MITOLOGIA

Zacreu - A primeira forma de dionisio


Zeus(Ζεύς) passeava pelos jardins do Olimpo, contemplando a natureza colorida e exótica que rodeava a morada dos deuses. Mais adiante, viu Afrodite(Ἀφροδίτ), ajoelhada na terra, contemplando a anêmona que criara pela morte de Adônis(Άδωνις).

— Tenho saudades de Adônis, de sua presença física a meu lado. — disse ela,sem levantar os olhos da flor.

Zeus se curvou e afagou de leve seus cabelos dourados.

— Vamos, Afrodite, não se entristeça tanto. Logo um novo amor ocupará seu coração e você se esquecerá de Adônis.

— Não é bem assim, Zeus. Um novo amor jamais substitui o outro que se foi. Cada um tem seu encanto próprio e, quando parte, deixa a marca indelével e dolorida de uma saudade.

Zeus ficou algum tempo a contemplá-la, em silêncio. Depois continuou seu passeio divagando:

— Tantos problemas, tantas tristezas... Sinto-me cansado. Todos me procuram em busca de soluções e muitas vezes a melhor solução os deixa desesperados. Irá ser assim para sempre? Minha imortalidade estará me condenando a ter eternos problemas e a estar sempre cercado pelas queixas e lágrimas intermináveis dos deuses e dos homens?

Calou-se para refletir. O pranto de Afrodite chegava a seus ouvidos em compassados soluços.

— Seria bom se algum deus pudesse me substituir de vez em quando. Às vezes tenho vontade de deixar o Olimpo por algum tempo e voltar ao seio do Universo. Mas não posso. Não tenho quem fique em meu lugar. Quem poderia ser?

Uma idéia iluminou sua mente e seu rosto se encheu de sorrisos.

— Já sei! Como não pensei nisto antes? Vou gerar um filho que poderá ocupar meu lugar temporariamente sempre que for necessário. Como o farei? Vamos ver... Que deusa terá condições de gestar o deus substituto do senhor do Olimpo?

Pensou um pouco e resolveu.

— Perséfone(Περσεφόνη), minha filha, a senhora dos mundos subterrâneos! Ela legará a meu filho sua determinação, sua firmeza, sua capacidade de julgar com a mente e não com o coração.

Zeus esperou até que Hélios(Ἥλιος) recolhesse seus cavalos de fogo nas estrebarias da noite e mergulhou nas sombras da floresta. Assegurou-se de que ninguém o espreitava. Depois fechou os olhos e concentrou-se em seu próprio corpo. Pouco a pouco foi se cobrindo de uma pele grossa e gelada, seus braços se ligaram ao tronco e as pernas se juntaram numa só. E seu corpo foi se afinando, alongando, tornando-se roliço e em poucos minutos Zeus havia se transformado em uma enorme serpente que desceu do Olimpo, coleando-se pela encostado monte....

No escuro mundo das profundezas, ninguém reparou na serpente que se insinuava em direção ao palácio de Hades(Άδης). Deitada ao lado do esposo adormecido, Perséfone procurava ouvir algum rumor dentro da escuridão. Uma mudança súbita na vibração do ambiente lhe dizia que alguém se aproximava. Fechou os olhos e tentou sentir o que acontecia. A vibração se tornava mais intensa a cada instante, anunciando a chegada de um deus. Em nenhum momento Perséfone teve medo, nem mesmo quando sentiu a serpente ondular sobre seu corpo, enroscar-se em torno de seu ventre e depositar dentro de si a semente sagrada....

Pouco depois que Perséfone subiu à superfície para mais alguns meses de convívio com a mãe, todos perceberam que ela ia ter um filho. À Hera(Ἥρα) não passou despercebida a ansiedade com que Zeus esperava o nascimento daquela criança e, num contato telepático, absorveu da mente de seu divino esposo a informação que tanto desejava, quando o confrontou.

— Não minta para mim, Zeus! — esbravejou ela, num rompante de ciúmes. — Sei que Perséfone espera um filho seu!

Zeus pousou na esposa um olhar profundo e tranqüilo.

— E por que havia de lhe mentir? Sim, Perséfone vai ter o filho que irá me substituir nas minhas eventuais ausências do Olimpo e que um dia, talvez, venha até a me suceder no trono.

Hera não disse mais nada, apenas saiu pisando duro, engasgada com seu ódio incontido. E, naquele preciso instante, Zeus soube que ela iria fazer tudo para destruir a criança.

E em meio a este embate olimpiano nascia Zagreu(Ζαγρεύς). Preferido do pai dos deuses e dos homens, estava destinado a sucedê-lo no governo do mundo, mas o destino decidiu o contrário. Visando proteger o filho dos ciúmes de sua esposa Hera, Zeus, antecipando o perigo, o tirou de Perséfone e entregou-o aos cuidados de Apolo(Ἀπόλλων), para que cuidasse dele junto com os Curetes, assim a criança foi levada e escondida nas florestas do Parnaso. Hera tudo fez para encontrá-lo, mas nada conseguiu.

Zagreu era um menino forte e inteligente, exatamente aquele que Zeus esperava ter como seu sucessor. Apolo e os Curetes faziam um bom trabalho. Mas Hera não se conformava. Um dia, estava ela distraída à beira do lago,quando a pergunta de sempre voltou à sua mente. Onde estará o filho de Zeus e Perséfone? Aos poucos, uma névoa cobriu a superfície da água e uma imagem turva começou a se formar. E Hera viu Apolo, viu os Curetes e viu também Zagreu. As imagens foram se tornando mais claras até que Hera conseguiu distinguir com nitidez o local onde eles se encontravam.

Assim que confirmou a localização do pequeno rebento, Hera determinou-se a destruir Zagreu,e, com um plano em mente, a deusa desceu ao Hades.

— É um enorme prazer vê-la em nosso reino — disse Hades. — A suprema senhora do Olimpo visitando o mundo subterrâneo! A que devemos sua visita?

— Preciso chegar aos Titãs — disse logo Hera, sem maiores rodeios.

Pela expressão determinada da esposa de Zeus, Hades logo percebeu que não adiantaria tentar demovê-la daquela ideia.

— Está bem, — concordou ele — eu mesmo a acompanharei.

Passaram pelo Érebos(Ἔρεβος) e seus curiosos habitantes formaram uma ala ao lado da galeria principal.

— É Hera — sussurravam vozes anônimas — É a esposa de Zeus!

— O que terá vindo fazer aqui?

— E veio sozinha, vejam!

Hera não olhava para os lados e nem conversava com Hades.

— Cuidado agora, Hera! — disse o senhor do mundo inferior — Estamos entrando no Tártaro(Τάρταρος).

Ela não respondeu. Continuou seguindo obstinadamente. Seus pés, calçados em delicadas sandálias, mergulharam numa lama escura e fétida. Suas vestes se agarravam nas árvores secas que estendiam os longos e retorcidos galhos, como garras ávidas por capturar mais uma presa, mas Hera nem vacilava. Gemidos e lamentos cortavam a escuridão, misturados aos soluços e aos gritos das aves agourentas. Os rugidos de Cérbero(Κέρβερος) faziam tremer o charco, onde criaturas viscosas mergulhavam, assustadas.

Mais adiante, a estrada enlameada dividiu-se em duas e Hades indicou o caminho da esquerda. Um ruído surdo e compassado chegou aos ouvidos de Hera. Pouco à frente, mergulhados em fétidos vapores, seis homens malhavam uma imensa bigorna. Eram os Titãs. A pele vermelha de calor brilhava, e as sombras acentuavam os contornos de sua poderosa musculatura.

Com um gesto, Hera pediu a Hades que a aguardasse e caminhou decidida em direção aos Titãs. Parecia uma criança, ao lado daqueles seres formidáveis. Nem uma sombra de medo passou pelo rosto da deusa e nem o mais leve tremor agitou seu corpo.

— Magníficos Titãs(Τιτάν) — disse ela, bem baixo, de modo a não ser ouvida por Hades. — Somente a vocês, que existem desde a Criação, posso confiar tão importante missão. Desejo que sequestrem e que liquidem Zagreu, o herdeiro de Zeus.

Os Titãs se entreolharam em silêncio e depois um deles falou:

— Como nos pede isto, se não podemos sair deste lugar infernal?

Hera retirou das vestes um embrulho que deixou sobre a bigorna.

— Encontrarão aí tudo o que precisam. Pó de gesso, que passarão no rosto,mascarando suas feições, e uma poção capaz de adormecer as três cabeças de Cérbero. Fujam na próxima barca de Caronte(Χαρων), e dirijam-se às matas do Parnaso. Incumbam-se bem desta missão e terão a minha gratidão eterna.

Os Titãs não responderam. Ficaram estáticos, com os olhos grudados na silhueta esguia que se afastava. E logo que Hera desapareceu na primeira curva do caminho enlameado, o embrulho sumiu de cima da bigorna e os Titãs se esconderam na escuridão....

Zagreu riscava a terra com a ponta de um graveto. Afastara-se um pouco da gruta onde os Curetes o haviam escondido, para buscarem alimentos. Sentia falta de Apolo, que o deixara por uns dias, para atender a seu Oráculo, em Delfos.

Ouviu um ruído e olhou. Seis homens enormes, com os rostos polvilhados por uma massa fina de gesso, a fim de não se darem a conhecer, surgiram e atraíram o pequenino Zagreu com brinquedos místicos e curiosos. Eram chocalhos feitos de ossos, um pião,uma carrapeta e um espelho. O barulho dos brinquedos atraiu o menino e seus olhos se fixaram no brilho do espelho. Sorriu e deu uns passos em direção aos recém-chegados.

No entanto, sua aguçada intuição logo fez com que pressentisse o perigo. Parou, olhou bem dentro dos olhos que faiscavam em sua direção e correu.

Os Titãs pularam sobre o menino que, para fugir dos homens imensos, metamorfoseou-se em um touro e partiu em disparada. Mas os Titãs o alcançaram. De posse do filho de Zeus, os enviados de Hera fizeram-no em pedaços; cozinharam-lhe as carnes num caldeirão e as devoraram. Quando os Curetes chegaram, encontraram os Titãs em meio a toda aquela atrocidade e gritaram, desesperados, brandindo suas lanças, pedindo misericórdia ao senhor do Olimpo.

Atraída pelo barulho, Perséfone, que acabara de voltar ao mundo superior, se aproximou e se deparou com a carnificina que ocorrera. Um grito de horror saiu de seus lábios alcançando o Olimpo e ao prantos clamou:

— Zeus, senhor da vida, deus dos deuses! Aproxime-se e restaure a vida de seu filho, cruelmente ceifada!

Do alto do monte, Zeus escutou o burburinho, repentinamente uma tristeza profunda cravou as garras em seu coração. Partiu nas asas do vento, em direção às matas do Parnaso. Ao sentirem a presença energética do senhor do Olimpo, os Titãs começaram a fugir.

Zeus tomado pelo ódio diante de tamanha atrocidade não se conteve e, enquanto os Titãs remanescentes fugiam, ergueu as céus suas mãos e fez cair sobre os mesmos uma quantidade infindável de raios, transformando-os em cinzas.

Perséfone chorava copiosamente, e vasculhava as cinzas devastadas do local.

— Porquê fizeram isso ao nosso garoto, que mal fizera a eles...

Em sua cabeça Zeus tinha apenas uma resposta: — Hera

E foi dali, das cinzas dos titãs, misturadas com a carne divina que eles tinham comido, que Perséfone encontrou ainda palpitante o coração de Zagreu.

— Um milagre, mesmo tendo sido ceifada sua vida, sua vontade de viver ainda bate no coração.

E tomando-o nas mãos chamou o senhor do olimpo junto a si e entregou-lhe o coração. E Zeus o recebeu com carinho. Naquele mesmo instante um ligeiro estalar na mata chamou sua atenção. Uma moça espiava, assustada, escondida atrás de um arbusto. Quando se viu descoberta, quis fugir.

— Um momento! — e a voz de Zeus ecoou, vibrante e poderosa.

A moça parou. Voltou-se devagar, como que atraída por uma força estranhamente magnética.

— Aproxime-se, menina! — disse ele, envolvendo-a com o poder de sua palavra.

Ela se aproximou de mansinho, os olhos esgazeados, movida por um impulso quase hipnótico.

— Como é o seu nome? — perguntou Zeus.

A resposta veio num fio de voz:

— Sêmele(Σεμέλη)... Meu nome é Sêleme...

Fonte: Olimpo - A Saga dos Deuses
Emmanuel Mourão - Mitologia grega ao alcance de todos.

Foto: Genzoman
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