.

Sentiu o bastão tocar o corpo do pastor e esperou as imagens mentais. Elas chegaram, mostrando um rapaz moreno, de cabelos lisos e caídos sobre os ombros fortes. Sorria, deixando ver os dentes muito alvos.

— Posso ajudá-la? — perguntou ele — Nunca a vi por aqui antes. Perdeu-se e não encontra o caminho de volta?

Um tremor nos lábios ensaiou um sorriso nos lábios de Tirésias.

— Não, pastor, eu não me perdi pelo caminho. Apenas penso que rumo devo seguir agora.

O rapaz segurou pelos braços a moça em que Tirésias se transformava, fazendo com que se erguesse.

— Parece cansada. Venha comigo... Estou só e sua companhia me fará muito feliz.

Tirésias seguiu o pastor docilmente, junto com as ovelhas. O ambiente acolhedor da cabana lhe deu uma sensação de segurança e o cheiro do caldo que fervia no fogareiro lembrou-lhe que tinha fome. O pastor trouxe leite, queijo e um caldo grosso.

— O que está fazendo? — perguntou Tirésias, atento a todos os ruídos.

— Aqueço água para seu banho. Meu pai me ensinou que a água quente relaxa o corpo cansado.

— Sempre me banhei na água fria dos córregos ou das cachoeiras — disse Tirésias, engolindo o último pedaço de queijo.

— Pois então será uma nova experiência. Irá se sentir muito bem — ajudou-a a se erguer — Venha, de agora em diante vou cuidar de você.

Despiu-a e fez com que entrasse na tina cheia de água norma. Ela se deixou lavar docilmente, sentindo as mãos rudes do pastor massagearem suas costas, soltando toda a musculatura tensa dos ombros. E não temeu nenhum castigo dos deuses, quando as mãos hábeis percorreram seu corpo, acariciaram-lhe os seios, desceram pelo ventre e desapareceram no meio de suas pernas. Tateou à procura do rosto do pastor, enlaçou seu pescoço e, num único impulso, saiu da água. Deixou-se escorregar até o chão, abraçada ao corpo do rapaz e fizeram amor sobre a terra encharcada.

Durante sete anos Tirésias viveu com o pastor, mas a lembrança de seu passado não saía de sua mente. Às vezes voltava à floresta e, ao contato com a natureza selvagem, as imagens de Atena e Cáriclo voltavam à sua mente e tinha saudades.

No Olimpo, estavam, um dia, Zeus e Afrodite(Ἀφροδίτ) a discutir sobre o desfrute do amor, enquanto saboreavam o néctar e descansavam, sem ter nada por fazer. Zeus disse, em tom despreocupado:

— As mulheres desfrutam mais dos prazeres do amor que os homens.

Era comum que, na hora das queixas, as deusas se lembrassem de seu nome, como aconteceu com Afrodite, que disse uma vez para Zeus:

— Os homens não entendem o coração das mulheres! Talvez somente aquele adivinho de Tebas, que é mulher a sete anos, possa compreender as ânsias femininas. Mas assim mesmo tenho minhas dúvidas quanto a isto, uma vez que ele viveu esses sete anos isolados numa cabana, tendo como única companhia um pastor e suas ovelhas.

— Ora essa, deusa! disse Zeus, sorrindo — Tirésias não saberia o que é ser mulher somente porque viveu apenas com o pastor? Garanto que teve tempo suficiente para conhecer muito bem seu corpo feminino.

— Não discuto isto, Zeus. É certo que Tirésias pôde conhecer bem seu corpo de mulher, mas talvez não tenha provado todos os anseios da alma.

E voltando a observar a terra presenciaram uma acontecimento peculiar. Enquanto se erguiam os muros de Tebas, Tirésias, formosa donzela, que esperava um filho de Cálon, foi atacada por um homem chamado Glífios, de Troézen, que tentou violentá-la enquanto ela se banhava. Mas Tirésias estrangulou-o.

Zeus, curioso pelo acontecimento, querendo saber mais sobre o que pensava Tirésias na forma de mulher, achou a situação peculiar e retomou a discussão.

Na Terra, apontando o bastão para a frente, o vidente procurou várias direções e intuiu qual delas deveria escolher. E iniciou uma nova jornada.

Viveu algum tempo a floresta, conversou com os pássaros e amou as ninfas. Até o dia em que sua forte intuição lhe disse que seria chamado ao Olimpo. Procurou o caminho certo e partiu com passos lentos mas decididos...

Tirésias tornara-se conhecido dos deuses do Olimpo, primeiro pelo dom da profecia que recebera de Athena e depois pelas transformação por que passara. Era comum que, na hora das queixas, as deusas se lembrassem de seu nome.

Hera, chegando neste momento, surpreendeu-se com a discussão dos deuses e foi logo falando:

— Se Tirésias é mulher por sete anos — disse ela — certamente saberá que as mulheres amam primeiro com o coração e que os prazeres do corpo são intensos em proporção à paixão que trazem na alma.

— Discordo! — exclamou Zeus — Não creio que o prazer físico dependa da intensidade da paixão. O prazer existe no toque, no contato da pele, na excitação dos sentidos. E isso não é amor, é apenas prazer.

— Para vocês, homens! — estrilou Hera — Para as mulheres, se não houver amor, não haverá prazer.
Zeus torceu os lábios, com desdém.

— Não acredito nisso! Não venha me dizer que as mulheres conhecem sentimentos que os homens ignoram!

Hera esticou o queixo para a frente.

— Digo que as mulheres são superiores aos homens, até nos sentimentos!

— Pois eu afirmo que os homens são superiores, justamente por que não se deixam levar pelos sentimentos. O homem pensa, a mulher chora! O homem se deleita com o prazer físico, mesmo que efêmero, e a mulher só o aceita se houver amor!

Afrodite, que a tudo ouvia calada, estendeu a mão pedindo silêncio.

— Calma! Esta discussão não levará a nada! Sugiro que deixem que Tirésias se pronuncie. Se ele agora é mulher, certamente saberá dizer com precisão se existe alguma diferença entre o amor do homem e o da mulher.

O rosto de Zeus se iluminou.

— Boa ideia, Afrodite! Que chamem Tirésias à nossa presença!

Mas não foi preciso chamá-lo. Hermes(Ἑρμής), passando sempre veloz, anunciou:

— O adivinho Tirésias pede permissão para subir ao Olimpo!...

— Que agradável coincidência! — exclamou Afrodite, ajudando Tirésias a subir a última rampa de pedra. — Zeus acabou de pedir que o trouxessem ao Olimpo.

— Não creio em coincidências — disse Tirésias, com um sorriso enigmático nos lábios. — Vim porque soube os deuses me chamariam.

— Mostrou que é mesmo um adivinho. — disse Zeus, aproximando-se devagar — Mas não é de seus atributos proféticos que precisamos. Queremos que nos fale de sua experiência como mulher.

Tirésias levantou as sobrancelhas e uma interrogação apareceu em seu rosto cansado. Hera se aproximou e tocou em seu braço.

— Diga-nos, Tirésias, se é possível a uma mulher sentir prazer junto a um homem que não ama.

— Bem, — começou Tirésias, procurando as palavras certas para responder à deusa — eu não amava o pastor quando o conheci, mas nem por isso deixei de vibrar intensamente ao toque de seu corpo.

Hera ia perguntar novamente, mas Zeus a antecedeu:

— Fale, Tirésias, quem sente mais prazer, o homem ou a mulher?

Tirésias pensou um pouco, sem se importar com o silêncio ansioso com que os deuses aguardavam sua resposta. Afinal, respondeu:

— Se o prazer no ato do amor pudesse ser dividido em dez partes, nove partes seriam da mulher e somente uma parte caberia ao homem.

— Que absurdo! — gritou a deusa, furiosa — Como pode afirmar isto?

— Minha deusa, — respondeu o adivinho, sem perder a brandura da voz — o prazer da mulher depende unicamente da habilidade do homem. Posso afirmar com segurança, porque hoje sou mulher e, como tal, pude conhecer todos os segredos do corpo feminino.

A gargalhada de Zeus ribombou por todo o Olimpo.

— Ora vejam só! Quer dizer então que o prazer da mulher pode até ser mais intenso que o do homem, dependendo da habilidade de seu companheiro? Acho então, minha amada esposa, que Tirésias acaba de decretar a superioridade do homem, causa inegável dos nove décimos do prazer feminino!

Esta resposta desagradou a Hera, já que Tirésias não deveria revelar os segredos mais íntimos de uma mulher. E resolveu castigar Tirésias. Assim que lhe nasceu o filho, este padeceu de estrabismo, o que lhe valeu o nome de Estrábon. Hera não respondeu. Lançou em ambos um olhar carregado de raiva e saiu pisando duro.

Zeus, sem disfarçar o ar de vitória, abraçou Tirésias.

— Minha cara adivinha, por sua admirável boa vontade em submeter-se ao nosso interrogatório, concedo-lhe o dom de viver sete gerações humanas, além disso retornará a sua forma original da mesma forma que se metamorfoseou-se em seu aspecto feminino.

De longe, Afrodite assistira ao duelo verbal dos deuses com um sorriso divertido na boca rosada. Depois que Hera se afastou, aproximou-se languidamente e segurou Tirésias pelo braço.

— Muito bem, Zeus, deixe-me acompanhar Tirésias num passeio pelo Olimpo.

Afinal de contas, ele é hóspede e deve ser tratado como um deus. Além do mais, gostaria também de conhecer um pouco mais sobre suas... habilidades.

E Zeus não pôde deixar de reparar o ar maroto de seu rosto....

Após seu retorno a terra, Tirésias procurava o esquecimento escutando a conversa alegre dos pássaros e procurando perceber, com o auxílio do bastão, os animais que se aproximavam, curiosos.

E foi assim que viu, pela segunda vez, duas serpentes se acasalando. Um impulso intuitivo fez com que novamente as separasse com o bastão. E de novo a estranha eletricidade percorreu seu corpo, trazendo a sensação de morte iminente. Tirésias desmaiou e, quando retornou à consciência, sentiu que voltara a ser homem. Pensou em retornar para junto de Cálon e explicar tudo ao pastor, antes de seguir seu caminho, mas logo desistiu da ideia...

Fonte: Olimpo - A Saga dos Deuses
Emmanuel Mourão - Mitologia grega ao alcance de todos.

Foto: Sancient
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